A era do laboratório eleitoral: sai na frente quem entender primeiro

urna eletrônica
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Antigamente, quem escolhia o tema do dia era o político. Bastava convocar uma coletiva, lançar uma proposta, brigar no plenário. O jornal do dia seguinte se encarregava de amplificar. Hoje não é mais assim. O político fala, mas não tem garantia de que será ouvido. Quem pauta a sociedade são as redes, conduzidas por algoritmos que captam a pulsação do momento e decidem o que merece aparecer e o que vai desaparecer sem deixar rastro. O poder de definir a conversa deixou de estar no palanque.

Diante disso, o que sobra ao estrategista? A genialidade está em perceber que, se não é tão simples escolher a música como antigamente, é possível entrar no ritmo. Hoje, conseguimos saber quais temas estão em alta, e em algumas situações até prever quais vão crescer nas próximas horas ou dias. Essa leitura abre uma janela preciosa: não se trata de correr atrás da pauta, mas de entrar nela na hora certa, com a palavra certa, para o público certo.

É aqui que a pesquisa ganha um peso maior do que nunca. Deixa de ser uma fotografia de intenção de voto e passa a ser um laboratório. Com ela, é possível testar desde o tom do discurso até o formato da produção. Vale tudo: um vídeo em linguagem popular ou mais institucional, um anúncio que destaca proposta ou emoção, até detalhes como a aparência de quem fala ou a presença de outra liderança na peça. Cada variável pode ser simulada antes de ser exposta, medindo a reação de diferentes grupos sociais. Se engana quem pensa que o vídeo de fundo-preto foi pura casualidade. 

Não é novidade que, desde os tempos de ouro de Duda Mendonça e João Santana, já havia pesquisas para entender o eleitorado. Mas esses levantamentos eram muito inacessíveis para a maioria das campanhas e utilizados para diagnosticar e fazer mudanças de rumo. Agora, é possível medir tudo o tempo todo para tomar decisões cotidianas. Esse é o salto. O estrategista não precisa mais apostar apenas na intuição. Pode olhar para dentro das bolhas e compreender como cada uma delas vai receber a mensagem. É como ter um mapa das sensibilidades da sociedade. Saber o que esse grupo rejeita, o que aquele valoriza, o que outro ainda não enxerga mas pode se tornar decisivo amanhã. Entender, calibrar e aproveitar cada oportunidade de impactar o eleitorado. O cruzamento do monitoramento digital com metodologias de pesquisa se torna o novo ouro. 

Em campanha, errar pode custar mais caro do que gastar. Um erro público exige tempo para se explicar, espaço para se defender, energia para reconquistar terreno perdido. A pesquisa ganha um valor que nunca antes teve no marketing político: quem pesquisa tem condições de entrar na dança já tendo ensaiado a coreografia. Ela garante precisão em um ambiente que se tornou volátil demais para aventuras.

Mesmo assim, há quem insista em tratar pesquisa como gasto supérfluo ou como formalidade de campanha. Enxergam números sem perceber o valor de testar cenários. 

O novo ouro da política não está mais em slogans bem lapidados nem em palanques lotados, mas em entender que campanha passou a ser um laboratório. Testar antes de divulgar, compreender o que vem acontecendo nas redes, transformar dados em previsibilidade. É preciso ter a coragem de olhar para a sociedade não pelo que se deseja que ela pense, mas pelo que ela já está pensando e pelo quanto ela está aberta a mudar de opinião. 

Quem não entendeu isso ainda tem a falsa sensação de que controla o debate. Quem já entendeu, sabe que o jogo virou outro. A disputa agora não é mais para ver quem vai pautar, mas pela capacidade de enxergar a pauta que vale investir recursos políticos.

Esse campo de inteligência aplicada vem se aprimorando e se tornando mais acessível, permitindo que cada vez mais campanhas compreendam com profundidade o que a população pensa e sente. Ao aproximar a política da realidade concreta das pessoas, ajuda a evitar o descolamento entre discurso e sentimento social. Quando usado com responsabilidade, pode fortalecer a democracia, tornando o debate público mais conectado, realista e sensível às nuances da sociedade.

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