Perante a Assembleia Geral da ONU, Lula e Trump entregaram menos “contexto” e mais estratégia e é justamente pelo ângulo da comunicação política que se compreende o que cada um buscou produzir no mundo real: efeitos. Ambos falaram para múltiplas plateias ao mesmo tempo (doméstica, aliada e adversária), e seus discursos foram desenhados para criar enquadramentos que ajudem a moldar as próximas barganhas. A diferença central está no “como”: Lula operou pelo acúmulo de legitimidade; Trump, pela nitidez do conflito. No palco multilateral por excelência, cada técnica tem custos e benefícios e, nesta semana, ficaram particularmente visíveis.
Comecemos pelo desenho de Lula. Do ponto de vista técnico, ele recorreu a três recursos clássicos: (1) encadeamento lógico progressivo (problema sistêmico → princípio normativo → convite à cooperação), (2) ampliação de círculo (falar para todos sem nomear inimigos diretos) e (3) validação por autoridade institucional (o Brasil como fiador do multilateralismo). Isso cria um enquadramento de “ponte” no qual a defesa da soberania, palavra-chave do discurso, não se opõe à cooperação, mas a pressupõe. Ao reiterar que ataques às instituições brasileiras e medidas unilaterais contra a economia do país são inaceitáveis, Lula converteu um tema doméstico sensível (a independência do Judiciário e os processos contra Jair Bolsonaro) em cláusula de respeito externo: nossas instituições não estão em julgamento fora do devido processo legal brasileiro.
Trump, por sua vez, apostou numa arquitetura retórica de antagonismo produtivo. O texto foi construído para estabelecer fronteiras claras (“soberania” como princípio organizador), criar vilões reconhecíveis (ONU “ineficiente”, migrantes, ambientalismo que “onera” a economia) e oferecer soluções simples de alto impacto simbólico (tarifas, energia fóssil, contenção migratória). Em termos de técnica, trata-se de mensagem de contraste duro, com frases curtas, hipérboles calculadas e cadência de slogans, perfeita para recortes televisivos e virais. O passo comunicacional mais relevante, porém, foi o uso de uma “alavanca” negociadora explícita: a taxação de produtos brasileiros. Ao anunciar e defender tarifas elevadas contra o Brasil, conectando-as a narrativas de “censura”, “perseguição” e “judicialização” de opositores no país — Trump transformou política comercial em instrumento de disputa de valores e, simultaneamente, de pressão bilateral. Essa fusão é deliberada: torna a pauta econômica refém de um condicionante político e, com isso, maximiza poder de barganha junto à sua base doméstica e a parceiros que queiram destravar impasses.
Há, ainda, uma camada de “engenharia de audiência”. Lula discursou como quem quer acumular utilidade: falar com todos para, amanhã, mediar algo com alguém. Isso exige disciplina verbal, evitar adjetivos que queimem pontes e aposta em métricas de reputação (ser percebido como ator confiável). O risco é parecer genérico; o ganho é preservar tráfego para conversas privadas de alto valor. Trump falou como quem quer mobilizar base e intimidar oponente: a eficácia, aqui, deriva da força do recorte, não do consenso. O risco é reduzir a porosidade para coalizões; o ganho é a clareza de posição, que facilita a negociação pelo método da pressão. O episódio das queixas públicas sobre “sabotagem” técnica em sua passagem pela ONU, teleprompter, som, escada rolante; funciona como reforço de personagem e criador de factóides: o líder em “ambiente hostil” que desafia a instituição. É dramaturgia a serviço da mensagem-mãe (a ONU seria contra ele), criando uma moldura emocional favorável à sua narrativa de confronto.
No conteúdo sensível que o Brasil mais observa, tarifas e independência do Judiciário, as estratégias também são opostas. Trump atrela a taxação de produtos brasileiros a um pacote de acusações sobre “censura” e “perseguição” política, sinalizando que considerará “custos” para parceiros que, no seu entendimento, violem liberdades; é uma técnica de “linkagem” temática (ligar comércio a direitos), potente para comunicação doméstica e útil para elevar a ancoragem de futuras negociações. Lula, no contraponto, usa a gramática “onusiana” para exigir separação entre comércio e ingerência institucional: regras multilaterais valem para todos, e procedimentos penais contra um ex-presidente devem obedecer às instâncias nacionais, sem “veto” externo, uma defesa do juiz natural e da autonomia do sistema de justiça. Em linguagem simples: tarifas como retaliação política são, para o Brasil, indevidas; e a discussão sobre Bolsonaro pertence aos tribunais brasileiros, sob controle jurisdicional próprio. Essa resposta preserva o princípio e, comunicacionalmente, evita a armadilha de debater mérito judicial em foro diplomático.
À luz das técnicas de persuasão, vale destrinchar ethos, pathos e logos de cada peça. O ethos de Lula advém da tradição diplomática brasileira, da posição de “primeiro orador” e do apelo à legalidade internacional, é um ethos que busca emprestar credibilidade às próprias instituições nacionais ao vinculá-las a padrões multilaterais. O pathos é empático, assentado em paz, fome, dignidade e, nesta semana, no orgulho institucional de um Judiciário que julgou um ex-presidente sem colapsar o sistema; o logos se organiza por causalidades sistêmicas (“sem instituições independentes, não há democracia; sem democracia, não há confiança; sem confiança, não há comércio estável”).
Já Trump constrói ethos de antiestablishment (“eu digo o que muitos pensam”), pathos de indignação (contra ONU, imigração, “globalismo”, “censura”) e logos binário (ou soberania, ou caos; ou tarifas, ou exploração). Do ponto de vista de eficácia, ambos funcionam para seus fins: Lula pavimenta pontes; Trump bate estacas e espera que venham negociar.
Por isso, o elemento mais pragmático desta semana não está apenas no que se disse, mas no que pode se dizer a portas fechadas. O encontro pessoal entre os presidentes, ainda que breve, serve para organizar dissensos: tarifário, climático, migratório, judiciário. Comunicação estratégica, aqui, tem roteiro próprio: reduzir ruído público (clareza sobre linhas vermelhas), abrir canal técnico (tarefas para equipes) e criar horizonte de reciprocidades (o que cada lado pode entregar sem violar princípios).
Em síntese, o duelo comunicacional na ONU não produziu vencedores de plateia; produziu instrumentos. A partir daqui, tudo dependerá menos de frases lapidares e mais de design de conversas. A boa notícia é que a comunicação de ambos deixa portas entreabertas; há caminho para destravar pautas concretas e um entendimento operacional de que nenhum país renuncia à própria ordem constitucional para satisfazer a retórica do outro. E é justamente aí que comunicação e diplomacia se encontram: construir, com palavras bem escolhidas, as condições mínimas para acordos que sobrevivam ao próximo discurso.