Poucas pessoas são tão balizadas quanto eu para analisar e entender a verdadeira miséria – esqueçam a pobreza – que assola dezenas de milhões de brasileiros país afora. Passei mais de 20 anos da minha vida trabalhando no norte e nordeste do Brasil – capital e interior – viajando de carro, dormindo em hospedarias e me alimentando à beira da estrada. Não chego a ser o Pedro ou o Bino, da espetacular série da TV Globo, “Carga Pesada”, sucesso de audiência dos anos 1980, mas, sim, “Eu conheço cada palmo desse chão”.
Sou um defensor ferrenho dos programas assistenciais – jamais confundir com assistencialismo -, pois são, na maioria dos casos, a diferença entre viver e morrer, sobretudo para bebês e idosos. A ideia estúpida de pensar que o Bolsa Família é uma “bolsa esmola”, e que o auxílio torna as pessoas preguiçosas e sem ambição, nasce, cresce e se espalha nas – e pelas – cabeças de quem nunca, jamais, compreendeu a origem da miséria brasileira. Pior. Quem pensa assim carece de um dos mais nobres sentimentos, que é a compaixão.
Nos rincões do país, onde nem Deus é capaz de olhar, o dependente do auxílio estatal não é um vagabundo que não quer trabalhar, mas um indivíduo que, na completa ausência de condições básicas de higiene e saúde, e absoluta falta de educação escolar, nem sequer imagina que “há vida para além da sua”. São pessoas com tamanho déficit cognitivo, que não compreendem o valor do saber e não possuem o ímpeto do crescimento pessoal. Apenas sobrevivem, até que a morte daqui os leve. Simples assim. Triste assim.
Imobilidade social
Dezenas de milhões de brasileiros são condenados pelo CEP onde nascem. A mobilidade social, diante de tamanhas carências e adversidades, se não é impossível, é rara. Ou melhor, raríssima. “Ah, Ricardo, quem quer vai à luta e prospera”. Sério? Operários da construção civil, trabalhadores rurais, estivadores de portos, carregadores do Ceasa, empregados domésticos, enfermeiros, garis… Alguém tem coragem de dizer que falta luta à tanta gente que se mata, de sol a sol, apenas para levar comida para casa, digo, barraco?
A verdade é que o Estado brasileiro, formado pela elite da sociedade, em sua gigantesca parcela, é o culpado pela miséria. São políticos e governantes, com o luxuoso auxílio de parte da iniciativa privada, dependurada nas benesses dos Poderes, que em mais de 500 anos não conseguiu mudar a matriz social e econômica do país. É o Estado brasileiro que não provém, a despeito da estúpida carga tributária, saúde, higiene e educação básicas, que seriam, por si só, capazes de, ao longo das décadas, formar indivíduos autônomos.
Para piorar, como temos sido administrados por quem acredita piamente que o assistencialismo, sobretudo o mais nefasto, o eleitoreiro – moeda de troca por votos – é a solução para a miséria, não apenas não resolvemos essa chaga, como somos impedidos, via achaque tributário, de prosperar como nação. Assim, nos mantemos presos ao pior dos mundos: subdesenvolvidos e pobres. E pouco importa se quem governa é a esquerda – sim, é um tanto pior – ou a direita. A matriz é a mesma. E a incompetência, também.
Circo dos horrores
Ontem, quinta-feira, 4 de setembro, Belo Horizonte assistiu a uma performance bizarra em termos de populismo eleitoreiro e exploração despudorada da pobreza. Em uma favela da capital, o presidente Lula e a primeira-dama Janja da Silva, o ministro Alexandre Silveira e o senador Rodrigo Pacheco, entre outros, protagonizaram cenas verdadeiramente chocantes ao lançarem o programa Gás do Povo. Não pelo benefício em si, ainda que por ele, mas pela forma com que o trataram – e trataram os carentes.
Em primeiro lugar, é uma pena que os beneficiados não entendam que o botijão que irão “ganhar” será pago por eles mesmos, e não pelos messiânicos do palanque. Aliás, é uma pena que não entendam que pagarão três, quatro botijões e receberão tão somente um. E é profundamente triste que olhem para os políticos e enxerguem, não servidores públicos – estupidamente bem-remunerados -, mas senhoras e senhores caridosos, preocupados com o bem-estar dos mais pobres. Definitivamente, não é isso o que ocorre.
Gás de graça, dentadura de graça, fralda geriátrica de graça, absorvente de graça, energia de graça… Aliás, de graça uma ova! Gastássemos todo esse dinheiro, e o das isenções fiscais aos amigos, do custeio das benesses e mordomias públicas, do desperdício, da corrupção etc. com – repito!! – saúde, higiene e educação básicas, e não seria necessário “dar de graça” nada a ninguém. Mas aí não seria o Brasil que, à esquerda e à direita, passando pelo centro, ou melhor, centrão, prefere a lógica do “quanto pior, melhor”.