O plano da Vale para o futuro da mina de Águas Claras, ao lado da Serra do Curral

Mais de 90% do espaço será utilizado como sede de uma reserva florestal; equipamentos de esporte e lazer também compõem proposta
A cava da Mina de Águas Claras
A cava da Mina de Águas Claras. Foto: MBR/Divulgação

A mina de Águas Claras foi vista, durante a maior parte do tempo em que esteve em operação, entre 1973 e 2002, pela antiga Minerações Brasileiras Reunidas (MBR), como uma ameaça à Serra do Curral, a emblemática montanha que separa Belo Horizonte de Nova Lima. De 2002 para cá, a área vem passando por um processo de reabilitação, com a revegetação de taludes, a construção de novas edificações e a implantação de ações de paisagismo.

Na quarta-feira (10), a Vale, atual proprietária do terreno, promoveu reunião pública para apresentar o plano de fechamento de Águas Claras. No encontro, a mineradora detalhou os novos usos que serão dadas às diversas áreas que compunham a antiga mina, bem como o cronograma de desenvolvimento das medidas propostas.

A mina tem 19 milhões de metros quadrados. Desse total, 93% serão mantidos como área de reserva florestal, com tamanho equivalente à fatia de Belo Horizonte que está dentro do perímetro da Avenida do Contorno. O uso dos outros 7% está sendo redefinido. A seguir, O Fator destrincha a proposta.

Os detalhes da proposta

O setor 1 de Águas Claras, localizado próximo à portaria da antiga mina, está reservado para usos temporários, como atividades culturais, esportivas, educativas e de educação ambiental. Duas parcerias já foram fechadas. Uma delas, com a fábrica de bicicletas Sense, servirá para a implantação de um bicicletário. Haverá, ainda, uma fazenda de cultivo de hortaliças hidropônicas, desenvolvida em conjunto com a BeGreen.

Para o segundo setor, a proposta é erguer um espaço multiuso de lazer, esportes, turismo, hotelaria, comércio e desenvolvimento imobiliário de baixa intensidade. Esse espaço faz fronteira com a cava da antiga mina, onde há um lago de 148 metros de profundidade, o que equivale a um edifício de 50 andares.

Para evitar que as paredes do lago sofressem desmoronamentos, a Vale fez ações de estabilização com uma malha de aço grampeada no solo e, em seguida, revegetada. O trabalho foi realizado por alpinistas contratados pela mineradora.  

A destinação do setor 3, que circunda metade das margens do lago da cava, ainda não está definido pela empresa. A ideia é que seja para habitação e educação. Esta deverá, segundo a Vale, ser a última área a ser entregue para uso público, em 2037, quando o processo de fechamento da mina estará concluído.

Plano de fechamento foi bem recebido pelos presentes. Houve dúvidas em relação a como será feito o fechamento da barragem B5 e em relação ao uso dos espaços públicos a serem construídos. Foto: Divulgação/Vale

Um pouco de história

Quando a operação da mina de Águas Claras começou, em 1973, o empreendimento compunha um complexo que incluía, também, unidades de beneficiamento de minério e um sistema de logística com um porto e uma ferrovia.

Em 1996, o consórcio liderado pela MBR venceu o leilão de privatização da Malha Sudeste da Rede Ferroviária Federal (RFFSA), formando a MRS Logística, que hoje detém o controle do transporte de minério de ferro do Quadrilátero Ferrífero para o porto do Rio de Janeiro.

Em 2006, a Vale adquiriu o controle acionário da MBR. Do pacote, faziam parte minas em operação na região do Quadrilátero Ferrífero e uma mina exaurida, a de Águas Claras, que somente daria despesas para a companhia. A aquisição de todo o lote, contudo, se provou benéfica. Do ponto de vista logístico, a operação abriu, para a mineradora, uma nova frente de atuação. Assim, a Vale deixou de ser uma empresa responsável apenas pelas minas de Itabira.

Durante todo o tempo em que esteve em atividade, a MBR sofreu fortes críticas dos ambientalistas. Em 1976, o rebaixamento do perfil da Serra do Curral foi criticado por Carlos Drummond de Andrade no poema “Triste Horizonte”, que teve repercussão nacional.

“Esta serra tem dono/ Não mais a natureza a governa/ Desfaz-se, com o minério, uma antiga aliança, um rito da cidade/ Desiste ou leva bala/ Encurralados todos, a Serra do Curral, os moradores cá embaixo”, redigiu Drummond.

Naquele mesmo ano, MBR entrou com um pedido de desmatamento de uma área de 440 mil metros quadrados para a ampliação da barragem de finos de minério de ferro da mina de Águas Claras.

Na ocasião, o então presidente do Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam), José Israel Vargas, junto com o Centro para a Conservação da Natureza em Minas Gerais, encontrou uma solução técnica que atendia ao pedido da MBR sem que fosse necessário desmatar uma área tão grande, como a pretendida pela empresa.

Em vez de negar a solicitação, José Israel montou uma comissão que contratou um engenheiro para realizar um estudo técnico que indicasse outra alternativa que não o desmatamento da área pretendida pela MBR.  Ao mesmo tempo, em uma articulação com a cúpula da MBR, o dirigente conseguiu dar forma à Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) da Mata do Jambreiro, área de 912 hectares de Mata Atlântica que integra o espaço ao redor de Águas Claras que, hoje, está sob o controle da Vale.

Na primeira metade dos anos de 1990, na administração do então prefeito Eduardo Azeredo, a MBR fez um trabalho para reabilitar sua imagem entre os belo-horizontinos. Para isso, financiou a revitalização de dois importantes espaços públicos da capital: a Praça da Liberdade e o Parque Municipal.

Na quarta, durante a apresentação do plano de fechamento da mina de Águas Claras, Fabiana Cruz, diretoras de Minas Paralisadas da Vale, reconheceu que o fato de a antiga mina estar localizada aos pés da Serra do Curral e ao lado de uma imensa reserva de Mata Atlântica, impede a empresa de avançar na exploração de novos depósitos de min´rio na região.

“Todos esses elementos, essas marcas ambientais aqui dentro da história, trouxeram a mina para um tempo mais curto de operação”, afirmou.

Boa receptividade

O projeto de fechamento da mina foi bem recebido pelos presentes à reunião. As dúvidas foram, principalmente, sobre o processo de implantação das medidas de fechamento da mina. Um dos questionamentos foi quanto ao uso futuro dos equipamentos de entretenimento a serem construídos – se a utilização seria pública e gratuita ou seletiva. Parte dos participantes também fez perguntas a respeito sobre o modelo de retirada de rejeitos da barragem B5.

Gustavo Roque, gerente-geral de Uso Futuro da Vale, disse que, talvez, não seja possível garantir o uso público e gratuito dos equipamentos porque a mineradora irá trabalhar com parceiros que miram a sustentabilidade econômica de seus negócios.

Sobre a forma de retirada dos rejeitos da barragem B5, ainda não há martelo batido. Apesar disso, Fabiana Cruz assegurou que nenhuma decisão a respeito da questão será tomada sem a participação das comunidades envolvidas.

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