A fatura da má gestão

Sociedades que prosperam não se constroem apenas com boas intenções ou belas imagens, mas com disciplina administrativa, coragem de enfrentar temas impopulares e compromisso real com resultados. Foto: Divulgação

Há um preço que não aparece no orçamento, mas que a população paga todos os dias: o custo de viver em uma cidade, estado ou país mal administrado. É a fatura cara da má gestão, silenciosa no início, mas que, quando chega, cobra com juros altos. A conta vem em estradas esburacadas, hospitais sem atendimento digno, escolas que não ensinam, segurança frágil e oportunidades perdidas.

O fenômeno mais perigoso da política contemporânea é o do governante que troca o ofício de administrar pelo papel de influenciador digital. Governos inteiros subordinados à lógica do algoritmo, como se a cidade pudesse ser gerida a partir da câmera de um smartphone. É a política reduzida a clipes de 30 segundos, enquanto o planejamento, o que realmente sustenta resultados duradouros, fica para depois, ou para nunca.

Sim, comunicar é vital. O cidadão precisa saber o que está sendo feito, como e por quê. Mas comunicação sem substância é propaganda. Um exemplo que o Ministro Anastasia sempre cita: é como inaugurar uma escola linda, com refeitório impecável e merenda de qualidade, mas evitar responder à pergunta central: essa escola está ensinando? Os alunos estão aprendendo mais e melhor? O IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) subiu ou continuamos apenas desfilando prédios bonitos para a foto?

Na saúde, o erro se repete: construir um hospital é importante, mas de nada adianta se não houver médicos, insumos e gestão eficiente. Na segurança, multiplicar viaturas e câmeras pouco resolve se não houver estratégia e inteligência para reduzir o crime. Na infraestrutura, inaugurar obras sem prever manutenção é apenas adiar o problema e multiplicar o custo num futuro próximo. É gastar mal.

A boa gestão começa no planejamento: de curto, médio e longo prazo. O curto prazo atende às urgências, o médio prazo estrutura políticas consistentes, e o longo prazo preserva o futuro, mesmo que os frutos sejam colhidos por outro. É a visão de Estado sobrepondo-se à visão de mandato. E isso exige coragem e espírito público.

Essa lógica pede uma agenda contínua de Reforma do Estado: profissionalização das carreiras, governança baseada em dados, metas contratuais e avaliação independente; orçamento plurianual que resista ao calendário eleitoral; compras públicas orientadas por valor e manutenção preventiva; simplificação regulatória; parcerias bem estruturadas (PPPs e concessões) com matriz de risco clara; transparência ativa e controle social qualificado. É responsabilidade com o dinheiro público e sensibilidade com quem está na ponta: o cidadão. Acima de tudo, é vontade política de fazer bem feito para transformar serviços públicos de promessa em entrega, com qualidade, previsibilidade e resultados concretos.

Há quem prove que é possível conciliar a força das redes com a solidez da gestão. Em Nova Lima, o prefeito João Marcelo mostra que presença digital não precisa ser inimiga de obras, investimentos e políticas públicas que funcionam. Em Conceição do Mato Dentro, Otacílio, outro jovem prefeito, segue a mesma lógica: comunicar, sim, mas entregar, sempre. Belo Horizonte teve em Fuad Noman um gestor quase obsessivo pelas entregas concretas, pela manutenção e melhoria da cidade. Hoje, Álvaro Damião (Belo Horizonte) preserva essa mesma lógica: cuidar bem, gerir bem, comunicar bem.

A história mostra que sociedades que prosperam não se constroem apenas com boas intenções ou belas imagens, mas com disciplina administrativa, coragem de enfrentar temas impopulares e compromisso real com resultados. Um gestor pode até ganhar uma eleição com marketing, mas só entra para a história com entregas reais. E quando a política se rende apenas ao espetáculo, quem paga o preço é sempre o cidadão, na fila do hospital, no trânsito caótico, na escola que não ensina. É por isso que cobrar planejamento, execução e resultados não é um luxo: é uma obrigação de toda sociedade que não aceita trocar o futuro por curtidas e alguns segundos de aplauso virtual.

Leia também:

Moraes nega transferência de presídio pedida por condenada pelo 8/1 detida no Aeroporto de Confins

Juíza manda ação por peculato dos ‘fura-filas’ da vacina para o TJMG

Mais jogos que em 2014 e seleções hospedadas no interior: o plano de Minas para a Copa do Mundo Feminina

Veja os Stories em @OFatorOficial. Acesse