Bets no Brasil: lucro bilionário, risco social e o futuro do esporte em jogo

Cidadão faz aposta por telefone
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

As bets tomaram conta do Brasil. Estampam os uniformes dos maiores clubes de futebol, dominam os intervalos comerciais na televisão e são assunto recorrente em conversas, inclusive entre os mais jovens, nas escolas e universidades. O que antes era um nicho restrito, hoje se apresenta como uma onda avassaladora, onipresente em nosso cotidiano.

Pesquisas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) mostram que 10,9 milhões de brasileiros fazem uso perigoso das apostas. Desses, 1,4 milhão já desenvolveram transtornos ligados ao vício em jogos. O crescimento das apostas online é assustador: são 9,3 milhões de usuários, o que já coloca as bets acima do jogo do bicho em popularidade. E tudo isso acontece com uma regulação ainda frágil e desatualizada.

Diante desses dados, não é mais possível tratar as apostas apenas como entretenimento ou paixão pelo esporte. O fenômeno tornou-se um problema social complexo, que envolve a vulnerabilidade da juventude, a sedução do lucro fácil, riscos à integridade esportiva, o endividamento familiar e graves questões de saúde pública, como o vício em jogo. Por isso, proponho desvendar as camadas por trás da fachada colorida e da promessa de dinheiro rápido, expondo os riscos de um jogo que, sem controle e conscientização, pode se transformar em uma armadilha para milhões de brasileiros. Como parlamentar, acredito que o Brasil precisa de um posicionamento firme e responsável diante desse cenário.

Os três eixos do problema

a) Sedução e vício: A porta de entrada enganosa

A explosão das apostas esportivas no Brasil não é espontânea. Trata-se do resultado de uma estratégia de marketing altamente agressiva e direcionada, que mira especialmente o público jovem. Enquanto a publicidade das bets ocupa todos os espaços – das transmissões esportivas às redes sociais frequentadas por adolescentes – a informação sobre os riscos reais do jogo (endividamento, transtornos mentais e desenvolvimento de vício) quase não existe.

A junção entre marketing massivo, fácil acesso (muitas vezes sem verificação de idade) e ausência de educação preventiva cria um terreno fértil para a compulsão. A linha entre diversão e dependência é facilmente cruzada quando o jogo deixa de ser passatempo e se torna uma fonte de renda ilusória ou uma fuga emocional. A promessa de ganhos rápidos dá lugar a perdas recorrentes, levando à tentativa de recuperar o dinheiro perdido com novas apostas, cada vez mais arriscadas. O ciclo é silencioso, mas devastador: dívidas, ansiedade, depressão e rupturas familiares – tudo isso sob a retórica do “jogo responsável” que as empresas alegam promover.

b) Esporte em risco: manipulação e desvalorização

Como torcedor e defensor do esporte como ferramenta de inclusão e cidadania, preocupa-me ver o futebol brasileiro ameaçado por esquemas de manipulação de resultados.

A CPI da Manipulação de Jogos e Apostas Esportivas no Senado revelou o aliciamento de jogadores, especialmente jovens em início de carreira, por redes criminosas interessadas em influenciar escanteios, cartões ou pênaltis. Esses escândalos arranham a reputação de atletas, clubes e campeonatos. A confiança do torcedor se fragiliza, e o esporte, que deveria representar superação e ética, corre o risco de virar um mero pretexto para especulação financeira.

c) Lucro privado, impacto público: A conta que não fecha

Vivemos um cenário de desequilíbrio. Empresas privadas, muitas delas estrangeiras, lucram bilhões com um mercado em expansão e com pouca regulação. Enquanto isso, a sociedade brasileira paga a conta: famílias se endividam, o SUS vê crescer a demanda por tratamentos caros e complexos para vício em jogo, e a segurança pública lida com crimes derivados dessas dívidas. Jovens comprometem sua trajetória escolar e profissional pela ilusão da riqueza fácil.

Essa lógica gera um paradoxo. O lucro é privado, mas os prejuízos são públicos, espalhados entre famílias, escolas, o sistema de saúde e o Estado. Recentemente, a Câmara dos Deputados instalou a CPI das Apostas Esportivas e Influenciadores, com o objetivo de investigar a atuação de criadores de conteúdo digital que promovem casas de apostas de forma agressiva, muitas vezes sem transparência ou menção aos riscos envolvidos. A comissão busca responsabilizar também esses agentes que lucram com a difusão da cultura do jogo, muitas vezes induzindo seguidores jovens e vulneráveis a se envolverem em uma prática arriscada. Essa investigação é mais um alerta: os impactos das bets não se limitam às plataformas – envolvem todo um ecossistema de interesses econômicos que precisa ser regulado.

Sem uma análise crítica dessa equação, corremos o risco de subsidiar, com sofrimento coletivo, a fortuna de poucos.

O papel do Parlamento

Proibir completamente as apostas seria ineficaz e poderia apenas fomentar o mercado ilegal. O caminho é outro. É preciso estabelecer regras firmes, limites claros e fiscalização rigorosa. Como parlamentar, defendo uma regulação eficaz, que proteja principalmente os mais vulneráveis. É urgente:

            •           Restrições contundentes à publicidade direcionada ao público jovem;

            •           Sistemas de verificação de idade e identidade;

            •           Limites de depósito e valor por aposta;

            •           Ferramentas visíveis de alerta sobre tempo e dinheiro gastos;

            •           Mecanismos eficazes de autoexclusão;

            •           Penalidades severas para empresas que descumprirem as regras.

Além disso, o combate à manipulação de resultados precisa ser contínuo. A CPI foi um passo importante, mas a vigilância deve ser permanente. A cooperação entre órgãos de controle, polícias, Ministério Público, entidades esportivas e as próprias casas de aposta – desde que devidamente reguladas – é essencial. Só com fiscalização efetiva, educação preventiva e punição exemplar poderemos proteger o esporte e os cidadãos dos impactos mais nocivos das apostas.

A escolha é nossa

A febre das bets se espalhou, vendendo a promessa de ganhos fáceis. Mas a realidade esconde vício, manipulação e um alto custo social. Não se trata de ser contra ou a favor das apostas, mas de definir que sociedade queremos construir.

Vamos permitir que o lucro de poucos custe a integridade do nosso esporte, o bem-estar das nossas famílias e a saúde mental de uma geração? Ou vamos assumir a responsabilidade de regular, proteger e educar?

Eu escolho agir. E espero que essa seja uma decisão coletiva.

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