Da Lava Jato à anistia: como gerar vontade política

A lição é clara: quando o povo fala — alto e em uníssono — os sistemas reagem. E a história muda de rumo
Foto: Agência Brasil

Nos últimos anos, o Brasil presenciou momentos em que a pressão popular teve o poder de mover as engrenagens da política. Um dos exemplos mais marcantes foi a Operação Lava Jato. Inicialmente uma investigação técnica e discreta, ganhou fôlego com a cobertura da imprensa e, principalmente, com a indignação popular. Milhões foram às ruas exigindo respostas. O impacto foi tamanho que o Congresso, pressionado, aprovou leis e medidas que até então pareciam impossíveis. A Lei Anticorrupção, por exemplo, tramitou em tempo recorde após as manifestações de junho de 2013. Era a vontade política sendo gerada, quase à força, pela sociedade.

Avançando no tempo, chegamos a um episódio mais recente, mas igualmente simbólico: o caso da cabeleireira Débora Rodrigues dos Santos, presa por participar dos atos de 8 de janeiro de 2023, e nacionalmente conhecida após utilizar um batom para escrever “Perdeu, mané” na estátua “A Justiça”, em frente ao Supremo Tribunal Federal. Sua prisão preventiva foi decretada em março daquele ano e mantida por quase dois anos. O gesto — interpretado como manifestação política — gerou comoção e mobilização popular, com apoio de diversos setores da sociedade civil e personalidades públicas que apontaram a desproporcionalidade da punição.

Sob essa pressão, em março de 2025, o ministro Alexandre de Moraes autorizou que Débora cumprisse o restante da pena em prisão domiciliar, com uso de tornozeleira eletrônica e outras medidas restritivas. A Justiça respondeu. Mais uma vez, vimos a força do ciclo: comunicação + sociedade mobilizada = ação institucional.

Equação

Agora, o país presencia um novo capítulo da história política: o movimento pela anistia dos envolvidos nos atos de 8 de janeiro. Lideranças políticas, inclusive o ex-presidente Jair Bolsonaro, têm promovido atos públicos como a recente manifestação na Avenida Paulista, para pressionar o Congresso Nacional a aprovar projetos de anistia aos acusados e condenados pelos ataques às instituições democráticas.

Mas a questão permanece em aberto: essa pressão popular será suficiente para gerar vontade política no Congresso Nacional? Considerando o histórico apresentado, é provável que alguma resposta legislativa surja — ainda que enfrente resistência política. Afinal, as eleições estão logo ali, em 2026, e ignorar demandas de grupos mobilizados pode ter custo alto nas urnas.

O teórico Robert Klitgaard, referência mundial em governança e combate à corrupção, oferece uma fórmula que ajuda a entender onde reformas são mais urgentes: C = M + D – A, ou seja, corrupção = monopólio + discricionariedade – accountability. Sua teoria revela que mudanças reais ocorrem quando a sociedade quebra esse ciclo por meio da pressão e da transparência, forçando os sistemas a reagirem. Klitgaard também afirma que corrupção é uma questão de custo-benefício, não de paixão — e que as pessoas tenderão a agir conforme o sistema permita ou dificulte, e não apenas pela ética individual.

Opinião pública

A mesma lógica é apresentada na teoria do ciclo de aprimoramento das políticas públicas, conforme desenvolvido por Lincoln Farias, autor deste artigo. Essa teoria demonstra que reformas eficazes dependem da sinergia entre imprensa, engajamento social, classe política e boa gestão. Mas tudo começa com um estalo: a pressão da sociedade.

Seja para combater a corrupção, corrigir injustiças ou discutir anistias, a rua, a rede e a voz do povo seguem sendo ingredientes centrais para gerar vontade política.

A lição é clara: quando o povo fala — alto e em uníssono — os sistemas reagem. E a história muda de rumo.

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