O filósofo espanhol não defende aristocracia de sangue, mas de espírito. O que está em jogo não é classe, é postura
Ortega y Gasset, com sua elegância trágica e olhos postos no futuro, refletia que o “homem-massa” não é apenas aquele que se multiplica como coelho e consome como gafanhoto, mas aquele que, ignorante de sua ignorância, sente-se autorizado a opinar sobre tudo — inclusive sobre o que exige silêncio, escuta e estudo. Eis aí, com um século de antecedência, o retrato falado do nosso cidadão médio: opinador em tempo integral, legislador de emojis e militante de memes.
Por esse motivo precisamos voltar a ler Gasset, abandonado pela patrulha ideológica das Faculdades de Ciências Humanas, pois era visto como um “filósofo conservador”. Classificação tão vaga como as que tentam reduzir a identidade humana ao seu modo pessoal de sentir prazer, seja com um semelhante, com uma samambaia ou com uma inteligência artificial.
O homem-massa contemporâneo não precisa de partido, teoria política ou leitura de mundo. Bastam-lhe um canal no YouTube, uma conta no X (ex-Twitter) e uma boa dose de raiva genérica. Ele é autorreferente, como diria Ortega. Não sabe de onde veio, não quer saber para onde vai — mas exige decidir quem governa, o que é ciência, e qual filósofo “é só um idiota com diploma”.
Do povo para as redes
Enquanto isso, a política, que já foi a mais nobre das artes humanas — a capacidade de construir o comum a partir da diferença — virou reality show, ringue moral e sarau de opinião pessoal. A técnica? Supérflua. A história? Um detalhe. O contraditório? Mimimi. O homem-massa não debate: lacra. Ele não dialoga: desmoraliza.
Ortega já avisava que a rebelião das massas não é a revolta dos oprimidos, mas a soberba dos incompetentes. É o triunfo do “senhorito satisfeito”, esse tipo moderno que, tendo nascido com tudo pronto, acredita que o mundo é simples porque nunca teve que pensá-lo. Ele acredita ter o direito de governar só porque é “gente”. E de fato é — só esqueceu de ser pessoa.
A democracia, nesse cenário, se desfigura: de governo do povo para governo do volume do povo. Vence quem grita mais alto, não quem pensa melhor. Decide quem compartilha mais rápido, não quem pondera mais devagar. A opinião virou identidade, e o conhecimento, arrogância.
Só sei que tudo sei
E que não se diga que essa crítica é elitista. O filósofo espanhol não defende aristocracia de sangue, mas de espírito. O que está em jogo não é classe, é postura. É a capacidade de saber que não se sabe, de escutar antes de decidir, de duvidar antes de dogmatizar. A política, dizia ele, precisa de técnicos, de estudiosos, de pensadores — ou, pelo menos, de cidadãos que saibam que não se brinca com o destino de uma nação como se fosse jogo do Cartola FC.
Mas o homem-massa não quer limites. Ele exige “liberdade de opinião” como se fosse salvo-conduto para o disparate, acreditando que seu “sentimento” tem o mesmo peso que a Constituição. E quando é contrariado, acusa o sistema de manipulação. Não tolera ser vencido no argumento — só aceita ser aclamado na ignorância.
Se Ortega estivesse vivo, talvez atualizasse sua obra: A Revolução das Hashtags. E nos alertaria novamente: uma civilização não morre por ataques externos, mas pela convicção de seus próprios ignorantes. Talvez ainda haja tempo. Mas, para isso, seria preciso o que o homem-massa mais teme: autocrítica. E leitura.
