Tudo na vida é interpretação. As nossas emoções estão diretamente relacionadas à interpretação que damos aos fatos. Assim, não reagimos ao que nos acontece, mas à história que nos contamos sobre o que nos acontece.
No meu caso, o fato aconteceu às 15h38 de uma segunda-feira.
Eu sei o horário porque olhei o celular várias vezes — uma delas quando a mensagem chegou e outras tantas quando percebi que seriam só aquelas palavras.
“Precisamos conversar”
Duas palavras. Nenhum ponto final. Um espaço em branco depois delas que parecia maior do que a tela inteira.
O fato era simples: uma mensagem.
Mas, em menos de dez segundos, eu já tinha construído uma biografia inteira para aquelas duas palavras: a conversa seria pra falar do novo projeto; o roteiro que enviei não devia estar bom; frase sem reticências; deve estar impaciente.
Nada disso estava escrito na mensagem.
Ainda assim, meu corpo reagiu como se estivesse. O coração acelerou. As mãos ficaram frias. A mente começou a procurar na memória o conteúdo do texto que enviei pra identificar onde poderia estar a falha. E o silêncio pós-mensagem mais parecia um castigo, como aqueles da infância de olhar pra parede por horas.
Depois de muito matutar, dei-me conta de algo desconfortável: não estava reagindo à mensagem. Estava reagindo à narrativa que inventei sobre ela.
Poderia ser apenas um desabafo, um convite ou um pedido de ajuda. Mas minha mente escolheu justamente a versão mais dramática da história.
Duas pessoas podem vivenciar exatamente o mesmo fato e atribuir significados completamente diferentes, dependendo de suas memórias, vivências e crenças. Interpretamos as situações com as lentes que possuímos. E essas lentes podem permanecer embaçadas ou serem limpas com o processo de amadurecimento.
Mas o amadurecimento não surge com o tempo. O amadurecimento é uma escolha. Podemos escolher ser vítimas das circunstâncias ou protagonistas da nossa história, interpretando os fatos como degraus para a nossa evolução.
Escolhi amadurecer e me desenvolver através do autoconhecimento. Aprendi que existe um intervalo precioso entre o que acontece e o que eu sinto. Um espaço quase invisível, mas poderoso, onde mora a interpretação.
De acordo com o sábio psiquiatra austríaco Viktor Frankl: “Entre o estímulo e a resposta, existe um espaço. Nesse espaço está o nosso poder de escolher a nossa resposta. Na nossa resposta reside o nosso crescimento e a nossa liberdade.”
E é nesse espaço que devemos nos perguntar: “Qual outra versão é possível para esse fato?” “Como posso recontar essa história?” “Será mesmo que é o que eu estou pensando?”
O coração ainda dispara às vezes. A imaginação por vezes corre na frente. Mas, hoje, sei que o narrador interno não é a realidade, é apenas uma possibilidade.
Às 9h35 de terça-feira veio a segunda mensagem:
“Sobre o projeto. Acho que podemos melhorá-lo juntos.”
Nenhuma tragédia. Nenhum abandono. Nenhuma dúvida sobre meu caráter. Nada que pudesse me levar à morte. Só trabalho. Ri alto, não pela ansiedade, que foi real, mas pela convicção com que acreditei na minha própria ficção.
Não se trata de parar de interpretar. Isso é impossível. Mas aprender a desconfiar, com gentileza, da primeira história que surge na mente. A mente mente. E o fato é apenas um ponto. Já a interpretação é a pintura que pincelamos ao redor dele, com tinta cinza ou com tinhas coloridas. É uma escolha.
No fim da história, nosso sofrimento não é pelo que acontece, mas pela versão que nos contamos sobre o que aconteceu. A parte boa? Essa versão pode ser recontada. E a partir da nova versão surgirá uma nova emoção, muito mais condizente com a sua essência, com aquilo que realmente faz sentido para o seu coração.