Como o fortalecimento da cadeia produtiva dos minerais estratégicos pode acelerar a transição energética

Setores minerário e automotivo se juntam à indústria de baterias na busca por ampliação de conexões produtivas
Seminário sobre minerais críticos e transição energética, em BH
Seminário sobre minerais críticos e transição energética aconteceu em BH. Foto: Fiemg/Divulgação

Como agregar valor à cadeia de produção de minerais estratégicos como as terras raras, o lítio e o nióbio, fundamentais na transição do planeta para uma economia de baixo carbono? A busca de respostas para esta pergunta colocou lado a lado CEOs de empresas de mineração e de indústrias de baterias e motores elétricos em um encontro promovido pela Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg).

À mesa do debate, ocorrido no último dia 10, também se sentaram dirigentes de instituições financeiras e de fomento, sem as quais a agregação de valor não se daria no curto tempo em que a janela da transição energética ficará aberta.

Nessa janela, há cenários positivos e negativos. Pelo lado positivo, há a previsão de um crescimento exponencial, nos próximos anos, da demanda por minerais estratégicos. A empresa de consultoria McKinsey estima que a transição energética poderá gerar negócios da ordem de US$125 bilhões (algo em torno de R$ 700 a R$ 750 bilhões) ao Brasil nos próximos anos.

As terras raras são essenciais para a produção dos ímãs usados em turbinas para a geração de energia elétrica e nos motores elétricos. Lítio e nióbio estão presentes nas baterias, ajudando a reduzir peso e tempo de recarga.

A perspectiva negativa dos minerais estratégicos está relacionada à concentração produtiva nas mãos da China. O país asiático controla 98% da produção referente às terras raras e cada vez mais restringe a venda de ímãs ao mercado estrangeiro.

O Brasil aparece como detentor de jazidas muito expressivas de terras raras, localizadas na região de Poços de Caldas, no sul de Minas, e em Araxá, no Alto Paranaíba. Juntos, os dois pólos mineiros correspondem a 17% das reservas mundiais, conforme estudo do Serviço Geológico do Brasil. No caso do nióbio, a situação é extremamente confortável: o país detém 94% das reservas globais.

Cadeia produtiva em busca de conexão

A Weg é uma empresa catarinense que nasceu como uma fábrica de motores em 1961. Ao longo do tempo, ampliou a linha de produção e hoje é uma companhia global que, além da produção de motores, se consolidou como fornecedora de sistemas elétricos industriais completos. 

Os ativos produzidos pela Weg inserem a empresa na ponta final da cadeia produtiva das terras raras. Ana Paula Hauffe Torquato, gestora de Relações Institucionais da firma, considera que o Brasil detém a tecnologia necessária para a produção de motores elétricos automotivos e baterias, bem como expressivas jazidas dos minerais estratégicos.

Nesse cenário, o que falta, a seu ver, é a conexão entre todos os participantes da cadeia produtiva na forma de políticas públicas de longo prazo que garantam uma demanda perene, consistente e elevada. Sem isso, não será possível que as mineradoras invistam no aumento da produção.

“Nós precisamos puxar a ponta da cadeia produtiva para que o início também venha conosco”, afirma Torquato.

Ponto de vista similar foi externado pelo CEO da Companhia Brasileira de Lítio (CBL), Vinicius Alvarenga, em recente entrevista a O Fator. À ocasião ele afirmou que considera legítimo o desejo de se agregar maior valor à cadeia da mineração. Alvarenga, no entanto, fez um alerta: para que isso ocorra, apenas o desejo não basta.

Segundo o executivo, é necessário que se tenha uma escala que justifique a verticalização. Ao explicar o raciocínio, cita o minério de ferro e deixa no ar uma indagação: “Por que não se faz mais aço aqui? Falta minério de ferro? Falta dinheiro? Não. Falta mercado. Falta escala”, aponta.

De acordo com Vinícius Alvarenga, se o Brasil investisse mais em ferrovias e em construção civil e produzisse mais automóveis, o consumo de aço seria maior e, consequentemente, uma parte do minério de ferro que é hoje exportado poderia ser utilizado na produção siderúrgica nacional. O mesmo se pode afirmar em relação aos minerais estratégicos.

Para o presidente licenciado do Conselho Deliberativo do Sindicato da Indústria Extrativa Mineral do Estado de Minas Gerais (Sindiextra), Fernando Coura, o fortalecimento da cadeia produtiva dos minerais estratégicos é importante tanto para o setor mineral quanto para a indústria.

“Todos ganham”, resume.

Acumulação de energia é mercado aberto

A geração de energia solar e eólica é um exemplo de mercado com grande potencial de crescimento na área de baterias. Isso ocorre porque as chamadas energias alternativas dependem de matérias-primas – sol e vento – não disponíveis durante as 24 horas do dia. 

De acordo com Ana Paula Hauffe Torquato, da Weg, o Brasil já possui alguns fabricantes de equipamentos acumuladores de energia. Porém, a produção nacional é insuficiente para atender à demanda das empresas de geração energética.

“A demanda dessa cadeia produtiva pode ser suprida com uma célula de bateria produzida no Brasil. Espero que um dia a gente consiga realmente dar esse passo”, projeta.

Quem também ressalta a importância de se avançar nessa direção é Marcelo Rodrigues, vice-presidente de Novos Negócios da UCB Power, maior fabricante nacional de baterias estacionárias e tracionárias. Uma bateria estacionária é imprescindível para os sistemas de acumulação de energia solar e elétrica. Enquanto isso, as baterias tracionárias equipam veículos elétricos.

A UCB também fornece baterias para smartphones e notebooks e foi procurada recentemente, segundo Marcelo Rodrigues, por três fabricantes chineses de celulares que pretendem instalar fábricas no Brasil.

“Não existe transição energética sem as baterias”, ressalta.

A seu ver, o cenário atual constitui uma oportunidade única para o Brasil. Ele estima, para o setor de baterias, uma demanda da ordem de R$ 40 bilhões até 2033. Por isso, ressalta, é fundamental investir no destravamento da cadeia produtiva do setor.

Atenção redobrada

“Dá trabalho, noites de sono perdidas e muito sacrifício, mas a gente precisa perseverar para poder, junto com instituições públicas e privadas e a academia, preparar essa massa de dados, de conhecimento e de infraestrutura para poder fazer aqui. Dá muito trabalho, mas é algo que precisa ser feito”, avalia João Irineu Medeiros, vice-presidente de Assuntos Regulatórios da Stellantis do Brasil. A empresa italiana é uma das maiores montadoras de automóveis do mundo, com presença em mais de 130 países e produção em 30 países.

No Brasil, a Stellantis produz os veículos das marcas Fiat, Jeep, Peugeot e Citroën. Sua produção é da ordem de 900 mil automóveis por ano. Segundo João Medeiros, a empresa não tem a montagem de veículos 100% elétricos como prioridade atual. A aposta é nos híbridos, que também dependem de baterias.

E, para que um veículo seja competitivo no mercado brasileiro, é preciso que seja produzido nacionalmente. Por isso, segundo João Medeiros, o momento exige atenção redobrada das cadeias automotiva e de equipamentos elétricos.

“A gente precisa aproveitar tudo. E o momento é esse”, reforça.

Kilma Cunha, diretora de Operações da mineradora Vale, estima que, no curto prazo de cinco anos, o número de carros elétricos será de três a quatro vezes maior que o atual em todo o mundo. Por isso, ela enxerga um potencial de mercado promissor para a Vale Metais Básicos, empresa do grupo que atua na mineração de cobre, níquel, ouro, platina e cobalto, entre outros, e tem operações nos Estados Unidos da América (EUA), no Canadá, na Indonésia, no Japão e no Brasil.

Em meio ao avanço da procura por minerais estratégicos, João Medeiros, da Stellantis, reforça a importância das instituições públicas de fomento, como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).

Newton Hamatsu, superintendente da área de Transição Energética e Infraestrutura da Finep, diz que o setor empresarial deve estar atento às oportunidades que são colocadas pelas instituições de fomento. Consulte aqui os editas abertos.

Hamatsu reconhece que acessar os recursos nem sempre é fácil, mas ressalta que o setor empresarial está engajado no processo de fortalecimento da cadeia produtiva de equipamentos para a transição energética.

“As empresas têm visto essa oportunidade e têm realmente se engajado em desenvolver projetos nessa área”, diagnostica.

Durante o evento organizado pela Fiemg, o gerente do Departamento de Indústria de Base e Extrativa do BNDES, Pedro Paulo Dias, revelou que o banco subiu consideravelmente os aportes em projetos de inovação. Entre 2022 e o ano passado, o volume de recursos aplicados pelo banco na área  passou de R$ 2,3 bilhões para R$ 13,6 bilhões. 

“A gente está no caminho certo”, reforçou o executivo do BNDES, que, no entanto, chamou a atenção para pontos críticos que dificultam o avanço.

Conforme Dias, um dos empecilhos é o fato de o Brasil brigar por espaço com países que também têm investido na ampliação da capacidade da produção industrial a partir de minerais estratégicos.

“A gente está disputando com subsídios de grande monta de outros mercados”, apontou.

No caso das terras raras, há o empecilho da disputa com a China. Controladora do mercado global, Pequim pode impor exigências com certa facilidade.

Financiar projetos de minerais estratégicos não é fácil em nenhum lugar do mundo, porque os riscos são altíssimos e a volatilidade do mercado é enorme”, completou.

Diferenciais importantes

A despeito disso, o Brasil tem diferenciais importantes em relação à China. As terras raras da região de Poços de Caldas estão incrustadas em argila iônica em vez da rocha dura, simplificando o processo de separação dos componentes.

Nas áreas de rocha dura, é preciso detonar e moer o minério e usar uma grande quantidade de ácidos em altas temperaturas, aumentando os custos de produção. Nas terras raras de argila, a rocha já foi decomposta pela chuva e pela ação da natureza em milhares de anos, o que torna a separação menos complexa e de muito menor custo.

A mineradora australiana Meteoric está na fase final do licenciamento da mina de terras raras que pretende explorar em Caldas, cidade sul-mineira nos arredores de Poços de Caldas. Inicialmente, o projeto da Meteoric era de ir até o fim da primeira etapa, encerrado na produção do carbonato misto de terras raras para o mercado fora da China. 

Mas, ao longo do processo de implantação da empresa, houve uma mudança. Agora, os australianos pretendem chegar ao segundo nível, de separação dos óxidos dos elementos utilizados na produção dos ímãs permanentes.

Marcelo Carvalho, diretor-executivo da Meteorics, afirma que o gargalo do setor está no financiamento dos projetos. Para eliminá-lo, o apoio do governo brasileiro é fundamental. 

“O governo precisa entender que a oportunidade é gigantesca. Isso significa muito para a indústria brasileira. Significa muito para o objetivo brasileiro de liderar a transição energética mundial”, salienta o executivo.

Esse foi o ponto central das falas do presidente da Fiemg, Flávio Roscoe, e do superintendente de Inovação da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Carlos Bork, para quem o Brasil reúne todas as condições para ser a “Arábia Saudita da transição energética”, em alusão ao país líder da produção de petróleo no mundo. 

Na visão de Bork, o que falta é o setor se reunir e definir suas prioridades de investimento para o governo.

Otimista, a diretora de Operações da Vale, Kilma Cunha, também enfatizou a importância de os diversos setores que participam da cadeia de produção dos minerais estratégicos buscarem uma composição. “Nós queremos, sim, ser a Arábia Saudita do mundo”, enfatiza.

Para isso, Flávio Roscoe defende que o Brasil utilize o modelo chinês, que investiu pesado na inovação. “Com isso, o Brasil perdeu o bonde, a Europa perdeu o bonde, os Estados Unidos perderam o bonde. E a China decolou”, afirmou o dirigente, que deixou no ar uma pergunta: “Nós estamos preparados para abraçar essa oportunidade?”.

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