Eu olho para essa história do Banco Master e entendo por que tantos poderosos dormem tão bem. No Brasil, o crime de colarinho é quase um hobby aristocrático. Só falta vinho e playlist de curadoria. A cena do jatinho pronto para decolagem é tão simbólica que deveria virar um curta-metragem. Malas caras, fuga improvisada, e a velha certeza: aqui tudo acaba em pizza. E em dividendos. Mas não. Desta vez a fotografia do flagrante viralizou. E daí? Uma fotografia não desagrava a Constituição. Não reergue instituições. Não devolve o dinheiro. A fotografia só alimenta a fantasia de ação. É a obra-prima da nossa complacência.
A fraude estava lá, exposta como se estivesse numa vitrine de shopping. CDBs rendendo como um milagre, gente correndo atrás de promessas fáceis, aquele tipo de esquema manjado que até o cidadão mais desatento reconheceria. E quando a patuscada desmorona, entra em cena o velho Estado brasileiro. Generoso, perdulário e sempre pronto a salvar os mesmos. Banco público comprando ações de banco privado sob investigação, diga-se, é outra pajelança da esperteza nacional. Não é gestão arrojada, é salvamento criminoso travestido de investimento.
O acintoso não é o banqueiro tentando fugir em seu jato exclusivíssimo, anote-se. O acintoso é quem corre para protegê-lo. Movimentos cirúrgicos para mudar regras, enterrar CPIs, esvaziar controles, enfraquecer investigações e remendar leis ao gosto do freguês. Os figurões do Legislativo, os grandões do Judiciário e os barnabés promovidos e deslumbrados do Executivo. Essa gente transformou a Constituição em um móvel. Arrasta, empurra, ajeita. Até caber no projeto de poder. Tudo sempre para manter a tão perseguida estabilidade institucional, que nunca dá o ar da graça, mas justifica toda à articulação para proteção do sistema bancário nacional.
A CPMI do INSS virou teatro de opereta. Velhos conhecidos do submundo republicano desfilam como medalhistas olímpicos da impunidade, e o público, cansado, nem reage. Quer prova maior de que normalizamos o anormal? O Brasil viu um esquema bilionário se desenrolar diante de suas instituições e a reação foi pífia. E continua sendo pífia. As operações se sucedem, bilhões são mencionados como se fossem troco de padaria, e seguimos discutindo superficialidades e priorizando o frugal, como se a desintegração dos cofres públicos fosse um mero e habitual detalhe contábil.
Escrevo aqui sob a mesma lógica com que escrevi semanas atrás em O Retorno Triunfal do que Já Combatemos, publicado aqui no O Fator. E volto a dizer: o inimigo não é novo, é apenas reciclado. São bilhões em emendas secretas transformadas em Pix para municípios num ano pré-eleitoral, projetos para mudanças legislativas indecentes, produzidos entre brindes de champagne, e orações com as mãos dadas entre os mais religiosos. Ou as duas coisas juntas. Decisões judiciais moldadas pela conveniência, nunca pelo rigor da norma. É o Estado como jogo de cena. O que os franceses chamam de mise-en-scène. É a legalidade como sugestão. É a reunião de compadres na intimidade da paróquia ao mesmo tempo.
O que mais me consome é admitir que a culpa não é apenas deles. É nossa. Alimentamos essa engrenagem há anos com bastante tolerância. Fingimos que não vemos quando a coisa se repete, fingimos que não vemos quando a coisa não nos afeta diretamente, fingimos que não entendemos o tamanho da desidratação da República.
Não me venham com tecnicalidades. Aqui o problema é político, cultural e moral. Se órgãos de controle não tiverem autonomia de verdade, nada muda. Se operações entre bancos públicos e privados não forem transparentes, auditadas externamente quantas vezes forem necessárias, nada mudará. Se o eleitor não compreender que a tolerância à impunidade destrói orçamentos, saúde, segurança e futuro, nada muda. A conta chega sempre, mas para os mesmos de sempre: os que são pilhados e nunca reclamam.
O caso do Banco Master pode ter rendido manchete forte e impactante, mas não basta. Ou desmontamos as redes, quebramos as engrenagens, responsabilizamos quem sustentou e blindou o esquema, ou estaremos apenas bailando no convés enquanto o navio segue afundando. E não adianta rezar. Não adianta esperar. Não adianta romantizar. O sistema é eficiente porque é protegido. Ele só cai quando alguém decide que ele vai cair.
Eu escrevo sobre esses temas porque ainda acredito que a palavra tem o poder de constranger um pouquinho, ao menos, o que já não se constrange por si só. A sociedade precisa parar de agir como cúmplice de sua própria ruína. A República está pedindo socorro há muitos anos. A gente é que se acostumou com a frequência do pedido.