Temor por novo tarifaço: a reunião de Alckmin com o setor sucroenergético mineiro

Em Brasília, gestores criticaram seção 301 e defenderam agenda conjunta de expansão do etanol no mercado mundial
Representantes do setor sucroenergético se reuniram com o vice-presidente Geraldo Alckmin na segunda-feira (18). Foto: Siamig/Divulgação

Críticas às medidas norte-americanas e à investigação aberta contra o Brasil marcaram a reunião de mais de uma hora entre o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e Mário Campos, presidente da Siamig e da Bioenergia Brasil, nesta segunda-feira (18), em Brasília. Para representantes do setor sucroenergético, os EUA usam a chamada seção 301 como justificativa para um novo tarifaço, enquanto a saída real estaria em uma agenda conjunta de expansão do etanol no mercado mundial.

O encontro, realizado no gabinete do vice-presidente, em Brasília, durou mais de uma hora e contou, também, com dirigentes regionais do setor, representantes do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e da Secretaria de Comércio Exterior.

A O Fator, Mário Campos destacou que, embora o setor não confie no resultado do processo conduzido pelos norte-americanos, a participação brasileira é considerada fundamental para garantir espaço de defesa futura. “Os EUA vão conduzir do jeito deles. Precisamos participar, mesmo sem acreditar que o problema será resolvido, porque é essa participação que nos permitirá recorrer depois”, afirmou.

A investigação, coordenada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, da sigla em inglês) dentro da chamada seção 301, pode resultar em novas sobretaxas a produtos brasileiros. Hoje, o etanol estadunidense enfrenta tarifa de 18% para entrar no Brasil, contra alíquota de 52,5% na direção inversa após o tarifaço de Trump.

Confiança

Apesar do tom crítico em relação ao processo americano, os dirigentes saíram confortados do encontro com Alckmin. Segundo Campos, o vice-presidente ressaltou que a defesa apresentada pelo governo e enviada às autoridades norte-americanas nessa segunda-feira (18) foi altamente técnica.

Alckmin também reforçou que o governo já adotou medidas de apoio, como a liberação de R$ 30 bilhões em linhas de crédito, ajustes tributários, estímulo a compras governamentais e uso de drawback, que permite a isenção ou suspensão de tributos sobre os insumos utilizados na fabricação de mercadorias que serão exportadas. “Entendemos que o governo está fazendo o que pode. O ambiente é de tranquilidade, inclusive porque nem Brasil nem Estados Unidos parecem ter pressa nesse processo”, disse Campos.

Agenda conjunta 

Na avaliação do setor, a disputa deveria dar espaço a uma cooperação estratégica entre Brasil e EUA, maiores produtores de etanol do mundo. Em vez de confrontos comerciais, o ideal, segundo o presidente do Siamig e da Bioenergia Brasil, é avançar em uma agenda internacional que incentive maior uso do biocombustível, tanto em misturas de gasolina, especialmente na Ásia, quanto em segmentos como a aviação e a navegação marítima.

Segundo Campos, já há iniciativas internacionais para uso do etanol como matéria-prima do Sustainable Aviation Fuel (SAF), combustível sustentável de aviação. “Ao invés de olhar apenas para seus mercados internos, Brasil e EUA poderiam se unir para abrir espaço global para o etanol. É uma agenda que pode trazer benefícios para todos”, concluiu.

A investigação

A investigação, coordenada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, da sigla em inglês) dentro da chamada seção 301, pode resultar em novas sobretaxas a produtos brasileiros. Hoje, o etanol estadunidense enfrenta tarifa de 18% para entrar no Brasil, contra alíquota de 52,5% na direção inversa após o tarifaço de Trump.

No caso do açúcar, a situação é ainda mais grave. Fora da cota de exportação anual de 155 mil toneladas, destinada principalmente a empresas do Norte e do Nordeste, o produto paga tarifa de US$ 357 por tonelada. A esse valor soma-se agora mais 50% de sobretaxa. “Exportamos cerca de 35 milhões de toneladas de açúcar para os EUA, então essa cota é irrisória”, avaliou Campos.

Outros setores são investigados, como sistemas de pagamento digital (Pix), propriedade intelectual (pirataria) e desmatamento. As respostas aos questionamentos dos Estados Unidos foram enviados nessa segunda-feira (18) pelo governo Federal, que aponta não haver base jurídica ou factual que sustente as alegações.

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