A devoção do clã Bolsonaro ao país sempre funcionou melhor como slogan do que como prática. O famoso “Deus, Pátria e Família” jamais resistiu ao contraste com a vida real dos personagens – do golpe frustrado comandado pelo patriarca às investidas destrambelhadas do deputado à distância, Eduardo Bolsonaro, que segue dos EUA testando até onde consegue prejudicar a economia brasileira.
Com a impossibilidade eleitoral de Jair Bolsonaro já sacramentada, a família trololó partiu para dinamitar qualquer nome que ouse se apresentar como alternativa à direita do lulopetismo. Sobrou tiro, porrada e bomba para gente do próprio círculo íntimo – daqueles que sempre fizeram fila para adular o “mito” -, como Tarcísio de Freitas, governador de SP, e Romeu Zema, chefe do Executivo de Minas Gerais.
E a lista dos neo desafetos só fez crescer com o tempo: Ratinho Júnior e Ronaldo Caiado, governadores do Paraná e de Goiás, respectivamente, e até o bajulador-mor, Nikolas Ferreira (PL-MG), provaram da bílis bolsonarista, assim como a coleção de aliados que, ao longo dos anos, saíram do altar para a fogueira: Gustavo Bebianno, Alexandre Frota, Joice Hasselmann, General Santos Cruz, Sergio Moro. Nada mais previsível.
Sobrou para a madrasta
Até Michelle Bolsonaro entrou na linha de tiro depois de comentários sobre o cenário político cearense. O núcleo duro a tratou como intrusa – coisa velha dentro da família, aliás -, e a reação deixou claro que, no universo Bolsonaro, nem todos os Bolsonaros, ainda que seja um puro-sangue, são aceitos como tal. As mensagens de WhatsApp entre pai e filho (Eduardo e Jair) que circularam meses atrás, que o digam.
Por isso, a “pré-candidatura” de Flávio Bolsonaro, noticiada por O Fator nesta sexta-feira, 5, não surpreende ninguém. Não falamos do senador conhecido pela mansão milionária em Brasília, comprada, segundo a versão oficial, graças ao notável comércio de panetones pagos em dinheiro vivo, mas do – como é mesmo? – Filho 01. A dúvida é se a movimentação é real ou apenas fumaça calculada.
As pesquisas apontam sempre o mesmo desenho: qualquer membro da família Bolsonaro larga com um patamar inicial expressivo. O problema é o teto – altíssimo em rejeição, às vezes superando o do próprio Lula. Isso costuma inviabilizar qualquer projeto de candidatura majoritária. Num eventual segundo turno, por exemplo, segundo todas as pesquisas, quaisquer dos Bolsonaros sucumbem diante do petista.
Segue o jogo
Ainda assim, lançar o nome precocemente sempre vale à pena. Nesse possível “faz de conta”, o pré-candidato ou vende caro sua não participação mais à frente, ou negocia apoio no segundo turno em troca de espaço e poder, além de transformar a exposição em ativo para a próxima eleição – o tal do “recall”. A conta costuma fechar para quem entra nessa estratégia, e Flavinho Wonka sabe disso.
O bolsokid, entretanto, tem outras cartas sobre a mesa: pode tentar virar vice numa chapa anti-Lula e, ato contínuo, caso o chefão do PT obtenha novo mandato, posiciona-se como líder natural da oposição. A jogada, ainda que remota ou fabricada, renderá dividendos políticos. E se as chances do petista aumentam por conta disso, o que não é nem um pouco difícil, tanto melhor para o rapaz.
Ignorar a força do bolsonarismo – mesmo concentrado em algo próximo de 15% do eleitorado – é burrice. A candidatura de Carlos Bolsonaro ao Senado por Santa Catarina mostra isso com clareza. Da mesma forma, decretar que Lula será derrotado em 2026 é torcida. Lulismo e bolsonarismo seguem firmes, infelizmente, disputando a hegemonia e contaminando o ambiente político com a mesma intensidade.