A Polícia Federal (PF) encontrou, no celular do delegado Rodrigo de Melo Teixeira, preso desde setembro no âmbito da Operação Rejeito, mensagens enviadas pela esposa com imagens de folhas manuscritas que descrevem um suposto esquema de corrupção na mineração. Os documentos apontam o possível envolvimento de agentes públicos, incluindo políticos e membros de governos e instituições.
O material integra o inquérito da Operação Rejeito, que passou a tramitar no Supremo Tribunal Federal (STF) na semana passada.
O Fator teve acesso aos anexos, mas não irá divulgar os documentos por dois motivos: o material permanece sob sigilo judicial e os manuscritos não constituem provas contra os citados. O texto escrito à mão pela esposa do delegado aponta nomes e o suposto envolvimento e ligação com esquemas de corrupção no setor.
As mensagens foram enviadas pela esposa do delegado em 26 de fevereiro de 2021.
“Nas interlocuções entre o DPF Rodrigo Teixeira e sua esposa D. W., foram encontrados três manuscritos, enviados por D., que aparentemente mapeiam todo o esquema de corrupção perpetrado por servidores públicos e possivelmente políticos no Estado de Minas Gerais. Chama a atenção que no ano de 2021, o DPF Rodrigo já tinha conhecimento do envolvimento de diversos investigados e/ou envolvidos na Operação Rejeito que operavam a corrupção dentro dos órgãos públicos e judiciários do Estado. Ademais, o delegado ainda estava envolvido em diversas tratativas e encontros envolvendo alguns dos investigados”, diz trecho do relatório da PF sobre as imagens.
Rodrigo Teixeira está preso desde 17 de setembro. Ele cumpre a detenção preventiva na Penitenciária Nelson Hungria, em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH).
Empresas de fachada no mercado minerário
A investigação aponta que Rodrigo Teixeira atuou de forma oculta no mercado minerário por meio de empresas interpostas, mantendo articulações com empresários investigados.
O delegado é apontado como sócio administrador oculto e gestor de fato da Gmais Ambiental, empresa formalmente constituída em nome de sua esposa e de Luiz Fernando Vilela Leite. A companhia não possui funcionários e seria usada para formalizar contratos de cessão e intermediação de direitos minerários, segundo as investigações.
Mensagens obtidas pela PF mostram que Teixeira participava das decisões estratégicas, convocava reuniões, coordenava a redação de minutas contratuais e definia cláusulas e valores de participação.
O delegado também é apontado como sócio oculto e administrador de fato da Brava Mineração, ao lado de Úrsula Paula Deroma e Marcos Arthur Mendonça. A empresa é suspeita de envolvimento na obtenção irregular de licenças ambientais.
Negociações durante exercício de cargo na PF
As investigações mostram que Teixeira e Gilberto Henrique Horta de Carvalho negociaram direitos minerários da Topázio Imperial, por meio da Gmais, com uma organização investigada liderada por João Alberto Paixão Lages, Alan Cavalcante e Helder Adriano de Freitas. As negociações ocorreram enquanto Teixeira ocupava o cargo de Diretor de Polícia Administrativa da Polícia Federal.
O grupamento minerário da Topázio inclui a barragem Água Fria, uma das sete do Brasil com maior risco de rompimento.
A investigação aponta que a entrada de Teixeira nos negócios, sem aporte financeiro, foi aceita em troca de influência institucional, acesso a órgãos públicos, capacidade de articulação política e prestígio do cargo de delegado federal.
Uso da estrutura policial para interesses privados
A investigação aponta que Teixeira mobilizou o aparato da Polícia Federal para fins particulares por meio da delegada Kelly Cristina de Castro Batista. O objetivo era prejudicar um grupo concorrente de seus aliados.
Uma diligência realizada na empresa Green Metals Soluções Ambientais em 29 de março de 2022 foi feita sem respaldo formal em procedimento investigativo e em desconformidade com os protocolos da Polícia Federal. Teixeira estava cedido à Prefeitura de Belo Horizonte na época.
A investigação também aponta que Teixeira exerceu influência para substituir o delegado responsável pela condução do inquérito policial da Operação Poeira Vermelha. Os dados telemáticos do delegado não retornaram resultados, o que levanta a suspeita de que ele desabilitou ou apagou os dados para não deixar vestígios.
Suspeita de pagamento de propinas a servidores
O grupo integrado por Teixeira é suspeito de pagar propinas a funcionários da Agência Nacional de Mineração e de órgãos ambientais como a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável e a Fundação Estadual do Meio Ambiente. O objetivo seria obter licenças e valorizar direitos minerários.
Gilberto Horta intermediou o pagamento de R$ 7,5 mil a servidores públicos relacionado às áreas Apolo, Bela Vista e Jeceaba.
As investigações apontam ainda que Teixeira vazou dados de investigação para Úrsula Paula Deroma, que repassou mensagens com informação sigilosa de investigação policial. Uma mensagem salva nas notas de Gilberto Horta continha a orientação “não fale de Rodrigo da PF”.
Cargo na Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais
Após ser exonerado do cargo de Diretor de Polícia Administrativa, Teixeira foi cedido à Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais, onde ocupa o cargo de Diretor de Administração e Finanças. A investigação aponta que esta função pode ser explorada pelo grupo criminoso, pois lida com informações sobre áreas de interesse mineral, caracterizando conflito de interesses.
Em setembro de 2023, Teixeira foi entrevistado pela Diretoria de Inteligência Policial da Polícia Federal sobre a atuação da Gmais e negou possuir qualquer vínculo com a empresa ou relações com mineradoras investigadas. As evidências obtidas pela investigação contradizem essa declaração.
A Corregedoria Regional da Polícia Federal em Minas Gerais instaurou na sexta-feira (17) um Processo Administrativo Disciplinar contra o delegado. A portaria aponta que Teixeira atuou de forma contrária aos ditames legais e aos normativos internos da corporação entre 2018 e 2025. O documento indica que ele usou de forma indevida a condição de policial federal e se prevaleceu do cargo. O processo pode resultar em demissão.
Esquema movimentou R$ 1,5 bilhão
A Operação Rejeito investiga corrupção no pagamento de propinas a servidores da Feam, Agência Nacional de Mineração, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e outros órgãos ambientais. A investigação identificou movimentação de R$ 1,5 bilhão e potencial para ganhos ilícitos de R$ 18 bilhões.
O grupo estruturou uma rede de 42 empresas entre 2020 e 2024 para legitimar práticas criminosas. Os empreendimentos minerários avançavam por meio da manipulação de processos administrativos. Entre os projetos estão empreendimentos na Serra do Curral e na Serra do Botafogo, em Ouro Preto.
Alan Cavalcante é identificado pela Polícia Federal como líder da organização criminosa. Os investigados respondem por organização criminosa, lavagem de dinheiro, corrupção e crimes ambientais. O Judiciário determinou sequestro dos direitos minerários, bloqueio de valores e suspensão das atividades das empresas vinculadas aos investigados.
Antes de chegarem ao STF, os habeas corpus da Operação Rejeito foram negados em todas as instâncias. O desembargador Pedro Felipe de Oliveira Santos rejeitou todos os pedidos liminares para reverter prisões preventivas. O Superior Tribunal de Justiça manteve as decisões. Na semana passada, o ministro Herman Benjamin negou o habeas corpus do ex-diretor da Feam Arthur Ferreira Rezende Delfim, preso desde 17 de setembro. O ex-superintendente da Polícia Federal em Minas Gerais, Rodrigo de Melo Teixeira, e o empresário Helder Adriano Freitas também tiveram pedidos negados.