Empresário preso pela PF comprou apartamentos no mesmo prédio de juízas em BH para intimidá-las, diz investigação

Alan Cavalcante foi preso nesta quarta-feira (17) durante a operação Rejeito, que mira grupo criminoso atuando em MG
Grupo arquitetou uma rede empresarial e operacional dedicada a obter autorizações e licenças em áreas tombadas e de risco elevado de desastre. Foto: Luiz Santana/ALMG

O empresário Alan Cavalcante do Nascimento, preso nesta quarta-feira (17) pela Polícia Federal (PF) no âmbito da operação que apura fraudes em licenciamentos ambientais de projetos minerários, desenvolveu uma estratégia de intimidação contra juízas federais por meio da compra de imóveis no mesmo edifício onde elas residiam, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH).

Segundo as investigações, Alan adquiriu um apartamento no mesmo prédio que abrigava a magistrada responsável por julgar um processo criminal em que ele era réu. A compra aconteceu seis meses após a denúncia do Ministério Público Federal (MPF) que originou a ação. Alan adquiriu a unidade habitacional com o objetivo declarado de “criar relacionamento social” com a juíza, segundo a investigação.

Um dos casos aconteceu em um prédio de alto padrão em Nova Lima, onde mora a juíza federal Gabriela de Alvarenga Silva Lipienski, responsável pela ação penal resultante da Operação Poeira Vermelha. O padrão se repetiu em caso anterior, quando o empresário adquiriu imóvel no mesmo condomínio da magistrada responsável pela vara criminal de Sabará, cidade onde mantém operações de mineração.

Os investigadores apontam que Alan operava um sistema de monitoramento de autoridades públicas. Foi localizada planilha detalhada contendo informações sobre juízes, procuradores e membros de entidades da sociedade civil, com dados de identificação, função exercida e até posicionamentos políticos. A planilha era compartilhada no grupo de WhatsApp “Três Amigos Mineração”, usado pelos líderes da organização criminosa.

Entre os nomes mapeados constavam a Procuradora da República Silmara Cristina Goulart, atuante no núcleo ambiental, e as juízas Kellen Cristini de Sales e Souza e Ana Paula Lobo Pereira de Freitas, ambas responsáveis por casos de mineração na região de interesse do grupo. A existência desse mapeamento evidencia, segundo a investigação, “a estratégia adotada para fins de monitorar e obstar decisões contrárias ao interesse do grupo”.

O apartamento

Alan comprou o apartamento em Nova Lima em 2 de agosto de 2023, quatro meses depois que a juíza Gabriela Lipienski recebeu a denúncia contra ele no processo da Operação Poeira Vermelha. O imóvel foi registrado em nome da empresa NALA Participações, controlada pelo empresário.

De acordo com depoimento da ex-esposa de Alan, Mônica Mendes Cavalcante, à PF, o empresário manifestou expressamente que buscava apartamento no mesmo edifício para residir próximo à magistrada.

“Ele tava (sic) olhando apartamento no prédio, e depois eu fui saber que era ela que morava lá, mas que ele já tinha comentado que a juíza, que tinha que ser no mesmo prédio da juíza”, relatou Mônica aos investigadores. Ela confirmou ainda que Alan mencionou o desejo de “criar relacionamento social” com a magistrada como motivação para a escolha do imóvel.

A decisão judicial que autorizou as medidas da operação desta quarta-feira classifica a conduta como “clara intenção de criação de vínculo de forma a evitar a persecução penal ou como forma de intimidação da magistrada”. O documento ressalta que o imóvel “foi utilizado como meio de aproximação e intimidação” e que essa conduta “atinge o núcleo da função jurisdicional”.

Repetição do padrão em Sabará

A estratégia não se limitou a um caso isolado. Anteriormente, Alan havia comprado imóvel em outro condomínio em Nova Lima, para tornar-se vizinho da juíza Anna Carolina Goulart Martins e Silva, responsável pela vara criminal de Sabará. A escolha tinha relação direta com os interesses criminosos do empresário, uma vez que sua empresa Fleurs Global mantém operações de mineração nos municípios de Raposos, Nova Lima e Sabará.

Segundo depoimento de Mônica Mendes, Alan “tentou se aproximar e estabelecer relações pessoais de vizinhança com a magistrada”.

A investigação confirmou que Anna Carolina atua como magistrada responsável pela vara criminal de Sabará, evidenciando o interesse estratégico de Alan em criar vínculos com quem poderia julgar casos relacionados às suas atividades na região.

A Justiça Federal considerou comprovado que “na casa em frente à do casal nesse condomínio residia uma magistrada de Sabará”, configurando mais um episódio da tentativa sistemática de aproximação de autoridades judiciárias.

Histórico

A investigação revelou que Alan possui um histórico de ameaças e agressões. Em 2017, foi registrado boletim de ocorrência relatando que Alan ameaçou de morte pessoa com quem negociava equipamentos. Em 2024, dois novos registros documentaram agressões físicas e verbais contra sua atual companheira e ameaças via aplicativo de mensagens contra a ex-esposa.

Esse histórico de violência, segundo a investigação, confere caráter ainda mais intimidatório às tentativas de aproximação das magistradas através da compra de imóveis nos mesmos edifícios onde residem. A estratégia vai além da simples tentativa de influência, configurando método sofisticado de coação psicológica contra autoridades judiciárias.

A investigação documentou ainda ações sistemáticas de destruição de provas após a deflagração da Operação Poeira Vermelha. Alan determinou que empregados fizessem desaparecer livros contábeis e documentos, com testemunhas presenciando a queima de uma mala de documentos enquanto as câmeras de segurança eram desligadas.

Operação Rejeito

Alan Cavalcante do Nascimento foi preso nesta quarta-feira como um dos 22 alvos da Operação Rejeito, que cumpriu 79 mandados de busca e apreensão contra organização criminosa especializada em fraudar licenciamentos ambientais para mineração irregular em Minas Gerais. O esquema, que envolve conglomerado de mais de 40 empresas, já movimentou R$ 1,5 bilhão e mantinha projetos com potencial econômico superior a R$ 18 bilhões.

A investigação demonstra que Alan coordenava organização criminosa que ampliou exponencialmente as atividades após se tornar réu na Operação Poeira Vermelha, de 2020. Entre novembro de 2020 e maio de 2022, o grupo criou 21 novas empresas de fachada e expandiu a rede de corrupção para múltiplos órgãos públicos, mantendo como estratégia central a neutralização de autoridades judiciárias através de métodos que vão da tentativa de cooptação à intimidação psicológica via proximidade física forçada.

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