Tarifaço de Trump ameaça cortar R$ 21,5 bi do PIB de Minas e eliminar até 187 mil empregos

Análise aponta que perdas concentram-se nas regiões Central, Sul e Vale do Aço, responsáveis por mais de 70% das exportações
Medida anunciada por Trump tem previsão de começar em agosto. Foto: Casa Branca

A nova tarifa de 50% sobre todos os produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos, anunciada para vigorar a partir de agosto, coloca Minas Gerais frente a um impacto direto em sua economia, segundo análise técnica da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg). Levantamento detalhado quantifica perdas generalizadas para o estado, com destaque para queda no PIB e emprego, diminuição de renda familiar e efeitos em setores exportadores estratégicos.

Minas foi responsável por 11,4% das exportações brasileiras aos EUA em 2024, movimentando US$4,62 bilhões – cerca de 2,3% do PIB mineiro. O café representou 33,1% desse valor (US$1,53 bilhão), enquanto produtos de ferro fundido, ferro e aço responderam por 29,2% (US$1,35 bilhão). Máquinas elétricas, obras de ferro/aço e produtos químicos inorgânicos também figuram entre os itens mais vendidos. A estrutura exportadora é marcada por concentração: os dez principais produtos corresponderam a 87% do total faturado com as vendas para o país norte-americano.

A simulação feita pela Fiemg revela: o choque tarifário pode fazer o PIB mineiro cair até R$6,7 bilhões (0,6%) no curto prazo, atingindo até R$21,5 bilhões (2%) no horizonte de 5 a 10 anos, caso mantida a restrição. O efeito se propaga de forma transversal pela economia:

  • Empregos afetados: menos 58 mil postos formais e informais em até dois anos, chegando a 187 mil na década.
  • Massa salarial: redução de até R$982 milhões no curto prazo e R$3,16 bilhões no longo.
  • Consumo familiar: retração de 0,91% em até dois anos (curto prazo) e 4,41% após cinco anos (longo prazo).
  • Exportações: queda de 6,8% inicialmente, acumulando redução de 4,6% nos anos seguintes.
  • Investimentos: estabilidade inicial, mas corte de 3,19% no longo prazo.
  • Arrecadação: perda fiscal estadual pode alcançar R$567 milhões em dez anos.

Siderurgia sofre maior baque; café e manufaturas também caem

No curto prazo, o setor siderúrgico despenca (-12,5%), seguido por fabricação de equipamentos de transporte (-10,1%) e produção de minerais não-metálicos (-3,8%). O impacto forte nas cadeias exportadoras desloca o efeito recessivo para segmentos de serviços, comércio e construção civil, que passam a sofrer no longo prazo – inclusive atividades imobiliárias, saúde e educação privada, por conta do efeito cascata da perda de renda das famílias.

Onde o impacto será mais forte em Minas

A análise regional detalha que as perdas concentram-se nas regiões Central, Sul e Vale do Aço, que juntas são responsáveis por mais de 70% das exportações mineiras aos EUA. Munícipios como Guaxupé e Varginha (café) e Sete Lagoas e Belo Horizonte (siderurgia) lideram em vendas aos americanos. Apenas Guaxupé e Varginha totalizaram US$700,9 milhões em vendas de café ao mercado americano em 2024, representando quase metade do total estadual no setor.

Efeitos em caso de retaliação

A Fiemg simulou três cenários para eventuais ciclos de retaliação tarifária entre Brasil e EUA:

CenárioQueda do PIB (%)Vagas eliminadasPerda em massa salarial (R$ bi)Perda em impostos (R$ bi)
Retaliação do Brasil (CH I)-2,85-262.623-4,44-0,796
Nova escalada dos EUA (CH II)-3,19-293.953-4,97-0,891
Retaliação total e fuga de investimento (CH III)-6,03-443.233-7,49-1,34

No pior cenário, a economia mineira pode encolher mais de R$60 bilhões, com mais de 440 mil postos de trabalho fechados e perdas de R$7,5 bilhões na massa salarial das famílias até 2034.

O estudo se baseou em modelo de equilíbrio geral computável (EGC) calibrado para Minas Gerais (BMMG) com 67 setores, cruzando microdados da ComexStat, IBGE e Banco Central do Brasil. O cálculo adotou elasticidade de substituição segundo metodologia internacional e ponderou todas as cadeias interligadas da economia estadual. Cenários de curto (até dois anos) e longo prazo (cinco a dez anos) foram analisados. O agravamento dos efeitos foi simulado em casos de retaliação mútua e diminuição do investimento externo.

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