A mineira Silvia Capanema, deputada do departamento de Seine-Saint-Denis, na França, disse a O Fator nesta sexta (6) ter defendido a ideia de um doutorado honoris causa para Lula na Universidade de Paris 8, em oposição a professores franceses que sustentavam que o presidente apoia o russo Vladimir Putin.
“Achei a iniciativa maravilhosa e apoiei”, disse Capanema, que também é professora universitária. Ela compareceu à cerimônia e tirou uma foto com Lula e Azzédine Taïbi, prefeito da cidade de Stains, na periferia de Paris.
“Porque houve um momento em que havia uma reação interna de alguns professores, dizendo que não podiam dar o título para o Lula, porque ele apoia o Putin. Eu trabalhei muito para desconstruir essa ideia, que é um absurdo, que não tinha o menor sentido”, acrescentou a deputada.
“A popularidade do Lula é muito maior do que isso [a oposição]. Ele foi abraçado com grande entusiasmo pela comunidade e pelas pessoas presentes”.
Mineira de BH, Silvia estudou no Colégio Loyola e na UFMG, e fez mestrado e doutorado na França.
Além de deputada pelo partido França Insubmissa, de esquerda, é professora na área de História na Sorbonne Paris Nord (também chamada Paris 13).
Leia a seguir os principais trechos da entrevista por telefone.
Como foi seu encontro com o presidente Lula?
O público francês ficou muito impressionado com a trajetória dele. E eu levei ali comigo dois deputados. Tinha o prefeito da cidade vizinha (Azzédine Taïbi, prefeito de Stains), ele é muito admirador do Lula, da trajetória do Lula. Ele fez questão de ir.
Como é que está sendo tratado no público francês o acordo União Europeia-Mercosul, dada a oposição pública do presidente Macron?
A oposição aqui é muito grande, baseada em duas questões.
Uma é o protecionismo da agricultura, porque a França é um país também agrícola, e os agricultores já estão sofrendo muito com o livre comércio neoliberal, dos anos já da União Europeia, com toda essa questão. E a segunda razão é ecológica, porque o Brasil usa agrotóxicos que são muito condenados e criticados aqui na União Europeia.
Quando a senhora participa dessas conversas, a senhora dá razão a esse tipo de oposição, ou a senhora defende a assinatura do acordo entre União Europeia e Mercosul?
Eu não sou a favor desse acordo. Eu acho que existem também pessoas no MST, por exemplo, que são contra. O que eu acho possível é chegar a acordos que forcem outra relação com a agricultura, com pequenos e médios produtores. Se for um acordo que vai favorecer a reforma agrária, que vai favorecer esses movimentos dessa agricultura camponesa. Também contra os agrotóxicos. Agora, pelo que tudo indica, o acordo não é dessa natureza, é mais um acordo de agribusiness. Então, eu não posso ser a favor disso. Nós já sabemos, desde a época do Ciclo do Café, o problema que é ter uma economia baseada em agribusiness. Agora, eu sou a favor do Brasil e do Lula e em todas as políticas que ele coloca e, inclusive, que o Brasil tenha um ótimo desempenho mundial.
Tá. Mas o presidente Lula é a favor da assinatura do acordo União Europeia-Mercosul.
É. Agora, o que está dentro desse acordo? Ele está vendo os interesses da agroexportação. Eu acho que pode ter outros caminhos. É só isso. Se eu fosse entrar para trabalhar sobre esse acordo, teria que estudar umas formas de outros caminhos que não fosse um acordo de agronegócio.
Deputada, o presidente Lula falou agora há pouco, no encerramento do Fórum Econômico Brasil-França, que o Brasil não tem história. Como a senhora avalia essa fala dele?
Não acho que ele quis dizer isso. Eu acho que ele quis dizer que nós temos ainda que construir uma história. Por exemplo, qual seria o mito de origem da França? A Revolução Francesa. E, para nós, nos falta encontrar essa história, no sentido de como foi construída, em que momento se constrói a cidadania, a democracia brasileira. Então, é muito jovem. Um dos momentos fortes foi justamente depois da ditadura. É muito jovem tudo isso. Então, é uma história em que uma elite se impõe, uma elite econômica, e nem sempre construindo algo coletivo, algo com modernidade política, modernidade democrática, modernidade econômica e social, de inclusão social. Então, ele deve ter dito nesse sentido.
E voltando aqui para a questão desse convencimento dos professores franceses. Quando esses professores franceses diziam “o Lula é um apoiador do Putin”, como a senhora argumentava para convencê-los?
A gente mostra que o Lula condenou a invasão. Que o Lula condena em todas as declarações a invasão da Ucrânia. E ele se posiciona por uma negociação de paz. Ele não vai ter a mesma posição da União Europeia. E ele tem razão. Porque ele tem que ver o ponto de vista brasileiro.
O ponto de vista brasileiro hoje é trabalhar com o BRICS, trabalhar no banco do BRICS. A China é o principal parceiro comercial do Brasil. Então, a posição dele é muito coerente e muito inteligente. É uma posição que ele declarou claramente contra a guerra, contra as invasões da Rússia. Mas que não vai até as sanções. Que na verdade se mostraram ineficazes e ruins. O Celso Amorim publicou um artigo bom no Le Monde diplomatique, que eu citei em entrevista [no artigo, Amorim sustenta que a guerra não é mais apenas “um confronto entre Moscou e Kiev”]. Eu entendo perfeitamente o ponto de vista do Brasil. E a Europa tem que entender também.
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