A história que eu me contei

Homem utiliza telefone celular
Olhei o celular várias vezes — uma delas quando a mensagem chegou e outras tantas quando percebi que seriam só aquelas palavras: “Precisamos conversar”. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Tudo na vida é interpretação. As nossas emoções estão diretamente relacionadas à interpretação que damos aos fatos. Assim, não reagimos ao que nos acontece, mas à história que nos contamos sobre o que nos acontece.

No meu caso, o fato aconteceu às 15h38 de uma segunda-feira.

Eu sei o horário porque olhei o celular várias vezes — uma delas quando a mensagem chegou e outras tantas quando percebi que seriam só aquelas palavras.

“Precisamos conversar”

Duas palavras. Nenhum ponto final. Um espaço em branco depois delas que parecia maior do que a tela inteira.

O fato era simples: uma mensagem.

Mas, em menos de dez segundos, eu já tinha construído uma biografia inteira para aquelas duas palavras: a conversa seria pra falar do novo projeto; o roteiro que enviei não devia estar bom; frase sem reticências; deve estar impaciente.

Nada disso estava escrito na mensagem.

Ainda assim, meu corpo reagiu como se estivesse. O coração acelerou. As mãos ficaram frias. A mente começou a procurar na memória o conteúdo do texto que enviei pra identificar onde poderia estar a falha. E o silêncio pós-mensagem mais parecia um castigo, como aqueles da infância de olhar pra parede por horas.

Depois de muito matutar, dei-me conta de algo desconfortável: não estava reagindo à mensagem. Estava reagindo à narrativa que inventei sobre ela.

Poderia ser apenas um desabafo, um convite ou um pedido de ajuda. Mas minha mente escolheu justamente a versão mais dramática da história.

Duas pessoas podem vivenciar exatamente o mesmo fato e atribuir significados completamente diferentes, dependendo de suas memórias, vivências e crenças. Interpretamos as situações com as lentes que possuímos. E essas lentes podem permanecer embaçadas ou serem limpas com o processo de amadurecimento.

Mas o amadurecimento não surge com o tempo. O amadurecimento é uma escolha. Podemos escolher ser vítimas das circunstâncias ou protagonistas da nossa história, interpretando os fatos como degraus para a nossa evolução.

Escolhi amadurecer e me desenvolver através do autoconhecimento. Aprendi que existe um intervalo precioso entre o que acontece e o que eu sinto. Um espaço quase invisível, mas poderoso, onde mora a interpretação.

De acordo com o sábio psiquiatra austríaco Viktor Frankl: “Entre o estímulo e a resposta, existe um espaço. Nesse espaço está o nosso poder de escolher a nossa resposta. Na nossa resposta reside o nosso crescimento e a nossa liberdade.”

E é nesse espaço que devemos nos perguntar: “Qual outra versão é possível para esse fato?” “Como posso recontar essa história?” “Será mesmo que é o que eu estou pensando?”

O coração ainda dispara às vezes. A imaginação por vezes corre na frente. Mas, hoje, sei que o narrador interno não é a realidade, é apenas uma possibilidade.

Às 9h35 de terça-feira veio a segunda mensagem:

“Sobre o projeto. Acho que podemos melhorá-lo juntos.”

Nenhuma tragédia. Nenhum abandono. Nenhuma dúvida sobre meu caráter. Nada que pudesse me levar à morte. Só trabalho. Ri alto, não pela ansiedade, que foi real, mas pela convicção com que acreditei na minha própria ficção.

Não se trata de parar de interpretar. Isso é impossível. Mas aprender a desconfiar, com gentileza, da primeira história que surge na mente. A mente mente. E o fato é apenas um ponto. Já a interpretação é a pintura que pincelamos ao redor dele, com tinta cinza ou com tinhas coloridas. É uma escolha.

No fim da história, nosso sofrimento não é pelo que acontece, mas pela versão que nos contamos sobre o que aconteceu. A parte boa? Essa versão pode ser recontada. E a partir da nova versão surgirá uma nova emoção, muito mais condizente com a sua essência, com aquilo que realmente faz sentido para o seu coração.

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