‘Lamentável que não tenha cumprido a pena’, diz superintendente do Trabalho sobre morte de Antério Mânica, mandante da Chacina de Unaí

Fazendeiro estava em regime de prisão domiciliar e morreu nesta quinta-feira (15), em decorrência de problemas de saúde
Antério Mânica
Antério Mânica foi condenado a quase 90 anos de prisão. Foto: EBC/Arquivo

Condenado por ser um dos mandantes da chacina de Unaí, em 2004, o ex-prefeito da cidade do Noroeste de Minas Gerais, Antério Mânica, morreu nesta quinta-feira (15), aos 77 anos. O falecimento de Antério ocorreu menos de dois anos depois de ele ter se entregado à Polícia Federal (PF) para cumprir a pena de prisão. 

A O Fator, o superintendente do Ministério do Trabalho em Minas Gerais, Carlos Calazans, lamentou o fato de Antério morrer tendo cumprido apenas uma pequena fração dos 89 anos de reclusão determinados pelo Judiciário por homicídio triplamente qualificado. Calazans era Delegado Regional do Trabalho à época do crime e atuava ao lado dos servidores do Ministério do Trabalho mortos na emboscada.

“Recursos (judiciais) atrás de recursos fizeram com que ele não cumprisse a pena. Agora ele morre. É lamentável que ele não tenha cumprido a pena”, disse.

A pena de 89 anos de prisão imposta a Antério foi decretada em 2023 pelo Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF-6). A decisão da Corte ampliou condenação anterior da Justiça Federal, que determinava 64 anos de reclusão.

“Desde as primeiras horas da manhã, recebi telefonemas de Unaí dando conta da morte de Antério. Até agora estou sem saber o que sinto. Já tentei pensar comigo mesmo o sentimento que tenho. Não é de alegria ou felicidade. É um sentimento estranho. Lutei 21 anos para Antério Mânica ser preso. Ele foi preso, cumpriu menos de um ano e depois foi para a prisão domiciliar para tratamento de saúde”, afirmou Calazans.

A Chacina de Unaí culminou nas mortes dos auditores fiscais do Trabalho Erastóstenes de Almeida Gonçalves, João Batista Soares e Nelson José da Silva. O motorista Ailton Pereira de Oliveira, que conduzia o veículo que transportava os auditores, também foi alvo do ataque a tiros.

Norberto Mânica, irmão de Antério e outro condenado como mandante do crime, foi preso no início do ano, no Rio Grande do Sul. Hugo Alves Pimenta, empresário cerealista apontado como um dos responsáveis pela contratação dos executores, está detido desde fevereiro do ano passado.

Vaivém judicial

Quando foi preso, em 2023, Antério Mânica passou algum tempo recluso em um presídio em Unaí. Agora, já em prisão domiciliar, precisou ser internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo (SP), em decorrência dos já citados problemas de saúde 

Em abril, Antério caiu e bateu a cabeça. Segundo Calazans, o fazendeiro estava em estado clínico delicado. O superintendente do Trabalho em Minas apontou morosidade da Justiça na condução do caso.

“Peço que Deus conforte a família dele. Não desejo mal a ninguém. Quando fui testemunha de acusação, o advogado de defesa de Antero pediu à Justiça para eu sair do banco, porque eu seria parcial. Disse para a juíza, como testemunha de acusação, que nunca tive sentimento de vingança. Tudo o que fiz foi lutar pela verdade e pela justiça. A juíza indeferiu o pedido da minha exclusão do rol de testemunhas e pude dar meu testemunho no julgamento que o condenou”, pontuou. 

A pena de 89 anos de prisão imposta a Antério foi decretada em 2023 pelo Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF-6). A decisão da Corte ampliou condenação anterior da Justiça Federal, que determinava 64 anos de reclusão.

Dinâmica do crime

Erastóstenes de Almeida Gonçalves, João Batista Soares e Nelson José da Silva estavam em uma operação de fiscalização de rotina no entorno de Unaí, quando foram parados pelos pistoleiros contratados pelos mandantes em uma estrada vicinal. Por causa do ataque a tiros, os três fiscais morreram na hora. 

Ailton Pereira de Oliveira, o motorista que os conduzia, também foi alvejado, mas conseguiu dirigir por oito quilômetros até encontrar socorro. Ele morreu durante trajeto para Brasília (DF), onde receberia atendimento médico.

Erastóstenes era o mais novo do grupo, com 42 anos. João Batista tinha 50 anos, enquanto Ailton e Nelson possuíam 51 anos e 52 anos, respectivamente. À época do crime, Nelson conduzia uma apuração que investigava a prática de trabalho escravo em fazendas de Unaí. A principal linha de trabalho dos fiscais girava em torno de possíveis irregularidades cometidas por produtores de feijão. 

Antério Mânica, a despeito da repercussão do crime, chegou a ser eleito prefeito de Unaí em 2004

A seguir, O Fator mostra a situação ante a Justiça dos réus que estão vivos e não tiveram as acusações prescritas. Outro dos suspeitos de envolvimento na chacina, Francisco Elder Pinheiro, apontado como participante da contratação dos assassinos, morreu em decorrência de um AVC em 2013.

  • Hugo Alves Pimenta: condenado a 96 anos; também preso no ano passado;
  • Norberto Mânica: depois de ser considerado foragido, foi preso no ano passado. Recebeu pena de 65 anos de reclusão;
  • Erinaldo de Vasconcelos Silva: condenado a 76 anos de prisão por ter matado três das quatro vítimas;
  • José Alberto de Castro: condenado por participação na montagem do crime. Preso em Unaí desde 2023;
  • Rogério Alan Rocha Rios: condenado a 94 anos de prisão por formação de quadrilha e quatro homicídios triplamente qualificados. Preso desde 2004;
  • William Gomes de Miranda: Condenado a 56 anos de prisão. Detido desde 2013.

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