O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) ainda não se pronunciou a respeito de ter virado réu no TRE-MG por divulgar informações falsas e difamar o então candidato Fuad Noman na eleição de 2024 – crimes eleitorais. Ele também se tornou réu por desobediência.
O juiz Marcos Antônio da Silva, da 29ª Zona Eleitoral, recebeu a denúncia do MP em 23 de julho, e essa decisão se tornou pública no sábado passado (26).
Desde domingo (27) O Fator procurou várias vezes a assessoria de Nikolas pedindo uma manifestação, sem sucesso. Em mais de uma vez, a assessoria prometeu uma nota “em breve”.
A assessoria não respondeu se o réu Nikolas só vai se manifestar publicamente depois de responder nos autos.
Para os promotores, Nikolas e aliados promoveram uma “campanha sistemática de desinformação” às vésperas do 2º turno da eleição de 2024 para “macular a imagem e a honra do então Prefeito e candidato à reeleição” Fuad Noman.
Fuad concorreu contra o deputado estadual Bruno Engler, também do PL. Engler, sua então vice Coronel Cláudia Romualdo e a deputada estadual Delegada Sheila também se tornaram réus na mesma decisão.
Fuad escreveu um livro de ficção chamado Cobiça, lançado em março de 2020, no começo da pandemia.
Em uma das cenas do livro, três capangas do personagem Hypólito estupram e matam a mãe e a irmã do personagem Pedrinho. Os capangas são mortos no parágrafo seguinte. O nome da irmã de Pedrinho (Matilde) é citado uma única vez e sua idade não é especificada. Outra personagem, chamada Marli, relata a Hypólito um abuso que sofreu quando tinha 12 anos.
Segundo a denúncia, Nikolas e os outros usaram “trechos descontextualizados da obra literária” para “desqualificar o então Prefeito perante o eleitorado e angariar vantagem eleitoral para seu adversário no segundo turno, BRUNO ENGLER”.
Em entrevista ao jornal O Tempo dias antes do 2º turno, Nikolas disse que seria a “III Guerra Mundial” se Bolsonaro tivesse escrito o livro. E acrescentou:
“Nós temos hoje uma denúncia (sic) de fato de um livro, que foi escrito pelo Fuad, que denun… que relata ali um estupro de uma criança de 12 anos. E o argumento dele é de que é uma mera ficção. E em partes, eu confesso (sic): você escreve sobre o que você quiser, você pensa sobre o que você quiser no seu tempo livre”, disse o deputado federal. Na época do lançamento de Cobiça, em março de 2020, Fuad ainda não estava na prefeitura: meses depois, concorreria como vice de Alexandre Kalil.
“A minha questão não é essa”, acrescentou Nikolas na entrevista. “O problema é quando a ficção se torna realidade. Hoje em Belo Horizonte são mais de 4 mil denúncias sobre abuso sexual infantil. Ou seja, é um tema extremamente sério. E pior do que isso: é quando a prefeitura, ela apoia, ela ajuda a realizar, com o seu dinheiro, um evento (…) que aconteceu em maio aqui em Belo Horizonte [o FIQ] que tinha livros disponíveis para poder comprar, crianças comprarem, que tinha um vale, um vale-livro de 40 reais, que foi disponibilizado para as crianças comprarem qualquer livro. E tinha livros ali, por exemplo, como Mãeconheira [na verdade, Diário de uma Mãeconheira, de Maira Castanheiro], que é uma mãe, historiadora, maconheira e que contava ali os relatos dela”.
Para os promotores, Nikolas, “de forma leviana e injusta, conectou a obra de ficção a um evento real, ao afirmar que “o problema é quando a ficção vira a realidade e, pior, chega até seu filho”, alegando falsamente que, na gestão do candidato, a Prefeitura de Belo Horizonte promoveu um festival de quadrinhos (FIQ) no qual crianças foram expostas a conteúdos de “nudez, a pornografia ou até mesmo [a]o satanismo”.
Nikolas deu entrevista ontem ao podcast Flow por quase duas horas. Não foi perguntado sobre o assunto.
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