Abuso infantil e a falência moral

Criança segura folheto sobre o maio laranja
Maio laranja nos convida a refletir sobre a importância de proteger crianças e adolescentes. Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Era para ser mais uma manhã comum. O cheiro de café já se espalhava pela cozinha quando a Tininha ajudou minha filha Maria a sentar-se à mesa. A Mariazinha tem 12 anos e vive com a Síndrome Cornélia de Lange, uma doença rara, exigente, que nos ensina, todos os dias, o valor da presença. Com mais três crianças em casa e duas a caminho, nossas manhãs são agitadas, mas cheias de vida.

Quando peguei o celular, uma notícia que me embrulhou o estômago: mais uma criança vítima de abuso, desta vez em um lugar que deveria ser sagrado, com proteção absoluta: a sua casa. Fechei a tela, respirei fundo, olhei para meus filhos e senti o nó subir até a garganta, como se as palavras não coubessem dentro de mim. Não era só o engasgo de um pai. Era o de um cidadão, um cristão e um homem público diante do retrato de uma falência moral coletiva. E isso não pode ser tratado com indiferença.

O Maio Laranja nos convoca a essa reflexão urgente. Desde 2000, quando o Brasil instituiu o 18 de maio como Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, em memória da menina Araceli, uma garota de 8 anos que foi encontrada morta com sinais de ter sido drogada, estuprada e asfixiada, tendo o seu corpo desfigurado com ácido, temos a oportunidade de renovar o compromisso coletivo. Mas não basta um mês de campanha se os outro onze forem de silêncio.

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (Relatório 2023), mais de 83 mil casos de estupro foram registrados no país naquele ano. Desses, 61,6% das vítimas tinham até 13 anos, e 88% eram meninas. Em 86% dos casos, o agressor era alguém próximo. O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania estima que, para cada caso notificado, outros cinco não chegam às autoridades. Entre 2017 e 2022, o Brasil registrou mais de 320 mil denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes. Em 2022, o Disque 100 recebeu 18.162 denúncias de abuso e exploração infantojuvenil. A Unicef aponta a violência sexual como uma das formas mais prevalentes de violência contra crianças no país, principalmente contra meninas em situação de vulnerabilidade.

Esses dados chocam. Eles exigem mais do que indignação: exigem conversão moral. Atrás de cada número há um nome. E poderia ser o de uma filha minha. Ou do seu filho. Sou pai, e acima de tudo, alguém que convive diariamente com a fragilidade e com a beleza da infância. Me recuso a aceitar que crianças sejam feridas em silêncio.

O que enfrentamos é, acima de tudo, uma crise de consciência moral. Não apenas no campo das ideias, mas na prática: falta o incômodo, a reação natural de quem ainda reconhece com clareza o certo e o errado. Falta o impulso ético que move uma comunidade a proteger os seus, principalmente os seus mais frágeis. Falta o senso básico de dever.

A infância é sagrada, a inocência deve ser protegida, o cuidado e a justiça não bastam se forem desconectados de vínculos reais e duradouros com o bem e a família. Isso não pode ser negociado nunca.

No entanto, o que temos visto é o oposto disso. Vemos escolas que se calam. Famílias que destroem. Vizinhos que fingem não ouvir. Adultos que dizem “não é comigo”.

O silêncio diante da criança abusada não pode ser tema polarizante. É errado, e ponto.

O inimigo está entre nós: ele se chama apatia, normalização, omissão. E ele se esconde bem, atrás de cargos, de discursos, de silêncios.

Aprendi que a força de uma política pública está na sua capacidade de alcançar quem mais precisa. Mas nenhuma política será suficiente se a sociedade não reagir. Muitos que se dizem defensores da família se calam diante da violência doméstica. Há vizinhos que ouvem gritos e seguem a vida. Pais que preferem duvidar da filha a confrontar um “amigo”. Isso é falência moral: quando o grito de uma criança é tratado como ruído, e não como um pedido de socorro.

Esse pedido deve ser ouvido. Não basta compaixão, é preciso responsabilidade.

Comece pela escuta. Ouça quando uma criança fala. Pergunte. Observe. Ensine sobre limites. Crie vínculos, ofereça segurança. Criança protegida é criança ouvida, e criança ouvida é mais difícil de ser silenciada. Se alguma coisa chamou sua atenção, não hesite: denuncie. Disque 100. Procure o Conselho Tutelar. Compartilhe informações confiáveis. Esteja atento aos sinais. Não subestime o risco.

Cobre do vereador, do deputado, do professor. Exija políticas públicas. Apoie organizações sérias. Ensine respeito ao outro. Somos chamados à coragem.

Eu escolhi lutar por crianças como a minha filha. Já vi o sistema despreparado para lidar com quem sofre. Já vi o preconceito disfarçado de crítica. A indiferença mascarada de burocracia. E aprendi: proteger a infância exige, antes de tudo, uma conversão moral da sociedade.

Não quero um Brasil onde meus filhos cresçam com medo. Quero um país onde toda criança seja prioridade. Onde a família seja sua fortaleza de proteção. Onde nenhum crime contra elas fique impune. Onde o silêncio seja rompido pela verdade. Onde justiça seja feita. É difícil. Mas é possível. É necessário.

Em Minas Gerais, estamos trabalhando para garantir cada vez mais segurança aos nossos filhos. Por meio da SEDESE, lançamos uma série de ações para marcar o mês. A campanha envolve, por exemplo, mobilização e capacitação para entidades que trabalham com o público infantil, além de blitz educativa com equipes especializadas abordando comerciantes, consumidores e trabalhadores, com orientações práticas para casos de abuso. Mas sabemos que a mudança real acontece quando cada cidadão se torna um guardião da infância. Que este Maio Laranja seja o início de um despertar permanente na proteção de nossas crianças.

Precisamos resgatar, cultivar e ensinar uma das virtudes mais esquecidas: a fortaleza. Como ensinou São Tomás de Aquino, fortaleza é ser firme no propósito do bem, mesmo diante do medo ou da dor. Não se trata de brutalidade, mas de firmeza de propósito constante. É a fortaleza que mantém o pai em pé protegendo sua família quando tudo desaba, o professor que defende um aluno, o agente público que age e desafia o imoral, a criança que encontra voz mesmo cercada de medo. Precisamos de fortaleza para vencer o mal.

E assim lutar para que nunca mais, nunca mais, uma criança precise ser mártir do silêncio.

Leia também:

Moraes nega transferência de presídio pedida por condenada pelo 8/1 detida no Aeroporto de Confins

Juíza manda ação por peculato dos ‘fura-filas’ da vacina para o TJMG

Juiz manda secretários de prefeitura mineira devolverem 13º salário considerado ilegal

Veja os Stories em @OFatorOficial. Acesse