A guerra no Oriente Médio e os riscos para a agropecuária brasileira

Colheitadeira em plantação.
É cada vez mais evidente a importância de ampliar a produção nacional de fertilizantes, diversificar fornecedores e estimular maior eficiência no uso desses produtos. Foto: Agência Brasil/Arquivo

O prolongamento do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã pode gerar impactos econômicos que vão muito além do campo militar. Para o Brasil, a instabilidade no Oriente Médio representa um risco relevante, sobretudo devido à forte dependência externa de insumos agrícolas e à sensibilidade do setor às oscilações nos preços internacionais de energia. Estados com forte presença do agronegócio, como Minas Gerais, estão particularmente expostos a esse cenário.

A agricultura brasileira tornou-se altamente produtiva nas últimas décadas graças à combinação de tecnologia, mecanização e uso intensivo de fertilizantes. Entretanto, essa produtividade também está associada a uma vulnerabilidade estrutural: a dependência de insumos importados. Dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda) indicam que o Brasil consome cerca de 45 milhões de toneladas de fertilizantes por ano, sendo que aproximadamente 80% a 85% desse volume é importado.

No caso dos fertilizantes nitrogenados, a dependência externa é ainda maior. O consumo anual brasileiro de ureia gira em torno de 7 a 8 milhões de toneladas, das quais a maior parte é adquirida no mercado internacional, com fornecedores concentrados no Oriente Médio, na Rússia e no Norte da África.

É nesse ponto que o agravamento das tensões envolvendo o Irã se torna um fator de preocupação. O país é um importante produtor e exportador de fertilizantes nitrogenados e ocupa posição estratégica em rotas marítimas fundamentais para o comércio global. Eventuais restrições logísticas ou tensões militares na região tendem a elevar custos de transporte, seguros marítimos e preços internacionais dos insumos agrícolas.

O setor também depende fortemente de combustíveis fósseis, em especial do diesel. Tratores, colheitadeiras, pulverizadores e caminhões utilizados no escoamento da produção operam predominantemente com esse combustível, tornando a atividade agrícola sensível às oscilações no preço do petróleo.

O Irã é um dos maiores produtores de petróleo do mundo e possui papel estratégico nas rotas de exportação da região. Em cenários de tensão militar ou ameaça ao fluxo de petróleo no Golfo Pérsico, os preços internacionais tendem a subir, pressionando o custo do diesel em diversos países.

Para a agricultura brasileira, esse impacto é imediato. O diesel é essencial em praticamente todas as etapas da produção: preparo do solo, plantio, pulverização, colheita e transporte da safra. A elevação simultânea dos preços de combustíveis e fertilizantes pode pressionar significativamente os custos de produção e reduzir as margens dos produtores rurais.

Minas Gerais possui uma das agropecuárias mais diversificadas do país e para sustentar esse sistema produtivo, o consumo de fertilizantes é elevado. Em 2024, Minas Gerais recebeu mais de 4,5 milhões de toneladas desses insumos, figurando entre os maiores mercados consumidores do Brasil.

Diante desse cenário, torna-se cada vez mais evidente a importância de ampliar a produção nacional de fertilizantes, diversificar fornecedores e estimular maior eficiência no uso desses produtos.

Enquanto essas transformações não se consolidam, o prolongamento da instabilidade no Oriente Médio permanece como um fator de risco relevante. Em um sistema agrícola altamente integrado ao comércio global, conflitos regionais podem repercutir diretamente sobre os custos de produção, a competitividade do agronegócio e, em última instância, o preço dos alimentos.

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