O Ministério da Justiça e Segurança Pública cassou a aposentadoria do ex-escrivão da Polícia Federal, Márcio Antônio Camillozzi Marra, denunciado por vazar informações sigilosas de investigações da corporação para advogados de Andrea Neves, irmã do deputado federal Aécio Neves (PSDB-MG). A decisão, assinada pelo ministro Ricardo Lewandowski, é resultado de processo administrativo disciplinar.
Marra, que havia se aposentado voluntariamente em setembro de 2019 em modelo especial, foi punido por “indicar ou insinuar nome de advogado para atuar em procedimento administrativo ou inquérito policial em trâmite no órgão, prevalecer-se abusivamente da condição de servidor policial com vistas a obter proveito para si ou para outrem e praticar ato definido em lei como improbidade administrativa”, segundo o ato oficial que cassou sua aposentadoria.
O caso remonta a maio de 2019, quando Marra foi preso em Belo Horizonte durante a Operação Escobar, um desdobramento da Operação Capitu de 2018, que investigava um suposto esquema criminoso no Ministério da Agricultura. Na ocasião, além de Marra, foram detidos o policial federal Paulo de Oliveira Bessa e dois advogados.
A investigação apontou que documentos sigilosos da Operação Capitu foram encontrados no fim de 2018 na residência de Andrea Neves. Segundo a PF, esses documentos teriam sido retirados dos arquivos da corporação pelos policiais federais a pedido de advogados, em troca de vantagens.
Em 2020, Andrea Neves e Márcio Marra foram indiciados pela Polícia Federal por obstrução de justiça. De acordo com as investigações, entre os documentos reservados encontrados em sua casa estava um interrogatório do empresário Joesley Batista, dono da J&F, que não havia sido oficialmente disponibilizado. Para os investigadores, o fato causou estranheza, pois nem Andrea nem Aécio Neves eram investigados na Operação Capitu, não tendo, portanto, acesso legal a tais documentos.
As investigações revelaram que Marra teria recebido benefícios em troca dos vazamentos. Entre as vantagens estaria uma motocicleta dada por um dos advogados, além de um cargo no Conselho Deliberativo do Cruzeiro.
Conversas monitoradas pela polícia mostraram articulações para que Marra fosse eleito conselheiro do clube em 2017. Em um dos diálogos captados, no dia da eleição, o conselheiro José Maria Queiroz Fialho conversou com o advogado Ildeu da Cunha Pereira Sobrinho, também conselheiro do clube, sobre a indicação de Marra. Após a operação policial, o Cruzeiro substituiu Marra por outro conselheiro. O clube não era investigado na Operação Escobar.
Os documentos e informações privilegiadas repassados aos advogados poderiam beneficiar alvos da Polícia Federal em outras operações.
Na época das investigações, Andrea Neves afirmou que o documento encontrado em sua casa era apenas uma cópia do que já havia sido amplamente divulgado pela imprensa um mês antes, acrescentando que todos os esclarecimentos foram prestados às autoridades.
Também à época, a defesa de Aécio Neves disse que o deputado federal não era parte da investigação e que, portanto, não havia o que comentar.
O advogado Ildeu da Cunha Pereira, que também havia sido indiciado na operação, faleceu em fevereiro de 2020 vítima de um infarto.