Desde janeiro na diretoria-executiva da COP 30, que acontecerá em Belém (PA) no mês de novembro, a economista Ana Toni diz que as conferências do clima precisam ser entendidas como “processo” e não como “reunião de duas semanas”. Embora faça questão de ressaltar que os temas levados às mesas de diálogo na capital paraense são fruto de conversas que já vêm acontecendo entre líderes mundiais, Toni acredita que a conferência brasileira servirá para impulsionar a “aceleração” rumo à utilização de medidas para transição justa, preservação de ecossistemas e valorização econômica dos ativos da natureza.
“Esperamos que a nossa COP possa ser muito emblemática no sentido de partirmos para a aceleração da implementação das soluções que já existem, porque a transição já começou. A discussão agora é sobre como a gente dá escala para essas mudanças”, afirma, em entrevista a O Fator.
Os debates sobre as formas de financiamento do fundo de US$ 1,3 trilhão que vai subsidiar iniciativas de preservação de florestas servem para exemplificar a máxima de Toni sobre as conferências climáticas serem processos. As tratativas a fim de encontrar caminhos para reunir a verba já estiveram em pauta no ano passado, em Baku, no Azerbaijão, durante a COP 29.
“A gente recebeu 116 submissões dos países membros sobre como dá para mobilizar esse valor. Criamos um círculo de ministros de finanças para que eles também pudessem sugerir como mobilizar esse valor. A partir disso, o presidente da COP 30, André Correia do Lago, e o presidente da COP 29, Mukhtar Babayev, vão entregar um relatório indicando como deveria ser direcionada essa mobilização (para viabilizar os recursos)”, conta Ana Toni.
Além de economista, a CEO da COP 30 é cientista política e fez carreira como consultora de organizações não-governamentai Entre 2015 e 2023, Toni foi diretora-executiva do Instituto Clima e Sociedade. Ela também atuou como presidente do conselho do Greenpeace Internacional, diretora da Fundação Ford e da organização social Action Aid.
Leia, a seguir, a entrevista com Ana Toni:
Estamos a praticamente quatro meses da COP 30. Você participou de várias reuniões preparatórias do evento, inclusive no exterior. Diante de tudo o que acompanhou e presenciou até agora nesses encontros, é possível prever para onde estamos caminhando e qual vai ser o desfecho da COP 30?
É importante entender a COP como um processo, e não como uma reunião de duas semanas. É um processo de mobilização global para o tema das mudanças do clima, precedido por diversas reuniões preparatórias, que vão aumentando e terão o seu ápice naquelas duas semanas. Dentro desse processo, a gente está dividindo a COP em quatro grandes pilares.
O primeiro grande momento será, logicamente, a reunião dos chefes de Estado, que dará o tom mais político e que vai acontecer nos dias 6 e 7 de novembro. Depois, teremos o segundo pilar, o da negociação, que, como todos nós sabemos, vem desde o Acordo de Paris (COP de 2015). São diversos os temas normalmente negociados nessa reunião. É uma pauta bem ampla. Um dos temas prioritários deste ano será a adaptação às mudanças climáticas, que requer um caminho especial, no qual vai ser debatido o que a gente chama de Metas Globais de Adaptação, que tem indicadores como segurança alimentar e infraestrutura, entre outros. Na agenda de adaptação, estamos trazendo para os debates muitos governos subnacionais (Estados e municípios), porque as cidades têm papel fundamental no dia a dia das pessoas. É nas cidades que esse debate se torna concreto. Então, é muito importante que os governos subnacionais também considerem prioritário o combate às mudanças climáticas.
O segundo grande tema da Agenda de Adaptação é o da transição justa. O terceiro é o tipo de encaminhamento que se dará no diálogo do balanço global. Um quarto tema, meio permanente, diz respeito ao financiamento climático, que tem estado presente em todas as COPs e estará na nossa também. No total, serão mais de 50 tópicos em negociação. Mas esses quatro tópicos são os mais robustos.
Voltando aos pilares, o terceiro grande pilar que, cada vez aumenta mais, é o da Agenda de Ação, composta por 30 objetivos-chave. São temas muito mais palpáveis, como, por exemplo, o do reflorestamento; o de se triplicar a energia renovável ou caminhar para o fim do combustível fossil; e o da agricultura regenerativa. É quando se faz a implementação do que já foi negociado e se elenca que tipos de soluções já existem para se implementar esses tópicos todos.
Por fim, destacaria o pilar da Mobilização, que é um pouco o de trazer a COP 30 e o debate sobre a crise climática para o dia a dia das pessoas. O que a gente faz ano a ano, nas COPs, tem a ver com isso. Falamos muito sobre energia renovável, painéis solares e energia eólica. Mas tudo isso começou nessas convenções. São iniciativas que agora têm um impacto direto na vida das pessoas. Os ônibus elétricos também constituem uma grande mudança tecnológica em termos de saúde. Mas essa alternativa de transporte veio à tona também a partir debates globais, nas COPs.
Então, com base nesses quatro pilares, a gente espera que a nossa COP possa ser muito emblemática no sentido de partirmos para a aceleração da implementação das soluções que já existem, porque a transição já começou. A discussão agora é sobre como a gente dá escala para essas mudanças.
Nessa agenda global, quais seriam os temas mais importantes para o Brasil?
Um tema prioritário para o Brasil seria o da adaptação às mudanças climáticas. O segundo seria o financiamento da proteção da natureza.

No que diz respeito ao financiamento das iniciativas que mantêm florestas em pé, há uma proposta pela criação de um fundo global de US$ 1,3 trilhão. Como está a busca por estes recursos?
O que foi pedido na COP 29, para acontecer na COP 30, é que os presidentes das duas COPs entregassem um relatório com propostas de como mobilizar esse US$ 1,3 trilhão. Esses debates já aconteceram. A gente recebeu 116 submissões dos países membros sobre como dá para mobilizar esse valor. Criamos um círculo de ministros de finanças para que eles também pudessem sugerir como mobilizar esse valor. A partir disso, o presidente da COP 30, André Correia do Lago, e o presidente da COP 29, Mukhtar Babayev, vão entregar um relatório indicando como deveria ser direcionada essa mobilização (para viabilizar os recursos).
É possível citar algumas fontes para a captação desse dinheiro?
A reforma dos bancos multilaterais, citada na reunião dos Brics, por exemplo, poderia trazer muitos desses recursos. Há também o mercado de carbono. E ainda as taxações internacionais, como a gente chama as taxações internacionais solidárias.
Historicamente, o desmatamento sempre deu lucro para quem usou a natureza como matéria-prima. Como transformar esse cenário, em que a terra nua era um ativo, em um cenário no qual a floresta também passe a ter o mesmo valor, ao ponto de conseguirmos limitar o aquecimento global a 1,5 °C? Haverá tempo para essa reversão?
Espero que dê tempo, e acho que se existe um momento na história em que esse debate vai ser colocado, será na COP 30, na Amazônia. O governo brasileiro e as empresas nacionais vêm trabalhando muito sobre essa valorização da natureza através da bioeconomia, do RED (Reducing Emissions from Deforestation, na sigla em inglês, ou Redução das Emissões por Desmatamento) e do TFFF (Tropical Forest Forever Facility, na sigla em inglês, ou Florestas Tropicais para Sempre), que possibilitarão o pagamento por serviços ambientais e a valoração dos ativos da natureza. Na COP 30, pela primeira vez, teremos uma cesta de instrumentos econômicos para fazer valer essa valoração.
Nas outras COPs não existiam estas propostas?
Não. Havia apenas algumas sugestões, mas não apresentadas como cestas. Agora, a gente tem muito mais instrumentos, como o Ecoinvest, o Fundo Clima, o Fundo Amazônia e vários outros instrumentos econômicos muito mais substantivos. Alguns vão precisar de ajustes; outros, vão demorar um pouco mais para pegar. Mas todos eles vão mostrar que não se tem combate à mudança do clima sem a valorização da natureza. Por isso, é necessário trazer essa questão para o cerne do debate econômico. Nesse sentido, entendo que a COP 30 vai ser um ponto de virada nesse esse debate.
Você tem dito que a crise climática é uma ‘emergência’. O que define como emergencial?
Quem diz isso são cientistas, que há muitos anos vêm nos colocando o quão emergente, o quão urgente, é o tópico de mudança do clima. O problema é que, infelizmente, a gente está vendo as consequências por termos atingido, no ano passado, o ponto de 1,5 °C de elevação na temperatura global. Isso estava previsto por alguns cientistas apenas para depois de 2030. Infelizmente, a mudança do clima está chegando muito mais rapidamente. Exemplos não faltam. As consequências são exponenciais, com uma violência muito grande, como a gente viu recentemente nas enchentes no Texas e no Rio Grande do Sul, no ano passado. A urgência da mudança do clima já está visível a olho nu. Não precisa nem a gente entender muito de ciência. Ela já está afetando a vida das pessoas, a agricultura, a segurança alimentar e o social.
A posse de Donald Trump nos Estados Unidos alterou a geopolítica climática global. Isto está trazendo algum revés para as negociações em torno dos objetivos da COP 30?
Certamente — e novamente —, porque não é a primeira vez que Trump sai do Acordo de Paris. A primeira foi no mandato passado. Isso tem impacto nas negociações e nas empresas, mas, ao mesmo tempo, a gente vê que esse impacto é também limitado, porque as empresas estão vendo que os combustíveis renováveis são economicamente melhores para elas. Tem também a questão da poluição. Além disso, os americanos não estão mais seguros da mudança do clima, como a gente viu no Texas. O que gente observa é que muitas empresas americanas e governos subnacionais americanos continuam focados em permanecer trabalhando para o combate à mudança do clima. Mas é óbvio que a saída dos Estados Unidos [do Acordo de Paris] e sua política muito agressiva de apoio aos combustíveis fósseis tem, sim, um impacto negativo grande, porque a gente não tem tempo a perder em mudança do clima.
Que lição o Brasil pode tirar a partir da COP de Belém?
A grande visão que a gente vem tentando trazer é que temos de incluir a perspectiva climática no debate do desenvolvimento, da prosperidade e do crescimento econômico. Não é mais possível a escolha por um modelo de crescimento econômico sem trazer a perspectiva climática para esses modelos, seja pelo custo da inação, seja pelas oportunidades econômicas e de adoção das novas tecnologias que esse novo cenário oferece. O segundo legado que espero que a nossa COP traga é o da valorização da natureza como um pilar essencial no combate à mudança do clima. Não é só mudar tecnologias, o que é totalmente necessário, mas, sim, pensar que a preservação das florestas e dos oceanos, é tão importante quanto as revoluções tecnológicas.
Um terceiro legado talvez seja o de mostrar que todo mundo pode fazer parte da mudança do clima nas suas escolhas diárias, como consumidores, eleitores, professores, jornalistas ou donas de casa. Todos podem, sim, fazer uma diferença.