A tricentenária cidade de Mariana, localizada a 115 quilômetros de Belo Horizonte, vive duas reconstruções. Uma delas é protagonizada pelas famílias atingidas pelo desmoronamento da barragem de Fundão, da mineradora Samarco, no final da tarde do dia 5 de novembro de 2015. Em outro plano, quem também busca se reconstruir é a própria Samarco, que ficou com as atividades paralisadas por cinco anos e ainda hoje opera com apenas 60% de sua capacidade.
Ao longo de dez anos, a empresa investiu na reparação dos danos causados às famílias e à bacia do Rio Doce, além de ter mudado radicalmente seu processo industrial.
Já os atingidos, antes moradores de distritos de Mariana, tiveram de se mudar para a área sede da cidade. Em um primeiro momento, os cidadãos foram instalados em hotéis e pensões; depois, seguiram para residências provisórias em Mariana. Hoje, a maioria das famílias já mora em suas novas casas, nos assentamentos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, ambos construídos pela Samarco como parte do processo de reparação.

Realidade ainda presente
Na Samarco, o rompimento da barragem ainda está muito presente no cotidiano. Na terça-feira (27), o presidente da empresa, Rodrigo Vilela, recebeu jornalistas que visitavam as instalações da empresa. O dirigente entregou aos profissionais de imprensa um documento de apresentação da companhia cuja página de abertura fazia referência ao desastre ocorrido no dia 5 de novembro de 2015.
“Uma data que lamentamos e um marco que jamais será esquecido”, dizia o texto.
Aualmente, segundo Vilela, um dos grandes pilares da empresa é a implantação de uma cultura organizacional capaz de evitar acontecimentos semelhantes ao rompimento de Fundão.
“Nosso desafio é ainda maior. É identificar onde podem existir riscos ocultos”, afirma.
Na área operacional da mineradora, o 5 de novembro se faz presente no Concentrador 1, imensa estrutura industrial cuja altura equivale a de um edifício de 13 andares. A máquina está inerte desde aquela data. Os sinais de seu não uso se fazem presentes no avanço da ferrugem e no mato ralo que cresce ao redor.
Além do Concentrador 1, a Samarco possui outros dois, que já estavam em operação antes de 2015. Destes, o primeiro a entrar novamente em operação foi o Concentrador 3, em outubro de 2020. Em 2024, as atividades do Concentrador 2 foram retomadas. A empresa informou os equipamentos mais novos tiveram prioridade no processo de retomada. Por ser o mais antigo, o Concentrador 1 ficou para o final do processo.
O concentrador é o equipamento que permite o aproveitamento de um minério de baixo teor, como o explorado pela Samarco. Dele, por meio de processos físicos e químicos, é retirada a sílica (areia) agregada ao minério de ferro que, com isso, passa a ter um teor da ordem de 65 a 68%, faixa percentual demandada pelo mercado.
Um pouco mais à frente, há novos sinais das mudanças feitas no processo operação da empresa. Parte dos rejeitos minerários líquidos, chamados de ultrafinos, antes repassados à barragem que se rompeu, agora são direcionados a uma cava, responsável por comportar 20% desse material. A vida útil da cava terminará em 2028, quando sua capacidade estará completa. De 2028 a 2036, os rejeitos irão para uma segunda cava, cujo local de instalação já está definido.
Os outros 80% dos rejeitos líquidos correspondem à areia separada do minério no processo de beneficiamento. A areia passou a ser disposta em aterros compactados e cobertos por vegetação. Também com parte do processo de retomada das atividades em um novo formato, a empresa investiu R$ 300 milhões na construção da unidade de filtragem. O objetivo é separar a água da areia e, com isso, transformá-la em um rejeito seco que, depois, é empilhado e coberto por vegetação.
Após a filtração, a água é reutilizada no processo industrial. De acordo com Rodrigo Vilela, não há previsão de retorno, por parte da Samarco, do uso de barragens para a disposição final dos rejeitos do beneficiamento do minério.

Em outro ponto das instalações da Samarco, funciona mais uma unidade resultante do desmoronamento de Fundão: trata-se do Centro de Monitoramento Integrado (CMI). Em uma sala, trabalham funcionários com a tarefa de observar atentamente os 18 monitores de vídeo que mostram todas as estruturas geotécnicas da empresa — obras de engenharia que dependem do comportamento do solo e das rochas, como barragens, diques, empilhamentos, cavas e taludes industriais.
Em alguns dos monitores do CMO, chama a atenção a cor verde em destaque. João Paulo Chiste, gerente de Geotecnia Operacional da Samarco, explica que a tonalidade indica que não houve qualquer movimentação nas estruturas. Se isso acontecer, e dependendo do tipo de movimentação, o verde é substituído por colorações que que chegam ao vermelho ou ao azul escuro.
O CMI opera 24 horas por dia. Para garantir que não será afetado por um eventual corte de energia ou mesmo por problemas na geração local, o centro possui dois geradores e, como medida para reforçar ainda mais a segurança, dois sistemas de baterias.
“Somos à prova de blecaute”, assegura Chiste.
A retomada das atividades da Samarco aconteceu aos poucos. Em outubro de 2019, a empresa obteve, do Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam), a Licença Operacional Corretiva (LOC) para volta à ativa. Porém, preferiu aguardar mais um ano e reabriu as portas apenas em dezembro do ano seguinte.
A decisão foi tomada porque a Samarco tinha que terminar a implantação da unidade de filtragem, sem a qual não seria possível operar a seco. Como a decisão era de não retornar utilizando barragens, o adiamento se fez necessário.
No primeiro momento da retomada, a empresa operou com 26% de sua capacidade, após investimento de R$ 650 milhões na mudança de alguns de processos industriais, como a implantação da unidade de filtragem. Em 2024, o percentual subiu para 60%, com a entrada em operação do Concentrador 2 e a ampliação do sistema de filtragem.
Segundo a empresa, a plena capacidade de operação está prevista para 2028, com o investimento de R$ 13 bilhões. O maior gasto será com a revitalização do Concentrador 1, o primeiro, e que hoje está desligado.
Assentamento de famílias
O assentamento da primeira família que perdeu sua casa com o rompimento de Fundão aconteceu sete anos e dois meses depois da tragédia. O prazo ultrapassou a data-limite de 27 de agosto de 2020, que fora acordada com a Justiça. O presidente da Samarco, Rodrigo Vilela, contudo, não fala em atraso.
Segundo o dirigente, tratava-se de procedimento único, baseado na tentativa de manter o modo de vida que as famílias tinham no povoado de origem. Por isso, ao longo do processo, descobriu-se que era impossível concluir o assentamento no prazo previsto.
Essa decisão, compartilhada com a comunidade, se deu na escolha da localização de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, na escolha das plantas do assentamento, na distribuição de cada família pelo território, em estratégia que procurou preservar as relações de vizinhança, e na definição das plantas individuais de cada casa.
Nos dois assentamentos, não existe um imóvel igual ao outro. As casas foram projetadas segundo os desejos das famílias, com um acréscimo de 20% de área construída para todas elas.
Segundo a Gerente Geral dos Assentamentos da Samarco, Rachel Starling, a adoção do modelo compartilhado demandou um tempo maior que o previsto para a entrega das casas. A primeira entrega de chaves em Bento Rodrigues ocorreu em março de 2023. Hoje, segundo ela, das 222 casas construídas, 204 já foram entregues. Dessas, 177 já estão habitadas, o que totaliza cerca de 600 pessoas residindo na nova comunidade.
Hoje, funcionam no assentamento um restaurante, uma escola, um posto de saúde, uma agência dos Correios, um posto da guarda municipal, um mercearia, três igrejas – duas católicas e uma da Assembleia de Deus, além de uma estação de tratamento de água e outra de esgoto. O campo de futebol está recebendo o gramado e, em breve, poderá ser utilizado pelos moradores.
O cemitério ainda é o do povoado original, mas, dentro de pouco tempo, a nova Bento Rodrigues também terá seu próprio cemitério. Lá, todas as ruas são pavimentadas com bloquetes de cimento. Embora o assentamento não tenha portaria ou cancela, a impressão que se tem é que se trata de um condomínio.
A velocidade mais lenta com que se deu a implantação de Bento Rodrigues pode ser explicada por alguns sinais. Ao longo da definição da planta do assentamento, 18 desenhos foram feitos até a chegada ao consenso. Outro sinal: a igreja evangélica ficou pronta em novembro de 2022, mas somente dois anos depois, em novembro do ano passado, o templo sediou seu primeiro culto.
Hoje, 15 casas estão ao fase final de acabamento e outras seis ainda precisam ser construídas. Elas serão entregue às famílias que estavam com dificuldades para decidir se desejavam ou não ir para o novo distrito.
O assentamento ainda se parece mais com uma obra do que com uma cidade. Pelas ruas, o que mais se vê são trabalhadores da empreiteira Andrade Gutierrez, que venceu a licitação para construir as casas. Poucos são os moradores que circulam pelo distrito. Segundo um dos trabalhadores da empreiteira, os cidadãos locais preferem mais ficar em casa. No jardim da residência, contudo, já é possível ver cães domésticos, sinalizando que aquele terreno é habitado.
No dia da visita da imprensa a Bento Rodrigues, o número de residentes que lá estavam era menor, porque boa parte deles tinha se deslocado ao antigo povoado por causa do sepultamento de um dos moradores.
Rachel Starling afirma que há em Bento Rodrigues um grupo, que ela afirma ser minoritário, que não conseguiu se desapegar de suas origens, indo lá regularmente. Mas a maioria está, segundo ela, procurando se adaptar à nova vida.
Quem está tentando fazer isso é Derlisa Euzébio das Graças Azevedo, de 77 anos. Ela é dona do único restaurante de Bento Rodrigues. No antigo povoado, morava de aluguel, mas, como conseguiu comprovar que havia adquirido um lote, ganhou uma casa, construída ao lado do estabelecimento que comanda.
Derlisa afirma que a vida no povoado de origem era melhor. “A união não está mais a mesma”, constata ela, que sente falta do convívio com os amigos. “Era maravilhoso. Aquela comunidade era pequena, mas era todo mundo unido”, lembra.
Os principais clientes do restaurante de Derlisa são os trabalhadores da empreitera. Ao ser perguntada sobre o futuro, a comerciante, se não demonstra pessimismo, também não manifesta otimismo.
“Vai depender da comunidade”, explica.

Tempos diferentes
Entre o processo industrial e as etapas de reassentamento das famílias atingidas, há semelhanças como o elevado custo, da casa de bilhões de reais, e o fato de que ambas partem da mesma referência temporal: o final da tarde de 5 de novembro de 2015.
Há, porém, muitas diferenças. A principal delas também diz respeito ao tempo. Enquanto a retomada de uma unidade industrial pode ser prevista com uma reduzida margem de erro, não é possível estimar com precisão absoluta o tempo necessário para o reassentamento.
Raquel Starling afirma que mesmo que a empresa tenha praticamente concluído a construção das casas em Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, como determina o acordo de reparação, será preciso um tempo a mais, que ela não sabe precisar quanto, para que os dois assentamentos tenham uma vida próxima a de um típico e pacato povoado do interior de Minas.