Ano novo sempre chega com uma pergunta escondida em meio a fogos e mensagens prontas: que país a gente quer ser quando a vida voltar ao normal? É fácil desejar prosperidade, saúde, paz. Difícil é sustentar, no dia a dia, as atitudes que tornam essas palavras mais do que decoração. E talvez seja exatamente aí que mora a nossa urgência coletiva. A gente precisa reaprender a ser humano em público, especialmente quando a diferença aparece. Precisamos reaprender a discordar sem desumanizar, a discutir sem destruir, a cobrar sem odiar. Porque se a política é o espelho de uma sociedade, o que a gente tem visto no espelho é um país que confunde cidadania com torcida, e torcer, quando vira identidade absoluta, costuma pedir um inimigo.
Nos últimos anos, a política foi sendo tratada como campeonato. Em campeonato, não existe nuance, existe vitória ou derrota. Em campeonato, a verdade é a que ajuda o meu lado. Em campeonato, o objetivo não é entender, é vencer. Quando a gente transporta essa lógica para a vida pública, o cidadão vira torcedor, o adversário vira inimigo, e o debate vira gritaria sem rumo. Aí a pessoa deixa de perguntar o que funciona e passa a perguntar quem eu quero ver ganhar. Deixa de perguntar o que melhora a escola, o hospital, o transporte, a segurança, e passa a defender uma cor, um nome, um grupo, como se isso bastasse. E não basta. Não é assim que uma sociedade deveria resolver seus problemas, e é por isso que, em muitos momentos, parece que estamos andando para trás.
O efeito dessa cultura de torcida é visível no jeito como as pessoas se tratam. A empatia diminui e o respeito some. A divergência vira provocação, e a provocação vira permissão para atacar. No dia a dia, isso aparece em comentários cruéis, em ironias que humilham, em rótulos rápidos, em frases que encerram qualquer conversa. “Se você pensa assim, você é isso.” E pronto. A pessoa é reduzida a um carimbo. A humanidade dela é apagada. E quando a gente apaga a humanidade do outro, a sociedade inteira perde um pedaço de si, porque o que sustenta a convivência não é a unanimidade, é o reconhecimento de que ninguém tem o direito de anular o outro.
Só que existe um detalhe que a lógica da torcida adora esconder, a vida real não é uma arquibancada. A vida real cobra resultado. O buraco na rua não fecha sozinho. O remédio não aparece no posto de saúde por causa de meme. A fila não diminui porque a gente gritou mais alto. A economia não melhora porque a gente “lacrou” em uma discussão.
A política, no que ela tem de mais importante, é sobre gestão de vida concreta, e vida concreta exige seriedade, prioridades, metas, entrega e principalmente, responsabilidade. Quando a gente transforma política em torcida, a cobrança por resultado vira secundária. A gente perdoa incompetência se ela vier do “nosso lado”. A gente relativiza abuso se ele vier de quem a gente idolatra. A gente aceita desculpas eternas. E aí o país vai se acostumando com pouco, como se fosse normal que o Estado não funcione, e como se fosse inevitável que as coisas não andem.
É aqui que entra a palavra que deveria orientar um novo ano, cidadania. Cidadania é o oposto da idolatria. Idolatria pede fidelidade. Cidadania pede responsabilidade. Idolatria procura salvadores. Cidadania procura instituições que funcionem e gente competente para operá-las. Idolatria quer vencer o outro. Cidadania quer resolver o problema. E, acima de tudo, cidadania reconhece que o governante, qualquer governante, é funcionário do público, não é dono do país, não é chefe de torcida, não é tutor moral de ninguém. A pergunta central do cidadão não pode ser “de que lado você está”, tem de ser “o que você vai entregar”, com qual prazo, com qual custo, com qual impacto, com qual transparência.
Só que cidadania, para existir, precisa de um componente que a gente tem deixado escapar: humanidade. Não existe cidadania sem empatia, porque a democracia, no fundo, é um acordo de convivência entre diferentes. A ideia de que eu vou defender seus direitos mesmo quando discordo de você, porque eu quero que os meus direitos sejam defendidos quando discordarem de mim. Quando esse pacto se quebra, o espaço público vira guerra de todos contra todos. E é nesse ambiente que as pessoas se sentem mais à vontade para agredir. Porque, se o outro é inimigo, se o outro é uma ameaça, se o outro é uma caricatura, então tudo parece permitido. A violência começa na linguagem e pode terminar no corpo, e o caminho entre uma coisa e outra costuma ser curto quando a sociedade normaliza o desprezo.
Por isso, um chamado para o ano novo não pode ser apenas “vamos ser mais educados”. Tem de ser mais profundo. Tem de ser “vamos ser mais humanos”. Humanidade é lembrar que por trás de cada opinião existe uma história, uma família, uma dor, um medo, uma esperança. Humanidade é admitir que a gente pode estar errado, e que a verdade não é propriedade privada de nenhum grupo. Humanidade é perceber que existe gente honesta em quase todos os lados, e que a discordância, muitas vezes, nasce de experiências diferentes, e não de maldade.
Isso não significa aceitar tudo, nem fingir que não existe extremismo, mentira, abuso, corrupção, violência. Significa enfrentar essas coisas com firmeza, mas sem perder o que nos torna civilizados. A gente pode combater desinformação sem humilhar pessoas. Pode discordar com dureza sem desejar o pior ao outro. Pode cobrar autoridade sem transformar a política em linchamento. Pode se indignar sem se tornar cruel. E, principalmente, pode aprender a fazer uma pergunta que muda o rumo de qualquer conversa, “o que te fez pensar assim?” Essa pergunta não é concessão, é inteligência social. Ela abre caminho para compreensão, e compreensão não é concordância, é apenas o primeiro passo para uma sociedade que não precisa se odiar para existir.
Também é hora de encarar uma responsabilidade desconfortável: a política se alimenta do que a sociedade aplaude. Se a gente premia o agressivo com atenção, se a gente compartilha o insulto como se fosse coragem, se a gente transforma a humilhação do outro em entretenimento, a gente está treinando o ambiente para piorar. O ano novo pode ser um ponto de virada se a gente começar a recusar certos comportamentos, até quando vêm do nosso próprio lado. Recusar a mentira conveniente. Recusar o ataque pessoal. Recusar a desumanização. Recusar a lógica do “vale tudo”. Isso é maturidade democrática, e maturidade democrática é um tipo de patriotismo silencioso, aquele que não precisa gritar para ser real.
Ano novo, novas esperanças, no fim das contas, não é sobre um milagre político. É sobre um novo pacto de comportamento. Um pacto em que a gente se recusa a odiar por esporte. Um pacto em que a gente cobra resultados sem idolatria. Um pacto em que a gente entende que democracia não é viver sem conflito, é viver com conflito sem se destruir. Um pacto em que a gente não entrega a própria humanidade em troca da sensação de estar certo.
Se a gente conseguir começar por aí, o futuro da política muda, porque a política responde ao tipo de sociedade que a vigia, a pressiona, e a orienta. Uma sociedade que escolhe empatia reduz a violência. Uma sociedade que escolhe cidadania aumenta a qualidade da liderança. Uma sociedade que escolhe resultado melhora a vida real. E uma sociedade que escolhe ser humana, mesmo na discordância, recupera algo que vale mais do que qualquer vitória de torcida, a capacidade de construir um amanhã comum.