Pessoas próximas ao agora ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, relataram a O Fator que ele deixou o cargo com a avaliação de que estava cansado do desgaste político e institucional e sem conseguir desenvolver as pautas que considerava prioritárias. O ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) pediu demissão nesta quinta-feira (8).
Uma das pessoas ouvidas pela reportagem contou que, logo ao fim do primeiro mês à frente da pasta, que assumiu em fevereiro de 2024, “caiu a ficha” para Lewandowski de que, apesar do histórico de 17 anos como ministro do STF, esse capital institucional se tornaria secundário na dinâmica do governo e, sobretudo, na relação com o Congresso Nacional.
Segundo interlocutores, o ex-ministro passou a se sentir desrespeitado por parlamentares durante audiências na Câmara dos Deputados e no Senado. A avaliação era de que, na interlocução cotidiana com congressistas e outros atores políticos, a pauta da segurança pública assumia peso muito superior ao da Justiça.
Essa percepção também alcançou a relação com alguns governadores de estado, especialmente nas negociações para a elaboração do texto da PEC da Segurança Pública. A proposta, no entanto, não avançou.
Lewandowski relatou aos mais próximos ainda que, em diversas ocasiões, sua experiência como ministro do Supremo e jurista não era levada em conta nessas reuniões. Na avaliação dele, parte desse desgaste também se relaciona aos atos de 8 de janeiro de 2023, quando ministros da Corte passaram a ser alvo de críticas, em um ambiente marcado por ânimos mais acirrados.
Além disso, havia frustração com a dificuldade de fazer avançar propostas consideradas centrais para sua gestão, que frequentemente esbarravam em entraves burocráticos internos no governo federal, percepção que acabou sendo personificada na figura do ministro da Casa Civil, Rui Costa, além de resistências políticas no Congresso Nacional.
A leitura entre aliados é de que a combinação entre embates públicos, pouca margem de manobra e a lentidão decisória acabou por minar o fôlego de Lewandowski no comando da pasta. Acrescentam ainda que o desembarque seria anterior, mas um pedido feito pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi o que postergou essa decisão para 2026.
Carreira
Lewandowski já foi desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJSP) e ingressou no Supremo em 2006, indicado pelo presidente Lula durante o primeiro mandato. Ele se aposentou da Corte em abril de 2023, ao completar 75 anos, idade limite para aposentadoria compulsória, e retornou à advocacia. Em fevereiro de 2024, assumiu o comando do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Na carta entregue ao presidente Lula, ele diz que a saída da pasta se dá por “razões de caráter pessoal e familiar”.
“Tenho a convicção de que exerci as atribuições do cargo com zelo e dignidade, exigindo de mim e de meus colaboradores o melhor desempenho possível em prol de nossos administrados, consideradas as limitações políticas, conjunturais e orçamentárias das circunstâncias pelas quais passamos”, diz trecho da carta.