Suicídio cresce 25% em Minas, mas mais de 300 cidades não gastaram para prevenir casos

Estudo revela que 35,8% dos 853 municípios do estado não empenharam recursos públicos para financiar ações de saúde mental
Setembro amarelo é o mês de prevenção ao suicídio.
Setembro amarelo é o mês de prevenção ao suicídio. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Trezentos e cinco municípios de Minas Gerais não registraram gastos com prevenção ao suicídio em 2023, período em que o estado registrou taxa de 9,23 casos por 100 mil habitantes, número 25% superior ao índice de 2018. Das 853 cidades do estado, apenas apenas 548 (64,2%) empenharam recursos relacionados ao tema.

O levantamento, realizado pela Coordenadoria de Fiscalização Integrada e Inteligência em Orçamento e Políticas Públicas do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MG), identificou os gastos por meio de busca por palavras-chave como “Setembro Amarelo”, “saúde mental” e “prevenção ao suicídio” nos registros do Sistema Informatizado de Contas dos Municípios (SICOM). O resultado do trabalho foi obtido por O Fator nesta quinta-feira (11).

O crescimento da taxa estadual de suicídios, que passou de 7,37 para 9,23 casos por 100 mil habitantes entre 2018 e 2023, supera a média nacional de 8,05 por 100 mil habitantes. 

Disparidades regionais

Entre os municípios que registraram gastos, as diferenças são extremas. Barbacena lidera em valores per capita com R$ 70,93 por habitante, enquanto Bocaiúva investiu apenas R$ 0,04 per capita. Em números absolutos, a microrregião de Belo Horizonte concentrou R$ 27,5 milhões dos R$ 117 milhões empenhados no estado em 2023.

O crescimento dos gastos estaduais foi de 142% entre 2018 e 2023, saltando de R$ 48,5 milhões para R$ 117 milhões. O maior aumento ocorreu entre 2021 e 2022, quando os recursos passaram de R$ 67,5 milhões para R$ 99,3 milhões.

Há, também, preocupações quanto a grupos específicos da população mineira. Segundo o levantamento, mulheres entre 15 a 19 anos residentes nas microrregiões de Paracatu, Pirapora, Patos de Minas e Patrocínio apresentaram risco de suicídio 5,35 vezes maior que a média estadual entre 2021 e o ano retrasado.

Na Região Centro-Oeste, homens de 20 a 29 anos apresentaram risco de suicídio 65% superior ao esperado

Patos de Minas apresentou a maior taxa de suicídios do estado em 2023: 19 por 100 mil habitantes. São Lourenço (17,6) e Campo Belo (17,19) completam o ranking das três microrregiões com maiores índices. No extremo oposto, Grão Mogol não registrou casos no período.

Predominância masculina

O perfil dos casos mantém predominância masculina histórica. Em 2023, a taxa entre homens foi de 14,53 por 100 mil habitantes, contra 4,18 entre mulheres – diferença de quase quatro vezes. Os homens representaram 75,83% dos óbitos por suicídio registrados no estado.

O estudo identificou mudança no perfil etário. Em 2018, a maior concentração ocorreu entre pessoas de 40 a 49 anos (11,48 por 100 mil habitantes). Em 2023, o maior índice passou para a faixa de 30 a 39 anos (13,92 por 100 mil habitantes), indicando rejuvenescimento do problema.

Entre idosos acima de 80 anos, a taxa aumentou 46% no período, passando de 6,61 para 9,64 por 100 mil habitantes – terceira maior variação entre todas as faixas etárias analisadas.

Problemas estruturais

O mapeamento dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) revelou distribuição irregular das casas de apoio no território estadual. Dos 441 CAPS existentes em Minas Gerais, apenas 291 municípios (34,1%) possuem pelo menos uma unidade.

A microrregião de Pedra Azul apresenta o melhor índice: 80% dos municípios possuem CAPS. Belo Horizonte e Ouro Preto registram 75% cada. São João del Rei (7%) e Itajubá (8%) apresentam os menores percentuais de cobertura.

A distribuição de profissionais especializados também é irregular. Mantena possui 8,08 psiquiatras por 100 mil habitantes no SUS, enquanto Sete Lagoas registra 1,39. Entre psicólogos, Piumhi lidera com 46,60 por 100 mil habitantes, contra 17,88 em Juiz de Fora.

A pesquisa utilizou dados de mortalidade do DATASUS entre 2018 e 2023, classificados como “lesões autoprovocadas intencionalmente”. As taxas foram padronizadas por idade usando a população do Censo 2022 como referência.

A análise foi realizada por microrregiões devido à instabilidade estatística que ocorreria em municípios pequenos, onde casos isolados podem gerar taxas proporcionalmente elevadas. O software SaTScan foi utilizado para identificar janelas espaço-temporais estatisticamente significativas.

Centro de Valorização da Vida

Em caso de necessidade de ajuda psicológica, o Centro de Valorização da Vida (CVV) está disponível 24h, todos os dias da semana. O atendimento é realizado pelo telefone 188 e também por meio de chat disponível no site da entidade.

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