Os 856 habitantes de Serra da Saudade, o município menos populoso do Brasil, costumam se orgulhar da ausência de engarrafamentos e do fato de a localidade não registrar homicídios há meio século. Agora, os serrano-saudalenses têm outro feito para comemorar: a cidade será a primeira do Brasil à prova de apagões.
Desde meados do ano passado, a área urbana e a zona rural de Serra da Saudade são atendidas por uma fazenda solar acoplada a um sistema de baterias que entra em operação sempre que há uma queda de luz. A engrenagem garante autonomia de energia por 48 horas.
O sistema foi instalado pela Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) como teste para que iniciativas semelhantes possam, segundo Allisson Chagas, superintendente de Planejamento e Distribuição da estatal, ser implantadas em outras cidades onde há apenas uma porta de entrada de energia.
Nesses municípios, quando a linha de distribuição apresenta algum problema e o fornecimento é interrompido, o reparo da rede costuma demorar. Com a bateria, a volta do fornecimento é instantânea.
“Se uma máquina agrícola trombar no alimentador da nossa rede e derrubar o fornecimento, a bateria é ligada automaticamente e já abastece”, afirma Allisson Chagas.
Ele explica que outro uso das baterias é em substituição às próprias redes de distribuição, cuja implantação costuma demorar hoje cerca de dois anos, desde o projeto até a obtenção da licença ambiental.
“Está muito difícil construir redes hoje no Brasil”, afirma o superintendente de Planejamento.
Trata-se, como ele faz questão de ressaltar, de um uso diferente do que está sendo discutido no momento no país. Atualmente, há debate sobre a utilização de baterias para o acúmulo de energia durante o dia e a disponibilização à noite, a fim de evitar cortes no fornecimento oriundo das fazendas solares por excesso de oferta diurna.
Quem está feliz da vida com o no-break (sem interrupção, na língua inglesa) da Cemig é a prefeita de Serra da Saudade, Neusa Maria Ribeiro (PP). Ela conta que antes da fazenda solar, havia muitos desligamentos.
“Agora, a luz dá só uma piscadinha e logo volta”, pontua.
Além da fazenda solar, a prefeitura recebeu investimentos diretos da Cemig, que instalou placas de energia solar no prédio da prefeitura, na creche e no centro de saúde. Com isso, ocorreu uma redução da conta de energia elétrica da prefeitura.
“Em uma cidade em que tudo depende da prefeitura, isso é muito importante”, afirma a chefe do Executivo.
Orgulhosa, Neusa Ribeiro se considera feliz por Serra da Saudade ostentar outro título, além de ser o município menos populoso do país: o de ser o atendido por um sistema à prova de apagões.
“É muito chique isso”, afirma a prefeita.