Entre 1994 e 2014, PT e PSDB polarizaram todas as seis eleições presidenciais do Brasil. Durante mais de duas décadas, qualquer aliança entre petistas e tucanos nos principais municípios e estados do país era quase impensável. A palavra “quase” tem importância fundamental na frase porque em 2008, no auge da rivalidade entre as duas legendas, as maiores lideranças políticas de Belo Horizonte e de Minas Gerais conseguiram concretizar um acordo que até hoje, 17 anos depois, tem repercussões diretas na vida interna do PT mineiro.
O partido, que nos últimos anos teve de lidar com as rachaduras originárias de uma divisão interna, viu as fissuras serem expostas em praça pública nas últimas semanas, durante os preparativos para a eleição interna. A disputa teve como ápice a batalha judicial quanto à participação da deputada federal Dandara Tonantzin na corrida pela presidência do diretório estadual petista. A parlamentar teve a candidatura indeferida pela instância nacional da legenda por causa de uma dívida partidária, mas conseguiu uma liminar para constar nas cédulas de votação. A medida cautelar foi posteriormente derrubada; apesar disso, o vaivém de decisões gerou o adiamento da eleição.
O pleito, anteriormente marcado para o dia 6, foi transferido para este domingo (13). Marcados pelas cicatrizes do novo capítulo de um cisma iniciado com a união de PT e PSDB em torno da candidatura de Marcio Lacerda (PSB) à Prefeitura de BH, os correligionários de Lula terão de escolher entre a deputada estadual Leninha, o professor de História Juanito Vieira e o advogado Esdras Juvenal Queiroz. Qualquer que seja o novo cacique, o resultado interrompe, ao menos no que tange ao posto máximo do partido, um período de domínio do grupo do deputado federal Reginaldo Lopes.
Nesta reportagem especial, O Fator conta bastidores de uma das mais engenhosas obras eleitorais do Brasil nas últimas décadas — os nós da costura “Pimentécio” em torno de Lacerda — e destrincha os fatos que ligam a aliança de 2008 às avarias posteriormente sofridas pelo PT.
O ano que não acabou
Por mais inusitado que possa parecer, as direções de PT, PSDB e PSB em Belo Horizonte se viram obrigadas a embarcar, naquele 2008, aos trancos e barrancos, em uma estranha convergência de siglas com projetos conflitantes para a sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que deixaria o cargo dali a dois anos.
Àquela data, o PT comandava a capital mineira com Fernando Pimentel, que estava para encerrar seu segundo mandato. O nome natural dos petistas para a sucessão era o do deputado estadual Roberto Carvalho, presidente municipal do partido.
Os tucanos, por sua vez, viviam em Minas um momento de grande poder político sob a liderança do então governador Aécio Neves — reeleito em primeiro turno com mais de 77% dos votos para o seu segundo mandato à frente do Palácio da Liberdade (a Cidade Administrativa ainda era um plano, um croqui).
Os aecistas aguardavam a definição do candidato — fosse tucano ou de algum partido aliado — que tentaria, depois de 16 anos, interromper a dinastia da esquerda na Prefeitura de BH.
Enquanto isso, no PSB, que ainda estava fora da equação e havia governado a cidade de 1997 a 2001, com Célio de Castro, dois recém-filiados se apresentavam para a disputa: a ex-reitora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Ana Lúcia Gazzola, e o empresário Marcio Lacerda Ambos eram o “plano B” dos socialistas. O nome original do projeto era o empresário e ex-ministro Walfrido dos Mares Guia.
Walfrido acumulava trajetória como vice-prefeito de Contagem (1993-1994), vice-governador de Minas (1995-1999) e deputado federal (1999-2002). Após coordenar a campanha de Ciro Gomes no primeiro turno das eleições presidenciais de 2002, assumiu o Ministério do Turismo no governo Lula. No segundo mandato do petista, ocupou por breve período a Secretaria de Relações Institucionais.
Além da relação próxima com Lula, Walfrido também tinha laços políticos com Aécio Neves e com o então vice-presidente José Alencar, fundador do recém-nascido PRB, legenda que posteriormente se transformaria no Republicanos.
Naquele período, o PT de Lula e o PSDB de Aécio mantinham relações cordiais. Aécio, que presidira a Câmara dos Deputados, exercia influência sobre o Legislativo e atuara para conter articulações por um impeachment de Lula no auge do escândalo do mensalão.
Era nesse ambiente que se consolidava o apelidado “Lulécio”: uma dobradinha tácita em que PT e PSDB evitavam confrontos diretos, inclusive nas disputas presidenciais e estaduais.
Engenharia política
Nos bastidores, Walfrido articulava uma aliança que se propunha à difícil missão de unir petistas e tucanos em uma chapa pelo comando da Prefeitura de Belo Horizonte. O desenho político avançou, mas sofreu um revés quando o empresário apareceu em foi citado nas investigações da CPMI dos Correios.
A comissão, criada para apurar irregularidades envolvendo um diretor dos Correios, ampliou o alcance após as denúncias de Roberto Jefferson (PTB), que revelou um esquema de compra de votos conhecido como Mensalão. No curso das apurações, o publicitário Marcos Valério, apontado como operador do esquema, foi ligado também a campanhas tucanas.
As revelações atingiram o senador Eduardo Azeredo (PSDB), então presidente nacional da legenda, e respingaram em Walfrido, que fora seu vice-governador. A pressão foi tanta que Mares Guia renunciou ao cargo de ministro e se recolheu, afastando-se das articulações eleitorais.
Com Walfrido fora do tabuleiro, Aécio Neves patrocinou a entrada de Gazzola e Lacerda no PSB, legenda que integrava as bases de apoio tanto ao governo mineiro quanto ao federal.
O candidato da ‘aliança‘
Sob a articulação do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, e de Ciro Gomes, o PSB apresentou ao presidente Lula e ao então presidente nacional do PT, o deputado federal Ricardo Berzoini (SP), um pacto eleitoral. As tratativas iniciais previam o abandono de um projeto presidencial do PSB para 2010, com apoio ao nome que seria escolhido por Lula. Àquela altura, a mineira radicada no Rio Grande do Sul Dilma Rousseff já despontava como “possibilidade”.
Em troca, Lula e o PT apoiariam o PSB nas eleições municipais, em cidades como BH e Recife. Foi aí que a eventual candidatura de Marcio Lacerda recebeu sinal verde de Lula. Empresário do setor de telecomunicações, Lacerda havia sido secretário-executivo do Ministério da Integração Nacional (2003-2005), durante a gestão de Ciro Gomes, e assessor na área de tecnologia e desenvolvimento regional da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg).
Além de empresário bem-sucedido, Lacerda foi preso político durante a ditadura militar, cumprindo pena no presídio de Linhares, em Juiz de Fora. No mesmo cárcere, estiveram detidos diversos dirigentes que anos depois participariam da fundação do PT — entre eles, Fernando Pimentel.
A condição empresarial de Marcio Lacerda lhe dava outra vantagem frente às regras eleitorais da época: nas eleições de 2008 não havia fundo eleitoral nem partidário. Em um cenário pós-Mensalão, um candidato capaz de arcar com a maior parte dos custos da própria campanha era considerado “atrativo” para as lideranças petistas no Planalto Central.
A costura em prol de Lacerda também ganhou a adesão de Aécio, que nomeou o empresário secretário de Estado de Desenvolvimento Econômico em abril de 2007. Também pesou a favor dele a amizade com Ciro Gomes, de quem fora um dos principais financiadores de sua campanha presidencial em 2002.

Só faltou combinar com os ‘russos‘
Lacerda não era propriamente um desconhecido dos petistas. Em 2004, ele e Ciro Gomes bateram ponto na convenção que oficializou a candidatura à reeleição de Pimentel em BH. O descompasso quanto a uma possível união ao ninho tucano para apoiar o empresário em 2008, entretanto, era latente.
A resistência a uma aliança com o PSDB era vocalizada por figuras como Patrus Ananias, ministro do Desenvolvimento Social e cotado para a sucessão de Lula, Luiz Dulci, então secretário-geral da Presidência, e Nilmário Miranda, à época ministro dos Direitos Humanos e duas vezes superado por Aécio em disputas estaduais. O coro contrário à possibilidade era engrossado por outras lideranças, como os deputados estaduais André Quintão e Rogério Correia, bem como Gleide Andrade. Hoje tesoureira nacional do PT e dona da chave dos cofres do partido, Gleide, à época, tinha ascendência menor, mas atribuição similar, ocupando a secretaria de Planejamento e Finanças do diretório mineiro.
O grupo contrário ao “Pimentécio” chegou, inclusive, a conseguir da Executiva Nacional do PT a aprovação de um documento de veto a uma aliança com os tucanos. Uma reviravolta, entretanto, não tardaria a acontecer.
Ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff estava nos Estados Unidos quando o veto foi aprovado. Mesmo no exterior, Dilma resolveu se envolver na questão, ligando para Pimentel, de quem era amigo desde os tempos da ditadura, para manifestar preocupação com a decisão do PT de barrar a formação de uma frente com o PSDB.
Outros 141 diretórios municipais do partido em Minas também pediam a aprovação de alianças com o PSDB, além do então PPS (hoje Cidadania) e do Democratas (DEM), as três principais legendas oposicionistas ao governo Lula.
Não era pouca coisa. As 141 cidades que reivindicavam a prerrogativa de formar coligações com legendas de oposição representavam 52% das 267 diretorias municipais que informaram ao PT estadual sobre as costuras locais para a eleição de 2008. Entre os 141 diretórios, 63 queriam se aliar ao PSDB; outros 34 manifestaram a intenção de se coligar ao PPS, enquanto 44 miravam o DEM.
Pedido de casamento e contrato nupcial
Pimentel, então, foi a Brasília se encontrar com Ricardo Berzoini e com José Eduardo Cardozo, então secretário-geral do PT. O prefeito de Belo Horizonte alertou que o veto à aliança com os tucanos poderia levar o PSDB a uma coligação com o PMDB — o que, em sua avaliação, poderia resultar em uma derrota petista na capital mineira.
Em favor do apoio a Lacerda, Pimentel reuniu uma comitiva formada pelos deputados federais Miguel Corrêa e Virgílio Guimarães, pelo deputado estadual Roberto Carvalho e pela vereadora Neusinha Santos.
Após meses de embate interno, o deputado federal Reginaldo Lopes e o deputado estadual Durval Ângelo sinalizaram apoio ao movimento de Pimentel. O gesto de Lopes e Ângelo sacramentou o aval do PT mineiro à dobradinha com o núcleo de Aécio.
Do outro lado, Aécio também mexeu suas peças. Na condição de governador, foi a Brasília conversar com Lula para que interviesse pela aprovação da coligação. Deu certo. O petista chegou a criticar a decisão da direção nacional do PT:
“Eu confesso que, depois de o PT de Minas aprovar […], a direção nacional do partido poderia tranqüilamente apenas ter confirmado tudo o que aconteceu. Se tivesse que fazer uma repreensão ao Pimentel, que a fizesse em segredo, porque o jogo estava sendo feito à luz do dia”, disse, à época.
O casamento estava arranjado. Faltava apenas combinar os termos do contrato nupcial. Ficou acordado, então, que a dobradinha entre PT e PSDB seria informal. Os petistas compuseram a coligação do PSB, liderada por Lacerda. Os tucanos também davam apoio à candidatura do empresário, mas não apareciam listados na sopa de letrinhas de 11 agremiações que apareciam nas propagandas como apoiadores nas propagandas televisivas dos socialistas.
Lula, inclusive, foi a público referendar o projeto político conjunto entre o PT e o PSDB belo-horizontinos.
“Vou participar pouco das eleições. Mas BH é uma das cidades que eu quero ir, até porque é importante a continuidade do projeto. BH está dando certo, a relação entre o prefeito e o governador tem sido boa, as divergências políticas têm que ser encaradas com uma certa naturalidade”, pontuou.
De olho na disputa com José Serra pela indicação tucana à presidência em 2010, e convencido de que seu perfil conciliador era o melhor ativo na competição, Aécio articulou para que o diretório do PSDB de Belo Horizonte aprovasse, com 85 dos 88 votos possívels, o apoio informal à chapa encabeçada por Marcio Lacerda, que teria como vice o petista Roberto Carvalho.
A adesão dos petistas, entretanto, ficou longe de conquistar a unidade partidária. Durante toda a campanha, dissidentes manifestaram apoio às candidaturas dos deputados Jô Moraes (PCdoB), no primeiro turno, e de Leonardo Quintão (PMDB), este último derrotado por Lacerda no segundo turno.
Breve lua de mel e divórcio
O início do casamento entre PT e PSDB foi intenso. A soma de forças fez com que Lacerda superasse Quintão e garantisse a chave da prefeitura. O racha que a aliança levou ao seio petista, entretanto, parecia cada vez mais latente. As fissuras fizeram com que a governabilidade do novo prefeito fosse ameaçada desde o início.
Prova disso é que já no segundo ano da gestão Lacerda, em 2010, Roberto Carvalho rompeu com o chefe e passou a atuar na organização do “Fora, Lacerda”, movimento que ganhou corpo a partir das manifestações na Praça da Estação. Os atos, regados a música e banhos de caminhões-pipa, ganharam o apelido de “Praia da Estação”.
A transformação do concreto cinza da Praça da Estação em praia foi uma resposta a normas lançadas pela prefeitura para restringir a organização de eventos públicos e privados no entorno do local.
Os sinais de desgaste da união fizeram com que o caminho rumo ao divórcio fosse paulatinamente pavimentado. A assinatura do desquite veio ainda em 2010, após as vitórias de Dilma, eleita presidente da República, e de Antonio Anastasia, escolhido governador de Minas. Os embates travados por PT e PSDB nas duas disputas tornaram inviável a continuidade da parceria.
Em 2012, com o PT rompido com Lacerda, é a vez do PSDB integrar formalmente a coligação do PSB. Os petistas, então, escolhem Patrus Ananias para enfrentá-lo. A eleição foi resolvida já no primeiro turno, com o prefeito conseguindo 52,69% dos votos e carimbando o passaporte para um novo mandato.
A eleição de 2012 foi a última em que o PT assumiu papel de destaque em Belo Horizonte. Em 2016, Reginaldo Lopes obteve 7,27% dos votos. Quatro anos depois, Nilmário Miranda ficou com 1,88%; em 2024, Rogério Correia terminou o primeiro turno com 4,37% dos votos válidos.
Nas eleições presidenciais de 2014, mesmo com o PT oficialmente fora da Prefeitura de Belo Horizonte, os efeitos de 2008 ainda repercutiam. O apoio de Lacerda a Aécio gerou reação interna nos diretórios petistas: defensores do apoio ao PSB seis anos antes passaram a ser cobrados pelos dirigentes que reivindicavam uma candidatura própria à sucessão de Pimentel.
Todos mandam, ninguém obedece
Mesmo com as feridas de 2008 ainda abertas, Pimentel aproveitou a eleição de 2014 para romper o ciclo de 12 anos do PSDB no governo mineiro. O ex-prefeito derrotou Pimenta da Veiga em primeiro turno. Era chegada a hora de o PT ter a caneta do Executivo estadual.
Iniciada em janeiro de 2015, a gestão de Pimentel busca unificar o PT. As dificuldades financeiras do estado, aliadas a problemas no diálogo com a Assembleia Legislativa, abriram espaço para o enfraquecimento do governo.
Sob reservas, uma fonte ligada a Pimentel afirmou a O Fator que o governo do petista ficou marcado pelo lema “todo mundo manda e ninguém obedece”.
Em 2016, os problemas fiscais de Minas geraram o parcelamento dos salários dos servidores estaduais. O fracionamento dos pagamentos, que seguiu até meados de 2021, tornou-se uma marca melancólica do governo Pimentel, derrotado em primeiro turno na tentativa de reeleição.
Antes do revés sofrido por Pimentel nas urnas, porém, o partido tentava reeditar a dobradinha de 2008 com o PSB. O partido exigiu que os socialistas retirassem a candidatura de Marcio Lacerda ao governo. Em troca, os petistas vetariam a candidatura de Marília Arraes ao governo de Pernambuco, facilitando o caminho de Paulo Câmara.
O acordo funciona parcialmente. Câmara é reeleito em Pernambuco, mas o PT amarga derrota dupla em Minas, já que Dilma Rousseff, embora líder nas pesquisas de intenção de voto, não consegue arrematar uma das vagas ao Senado Federal. O leque de partidos que apoiavam Lacerda, por seu turno, recorre a uma solução caseira e lança a candidatura de Adalclever Lopes, à época no MDB. O desfecho da disputa de 2018 é a vitória de Romeu Zema (Novo).
Cada um por si
Com Lula preso, Jair Bolsonaro presidente da República e Zema governador de Minas Gerais, o 2019 começa com saldo negativo para o PT. Não bastassem os fracassos eleitorais ainda recentes, a disputa pela presidência estadual estava marcada para aquele ano.
Mesmo com o impeachment de Dilma Rousseff em 2016, com a prisão de Lula e com a eleição de Bolsonaro, o PT seguiu ganhando força no interior de Minas Gerais. O partido manteve bancadas representativas no Congresso Nacional e na Assembleia Legislativa. Por isso, as maiores lideranças do partido recorreram à ampliação de suas bases eleitorais como forma de assegurar a sobrevivência.
O presidente estadual do partido, Cristiano Silveira, chegou a ser acusado internamente de usar o cargo para estender a rede de apoios do grupo liderado pelo deputado federal Reginaldo Lopes. Os aliados de Reginaldo tentaram minimizar as críticas mostrando a ampliação do número de diretórios do partido em todas as regiões do estado, inclusive naquelas em que o parlamentar não é majoritário.
Em 2019, Silveira foi reeleito após aliança com o grupo encabeçado por Durval Ângelo. A disputa, embora oficialmente amena, foi marcada por oposição à reeleição do parlamentar por parte das alas lideradas por figuras como Rogério Correia e a então deputada federal Margarida Salomão.
No dia 8 de novembro daquele ano, Lula deixou a prisão e começou a articular o retorno ao Palácio do Planalto. Um bom desempenho nas disputas municipais de 2020 seria essencial para tal.
O resultado, contudo, fica longe das metas traçadas. Foi a primeira vez desde a redemocratização do país que o PT ficou sem eleger prefeitos de capitais. Em Minas, o partido amargou dura derrota em BH, mas conseguiu emplacar Marília Campos em Contagem e Margarida Salomão em Juiz de Fora.

Tente outra vez
Já em 2022, o PT de Minas voltou a se unir em torno da eleição de Lula para presidente. Paralelamente, Reginaldo Lopes tentou viabilizar uma candidatura ao Senado. O plano, entretanto, acabou freado por uma costura nacional.
Fruto de uma aliança nacional com o PSD de Gilberto Kassab, o PT mineiro decide apoiar Alexandre Kalil para governador e Alexandre Silveira para senador. Era consenso entre os petistas que, após a estrondosa rejeição deixada pelo ex-governador Pimentel, o melhor caminho para o partido seria concentrar suas forças na eleição de Lula e nas chapas proporcionais.
Ainda assim, Kalil e Silveira são derrotados, e Romeu Zema é reeleito governador no primeiro turno. Silveira, aliás, tornou-se homem de confiança de Lula naquele ano. Prova disso é que, no segundo turno, mesmo derrotado, se juntou a Reginaldo Lopes na coordenação da campanha presidencial do petista. Nas urnas, o resultado é positivo: Lula conseguiu 50,2% dos votos válidos no estado, ante 49,8% de Bolsonaro.
Barrado na Esplanada
As negociações que resultaram na composição do ministério do governo “Lula 3” foram marcadas por um novo embate do PT em Minas. Reeleito deputado federal, Reginaldo Lopes é um dos nomes favoritos de Lula para representar o estado na Esplanada dos Ministérios. Uma articulação encampada pela tesoureira nacional do partido, a cada vez mais influente Gleide Andrade, entretanto, coloca um freio na nomeação de Lopes.
Outros representantes do estado, como Martvs das Chagas e André Quintão, também foram aventados para ocupar postos na Esplanada. Chagas teve o nome ligado à pasta da Igualdade Racial, chegando a receber apoio formal de movimentos sociais por meio de uma carta, enquanto André foi cotado para o setor de Desenvolvimento Social. Candidato a vice-governador na chapa de Kalil, o ex-deputado estadual acabou virando o número 2 do Desenvolvimento Social, liderando a área responsável por programas como o Bolsa Família.
PED vai parar na Justiça
Neste ano, as rachaduras que tanto assustaram o PT em um passado recente voltaram a aparecer. Em Minas, mesmo com a eleição de 10 deputados federais e 12 deputados estaduais em 2022, as cicatrizes de 2008 ainda dividem o partido em dois grupos majoritários: Reginaldo Lopes e o deputado federal Miguel Ângelo de um lado; de outro, Rogério Correia e Patrus Ananias.
Rogério, Patrus e a ministra dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo, uniram outras lideranças do partido em prol do convencimento a Leninha. Vice-presidente da Assembleia Legislativa, a deputada, inicialmente reticente em disputar a presidência estadual, aceitou participar da empreitada. Inicialmente, ela teria o colega de bancada Ricardo Campos como um dos concorrentes. Campos, contudo, desistiu do páreo e passou a apoiar Leninha, trazendo consigo o deputado federal Paulo Guedes.
As articulações iniciais do grupo de Reginaldo Lopes e Miguel Ângelo eram pela reeleição de Cristiano Silveira. Dandara Tonantzin, entretanto, se mostra insatisfeita com a escolha. O grupo da deputada federal encampou a tese de que soaria incoerente apresentar à militância um discurso de renovação e, ao mesmo tempo, defender a reeleição de um presidente homem e branco, ao passo que, do outro lado, estava Leninha, mulher negra que nunca havia disputado o comando do partido.
Reginaldo Lopes, então convence Dandara a liderar a empreitada. Assim, o grupo, como a ala de Leninha, apresentaria uma candidatura jovem, encabeçada por uma mulher negra do interior do estado. O acordo, selado nas instâncias estaduais do partido, foi interrompido por causa de uma dívida de R$ 131,8 mil de Dandara. Para a Executiva nacional do partido, candidatos não podem estar inadimplentes com a legenda.
O débito de Dandara foi revelado por O Fator em 6 de junho. Nas semanas seguintes, uma disputa de versões e narrativas passou a centralizar o processo eleitoral. Tal qual em eleições tradicionais, os dias de embate foram marcados pelo espraiamento de vídeos apócrifos com críticas e acusações de parte a parte.
Em 5 de julho, véspera da eleição, Dandara conseguiu, na Justiça de Brasília, uma liminar para participar do pleito. Diante da medida cautelar, o PT nacional adiou a etapa mineira da disputa.
A necessidade judicial de postergar o pleito no estado foi mal recebida pelos principais dirigentes do PT em todo o país. Edinho Silva, ex-prefeito de Araraquara (SP) e eleito presidente nacional do partido mesmo sem os votos de Minas, chamou Dandara e Reginaldo Lopes para uma reunião na última quarta-feira (9). Durante o encontro, Edinho criticou a judicialização da eleição interna e pregou o encerramento da contenda nos tribunais.
Ciente do mal-estar causado pela judicialização da disputa, decisão que contrariou inclusive o presidente Lula, Dandara assentiu em se retirar da corrida eleitoral.
Os eleitores de Dandara ainda não definiram se vão anular os votos para a presidência estadual ou se irão aderir às campanhas de Juanito ou Esdras. As conversas sobre o tema devem se estender até domingo.
A dois dias das eleições, entretanto, o caminho parece aberto para a eleição de Leninha e para que os aliados de Rogério Correia e Patrus Ananias vençam a disputa interna que perderam naquele nem tão distante ano de 2008.

