Documentos da Polícia Federal (PF) obtidos por O Fator apontam que o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master e preso nessa quarta-feira (4), durante a terceira fase da operação Compliance Zero, descreveu, em mensagens privadas de texto, uma operação que cedeu, por R$ 26 milhões, créditos avaliados em mais que o dobro (R$ 54 milhões) e lastreados em imóveis comerciais de Belo Horizonte.
O texto foi enviado a um interlocutor identificado como “Paulo”. Segundo a PF trata-se de Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de Fiscalização do Banco Central, afastado do cargo por decisão do ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF).
A mensagem, que integra os autos da investigação e foi compartilhada com outras autoridades, mostra Vorcaro detalhando a cessão de um crédito do Master contra uma empresa chamada de “Caparao”. A letra, segundo ele, derivava de um fee ao qual o banco “tem direito desde o início do ano”. O banqueiro afirma que o crédito era “líquido e certo” e “lastreado em ativos imobiliários de alto valor”, especificando que se tratava de “lajes comerciais no melhor prédio de Belo Horizonte”. O material não aponta os dias em que as mensagens foram encaminhadas.
No texto, Vorcaro detalha que o comprador do crédito era um advogado especializado em aquisição de crédito estressado, que adquiriu o ativo “com deságio do banco, por 26 milhões, algo que vale 54 milhões”.
Segundo ele, o advogado “deu um sinal” e o próprio banco financiou o restante do pagamento. Vorcaro acrescenta que a operação seguiu “a regra de PDD (provisão para devedores duvidosos) como um cliente de crédito normal” e que foi conduzida “com pessoa de mercado”.
Em outro trecho, o banqueiro cita que o comprador pretendia tomar posse das lajes e revendê-las “ainda neste semestre” por valores entre R$ 35 milhões e R$ 40 milhões, quitando o saldo com o banco e ficando com o resultado da diferença.
Vorcaro também escreveu que “financiar terceiros é o negócio do banco”, e afirmou estar disposto a “criar uma provisão de 100%, que é baixada quando recebermos tudo”, ainda que considerasse a exigência “sem parâmetro contábil”.
Conversa sobre o controle do Master
Apesar de desaguar na conversa a respeito do crédito imobiliário, o diálogo com Paulo começa com Vorcaro dizendo estar disposto “a acatar todos os itens que foram mencionados ao Isaac”, em referência a um técnico do BC, e pedindo “20 minutos da atenção” do interlocutor para explicar as pendências relacionadas à supervisão sobre o capital do Master.
O banqueiro afirma que “abriu mão de tudo o que foi pedido até hoje” e que sempre acatou as determinações da autarquia, mas discorda de novos ajustes solicitados pelo Departamento de Organização do Sistema Financeiro (Deorf), área do BC responsável pela análise de capital e controle societário das instituições financeiras.
Vorcaro relata que a negativa do Deorf travava a aprovação de seu controle no Banco Central, o que, segundo ele, impedia a entrada de novos investidores.
Ele cita nomes de três aportadores — “Pedro, Humberto e Augusto” — sem mencionar o sobrenome deles. O banqueiro assegura que, se as pendências fossem resolvidas, o capital da instituição se manteria acima das exigências do Acordo de Basileia, que estabelece patamares mínimos de capital para instituições financeiras ativas no mercado internacional.
“Precisamos resolver isso, precisamos de sua ajuda para que o Sidnei aprove agora, antes da sua saída”, apela Vorcaro a Paulo. Ele argumenta que havia “milhares de famílias envolvidas” e que, mesmo com as restrições de capital, o banco operava normalmente:
“Veja o balanço de janeiro, com a operação recorrente virada, sem fee ou negócios pontuais”, prossegue.
Suspeitas sobre servidores do BC
Para a Polícia Federal, o conteúdo da comunicação está relacionado a suspeitas de atuação de servidores do Banco Central como consultores informais de Vorcaro dentro da autarquia. O inquérito aponta que Paulo Sérgio Neves de Souza e Bellini Santana, chefe do Departamento de Supervisão Bancária do BC, forneciam informações internas e orientações técnicas ao controlador do Master em troca de repasses financeiros.
A operação Compliance Zero teve como palco principal Belo Horizonte, onde estão concentrados os ativos mencionados na mensagem e onde trabalham executivos próximos ao grupo financeiro. Além de Vorcaro, a PF prendeu Fabiano Zettel (cunhado do banqueiro), Marilson Silva (policial aposentado) e Luiz Phillipi Mourão, o “Sicário”, apontado como integrante de um núcleo responsável por monitorar e intimidar pessoas que poderiam atrapalhar os planos empresariais do banqueiro.
Paulo Sérgio e Bellini Santana foram monitorados por tornozeleira eletrônica e estão impedidos de acessar instalações ou sistemas do BC.