A organização criminosa alvo da Operação Bifronte, deflagrada nesta quarta-feira (14) pela Força Integrada de Combate ao Crime Organizado em Minas Gerais (FICCO-MG), continuou sob o comando de Rodrigo Bueno, apontado como o líder do grupo, mesmo com ele já preso na Penitenciária de Uberaba, no Triângulo Mineiro.
O Fator apurou que a investigação pediu à 1ª Vara Federal Criminal de Uberaba as prisões, buscas e bloqueios executados nesta quarta. Integrantes da força-tarefa atribuem ao grupo a movimentação de 3,1 toneladas de drogas apreendidas desde 2024.
Segundo a investigação, a organização comprava cocaína na Bolívia e no Peru, distribuía a droga pelo Brasil e enviava cargas para a Austrália. A Justiça autorizou a transferência de Bueno e de outro preso, apontado como liderança de uma facção do Rio Grande do Norte, para o sistema penitenciário federal.
A operação cumpriu 46 mandados em Minas Gerais, Rio Grande do Norte, Goiás, Santa Catarina e São Paulo: 23 de prisão, 20 de busca e apreensão e 3 de recolhimento domiciliar com tornozeleira eletrônica. Até a última atualização, no final da manhã, 18 dos 23 mandados de prisão tinham sido cumpridos.
Em Minas, os policiais estiveram em Uberlândia, Guaxupé e São João del Rei. Uberlândia concentrou nove buscas e quatro prisões. A Justiça também determinou o sequestro de até R$ 187 milhões em bens e valores de 69 pessoas e empresas, de 11 imóveis e de uma aeronave, além de duas difusões vermelhas na Interpol, alertas usados para prender foragidos no exterior.
Um BMW e um mandado por latrocínio
A investigação começou em uma abordagem da Polícia Militar. Rodrigo Bueno dirigia um BMW X6 M Competition, avaliado em mais de R$ 800 mil, e apresentou documentos falsos em nome de Rafael Martins. Contra ele havia um mandado de prisão por condenação por latrocínio, roubo seguido de morte. O carro estava registrado em nome de outra pessoa.
A Justiça estadual autorizou o acesso ao celular de Bueno. Nas mensagens, os policiais encontraram indícios de tráfico internacional e lavagem de dinheiro, o que levou à abertura do inquérito na FICCO. Depois vieram interceptações telefônicas, a quebra de sigilo de contas em nuvem e relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Segundo fontes, Bueno negociava pasta base e cloridrato de cocaína diretamente com um fornecedor boliviano identificado apenas como “Dany”. Em uma anotação compartilhada com um dos investigados, aparece a conta “40 x 23.000 = 920.000”, que a polícia interpreta como a venda de 40 quilos de cocaína a R$ 23 mil o quilo. A mesma anotação registra R$ 642 mil já recebidos e R$ 278 mil a receber.
Ordens da cadeia
A PF afirma que Bueno continuou a dar ordens aos integrantes do grupo depois de preso na Penitenciária de Uberaba. Para a FICCO, a custódia em presídio estadual não interrompeu a comunicação dele com a organização.
O segundo preso enviado ao sistema federal é Belquior Mateus Alves de Lima, o “Campa” ou “Campanha”. Na organização de Bueno, ele guardava e distribuía dinheiro. Em maio de 2025, prestou contas ao chefe e informou que ainda tinha R$ 273,4 mil sob sua guarda. Em outro pagamento, transferiu R$ 10 mil a uma relojoaria de Florianópolis (SC) pela compra de um Rolex para Bueno.
Segundo a polícia, Belquior é registrado no sistema penitenciário como liderança do Sindicato do Crime do Rio Grande do Norte (SDC/RN). Investigadores apontam que ele teria pago R$ 60 mil para colocar um celular dentro do presídio e que há indícios de que financiava a compra de armas para a facção, organizava resgates de presos e planejava atentados contra agentes de segurança.
Conexão Colômbia-Austrália
O núcleo internacional inclui o colombiano Germán Anuar Cano Méndez, que, segundo a polícia, já foi condenado por tráfico na Venezuela. Na conta em nuvem de outro investigado, Ricardo Alberto Dutra Scarabelo, os agentes encontraram uma videochamada de fevereiro de 2025 em que aparecem malas com tabletes de droga e alguém diz que a carga “já havia chegado”. A mesma conta guardava arquivos que, segundo a FICCO, mostram remessas de drogas para a região da Harbour Bridge, em Sydney, na Austrália.
Apartamento de R$ 1,6 milhão
A polícia descreve um núcleo financeiro com 14 integrantes encarregados de receber, dividir e repassar o dinheiro em contas de terceiros, em transferências fracionadas para escapar dos alertas dos bancos. Um deles, Warmyd Wenglleedy da Silva Fernandes, movimentou R$ 2,76 milhões entre outubro de 2024 e julho de 2025, valor que a polícia considera incompatível com a renda dele. Outro, Michael Jackson da Silva Vanderley, o “Zóio”, registrou mais de R$ 724 mil em pouco mais de um mês.
Os bens ficavam em nome de familiares e de terceiros. A filha de Bueno, de 21 anos e sem emprego formal, comprou em novembro de 2025 um apartamento em Uberlândia avaliado em R$ 1,6 milhão, com entrada de R$ 1,3 milhão.
A mulher dele, cujo último emprego formal terminou em 2008, comprou em fevereiro de 2026 um sítio em Prata (MG), pago em dinheiro vivo. O imóvel tinha sido adquirido três meses antes por Liliane Soares de Araújo, apontada como “laranja” do grupo.
No nome de Liliane também estavam uma chácara de R$ 2 milhões em Cumari (GO), usada pela família de Bueno, e o carro usado pela filha dele. O carro foi apreendido em junho de 2026 com um motorista preso em outra operação, que transportava 425 quilos de cocaína.
O valor de R$ 187 milhões pedido para bloqueio corresponde à movimentação financeira atípica do grupo identificada pelo Coaf. A própria polícia diz que o número está “muito aquém da realidade”.
Os investigados podem responder, de acordo com a participação de cada um, por tráfico internacional de drogas, associação para o tráfico, lavagem de dinheiro e organização criminosa. A FICCO/MG reúne a Polícia Federal e as polícias Civil, Militar e Penal de Minas Gerais.
Cinco flagrantes
A polícia liga ao grupo cinco apreensões, que somam 2.422 quilos de cocaína, 688 quilos de maconha e 10 quilos de skunk.
A maior ocorreu em 31 de outubro de 2024, em Alto Garças (MT). A Polícia Rodoviária Federal encontrou 961 quilos de cocaína em 33 tonéis escondidos sob uma carga de milho. Seis dias antes, quatro veículos do conjunto tinham sido transferidos para o nome do motorista. Segundo a investigação, esse era o método do grupo: passar caminhões para o nome dos motoristas pouco antes das viagens, para afastar o vínculo com os verdadeiros donos.
Em 17 de outubro de 2025, em Campina Verde, no Triângulo Mineiro, a polícia apreendeu cerca de 500 quilos de cocaína em um compartimento escondido de um caminhão baú. Mensagens entre Bueno e Fernando Rocha, o “Traquinas”, mostram a negociação do frete em maio daquele ano: R$ 30 mil, mais R$ 5 mil para levar a carga até a região de Recife.
As outras apreensões ocorreram em Campo Novo do Parecis (MT), em julho de 2025, com 454 tabletes de cocaína e 10 de skunk escondidos em um caminhão-tanque; em Goiana (PE), com 688 quilos de maconha; e em Diamantino (MT), em janeiro de 2026, com 476 quilos de pasta base em compartimentos ocultos de um tanque.
Nos três casos, os veículos tinham passado pela Tempo Novo Transportes (TNT), empresa que, segundo a polícia, era administrada por Elias da Silva, o “Magrinho”. Ele está foragido, condenado a 10 anos e 8 meses de prisão por tráfico.
