A bolha da Inteligência Artificial: quando o hype vira risco real

Inteligência artificial
IA é real e, de fato, entrega resultados. A questão é que boa parte do dinheiro está indo para projetos que, se fossem avaliados com frieza, não se sustentariam. Foto: Pixabay

Vivemos uma dessas fases em que a tecnologia parece ter encontrado seu novo messias: a Inteligência Artificial. Todo mundo fala dela, aposta nela, promete mundos e fundos com ela. É como se, de repente, o futuro tivesse chegado e bastasse colar a sigla “IA” em qualquer proposta para transformá-la em ouro. O problema é que já vimos esse filme antes, e o final costuma ter mais lágrimas que aplausos.

Lá no fim dos anos 1990, bastava uma empresa colocar um “.com” no nome para virar queridinha de Wall Street. Lucro? Detalhe irrelevante. O importante era crescer “exponencialmente”. Deu no que deu: a bolha estourou. Agora o roteiro é o mesmo, só mudaram os personagens. As empresas se dizem “movidas por IA” e, de repente, seus valuations sobem como foguetes. Fundos, analistas e influenciadores correm atrás, com medo de ficar de fora do próximo grande boom.

Mas há uma diferença crucial. A IA é real, de fato entrega resultados. A questão é que boa parte do dinheiro está indo para projetos que, se fossem avaliados com frieza, não se sustentariam. Startups que apenas empacotam modelos prontos e revendem com um novo nome. Promessas de automação milagrosa, economia de custos e lucros futuros, sempre “futuros”. Muita história, pouco fundamento.

Enquanto isso, os verdadeiros ganhadores continuam sendo os gigantes: Microsoft, Google, NVIDIA. São eles que dominam a infraestrutura e transformam discurso em faturamento. O resto do mercado vive de Power Point bem escrito, planilhas coloridas e comunicados à imprensa. É o mesmo sintoma de sempre, quando a narrativa vale mais que o balanço, pode apostar, tem bolha no ar.

E ela é alimentada por um ingrediente que nunca muda, o excesso de capital fácil. Só que agora os juros estão altos. O custo do dinheiro pesa e quem depende de rodadas eternas de investimento começa a sentir o baque. Inovação, nesse cenário, vira linha de despesa. Quando a confiança evapora, o castelo de PowerPoint cai.

Claro que a IA vai mudar o mundo. Assim como a internet mudou. Assim como os smartphones mudaram. Mas é preciso separar revolução tecnológica de negócio sustentável. A diferença entre sonho e delírio está na conta que chega no fim do mês.

O investidor esperto precisa fazer perguntas desconfortáveis. Essa empresa cria algo próprio ou apenas revende o que já existe? Gera valor real ou só buzz? E se o sucesso dela depende de uma API de uma Big Tech, o que sobra quando a gigante resolver mudar as regras do jogo?

Aqui no Brasil, o entusiasmo segue o mesmo padrão. Fundos e startups querem carimbar “IA” em seus discursos, como se isso bastasse para atrair capital. Mas o retorno real virá das soluções práticas que atacam problemas concretos, gargalos logísticos, ineficiências do agro, falhas nos serviços financeiros. O resto é espuma, e espuma some rápido.

Bolhas são cíclicas. Começam com inovação de verdade, crescem com promessas desmedidas e acabam quando o mercado lembra que matemática ainda existe. A Inteligência Artificial é revolucionária, sim, mas o hype em torno dela é puro comportamento humano, superestimar o futuro e ignorar o presente.

No fim das contas, talvez o problema não seja a bolha da IA. Seja a falta de inteligência, a humana, na hora de investir.

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