Para o bem ou para o mal, uma condenação criminal não costuma ser o fim definitivo de carreiras políticas no Brasil — ao menos não no novo normal que vivemos há algum tempo. Como a gente sabe bem, há múltiplos precedentes de gente que, justa ou injustamente, fez da prisão um capítulo superado, muitas vezes voltando ao centro da política nacional sem muitos constrangimentos. Aliás, segundo interlocutores, foi essa a parte da trajetória de Lula que conquistou a simpatia de Donald Trump, quem também se sentira perseguido pela combinação (perigosa mas superável) entre derrota eleitoral e condenação criminal.
Em condições (novo-)normais, portanto, não havia motivos para que o imbróglio jurídico que enfrenta Jair Messias representasse necessariamente o fim do bolsonarismo: havia espaço para transformar a cela em palanque e a tornozeleira em adereço de mártir — desde que o ex-presidente não tentasse, digamos, derretê-la com ferro de solda. Com um pouco de malícia, era possível que sua detenção se encaixasse na narrativa antissistema da qual o ex-presidente sempre desfrutou com surpreendente competência.
A verdade, no entanto, é que no fim das contas o bolsonarismo é mesmo diferente, e os danos autoinfligidos pela família têm preço alto — do zero-um ao zero-quatro, todos efetivamente zeros à esquerda no âmbito da estratégia, como já evidenciado mais até do que o necessário.
A crise de soluço é, com o perdão do trocadilho, sintomática — um infortúnio de rara ironia, mas elevado simbolismo. Primeiro pela falta de grandiosidade e elegância da enfermidade, demasiadamente constrangedora para o ex-capitão, apesar de todo seu suposto histórico de atleta (e da falta de pudor da família em tentar angariar simpatia através da frequente exposição das suas tripas literais).
Segundo porque, vindo de quem veio, a doença e toda a situação desafiam a nossa empatia: é difícil afinal ter compaixão por quem, por tanto tempo, explorou a falta dela como plataforma política. Se essa história comportasse lições simbólicas, o soluço representaria o choro entalado de tanta gente que sofreu pelas mais de setecentas mil mortes da pandemia — para além de todo o resto: a corrupção, os vexames diplomáticos, a destruição ambiental.
No entanto, a falta de profundidade do bolsonarismo não acomoda muito simbolismo: o soluço provavelmente nada mais é do que a combinação rasteira entre falta de terapia e excesso de pão com leite condensado: a composição prosaica que afinal sempre foi o Jair Messias. Trata-se no fim das contas de um homem sem virtudes, que nunca foi muito além da sua própria triste e rasa caricatura.
Para a além dos infortúnios, os problemas trazidos pela lógica — sempre ela, se atrevendo a pegar no pé dos Bolsonaro — são rasteiras frequentes nas tentativas de sobrevivência do bolsonarismo.
Por exemplo, os estertores da passagem de Jair pela prisão domicilia r— aquela modalidade outrora descrita pela família como um paraíso dos bandidos — se confundiram com mensagens contraditórias. Papai é um homem forte e o líder imprescindível do movimento, berrou um dos filhos para uma aliada catarinense que ousou ter ideias próprias. É também um idoso completamente estropiado, que pode morrer soluçando o próprio vômito a qualquer momento, explicara outro deles. Porém tudo se curaria com uma candidatura presidencial, complementava o terceiro. Se cada contradição em si já fragilizava a narrativa central, a sucursal do hemisfério norte ainda precisava lidar com o esperado abandono de Trump, sempre antipático aos derrotados como o oportunista profissional que sempre foi. Já não havia sido uma semana muito fácil para o bolsonarismo.
Os contornos práticos da prisão são, por fim, a cereja cômica do bolo, porque o pateticismo também sempre foi uma característica prevalente em tudo que cercava Jair Messias. O fato de o gatilho ter sido a tentativa do ex-presidente de soldar (!) a própria tornozeleira eletrônica (!) e que a melhor defesa seria um suposto ímpeto de curiosidade é o epílogo com luxo estético que poucos roteiristas seriam capaz de produzir; o lembrete máximo de que, do ponto de vista cognitivo-intelectual, o bolsonarismo é isso mesmo: a promessa da estratégia sofisticada que culmina, com zelo quase artesanal, na celebração da burrice na sua forma cristalina, quase ingênua. É mais ou menos aquilo que a gente viu, com aflição, nos quatro anos do seu governo: a cloroquina oferecida às emas, a dificuldade de concatenar ideias coesas em idioma próximo ao português, a gritaria frequente com os jornalistas, a dificuldade de entrosar com outros líderes nos eventos internacionais.
“Meti ferro quente”, disse docemente o agora presidiário, ao ser questionado sobre sua travessura. Segundo aliados, o presidente estaria “ouvindo vozes” em razão do tanto de soluço — quem nunca?
Voltando aos filhos — personagens importantes nos enredos de máfia, afinal —, o fato de a prisão domiciliar ter sido provocada pelas ações de Eduardo Bolsonaro é charmoso. Por isso, a princípio, parecia plausível a tese de que a prisão preventiva em regime fechado teria sido provocada pelo ato convocado por Flávio Bolsonaro. Seria algo como um toque elegante do destino: o lembrete de que a perpetuação do Bolsonarismo enfrentará o implacável desafio imposto pela genética.
Ocorre que Flávio Bolsonaro tinha uma desculpa boa demais pra ser verdade. A tese de que tinha apenas convocado uma vigília de oração poderia colar, e chegou a ganhar tração nas redes sociais — mas teve vida curta. O vídeo da tornozeleira derretida veio como um míssil, direto para os anais da história brasileira. A política, assim como o meme do avião com catapora, deixam claro: o melhor tiro é dado onde há a força, não onde já existe fragilidade. A caracterização de Bolsonaro como autoritário, negacionista da pandemia e violador de direitos humanos não surpreenderia mais ninguém.
Já um vídeo em que Jair Messias, com voz embargada, explica sua travessura a uma agente de segurança pública que o trata com gentileza excessivamente condescendente não mostra um líder contra o sistema sendo levado pela violenta ditadura do judiciário. É apenas a figura do idiota, que, convencido ser membro da única família esperta do mundo, percebeu que se cortar a tira que fixa a tornozeleira era proibido, provavelmente mexer na caixinha seria mais tranquilo. Como se nenhum outro bandido, a polícia federal ou o fabricante da máquina, tivessem pensado nessa possibilidade antes. A reação do ex-presidente a uma agente de segurança incrédula é de criança sendo pega fazendo molecagem — em nada compatível com quem se sentia no direito de outorgar medalhas de imbroxabilidade, inclusive para si mesmo.
Inteligência Artificial ou burrice natural?
Triste e importante, no entanto, é lembrar dos que embarcaram na filosofia tão simplória quanto indigente do lema “bandido bom é bandido morto”. Hoje, ao verem seu ídolo definhar nas mãos de um sistema de justiça tão imperfeito quanto o país que o gerou, esses devotos tiveram a rara oportunidade de compreender o valor dos direitos humanos — aqueles mesmos direitos que Bolsonaro, com notável rigor semântico, classificava como “esterco da vagabundagem”.
Estes ensaiaram, por instantes, uma conversão moral: passaram de bandido bom é bandido morto para bandido bom é bandido anistiado. Foi um arco promissor, mas incompleto, porque pularam a parte do valor da dignidade humana, e se perderam no vício habitual do oportunismo. Na mesma semana em que pediam anistia, celebravam as execuções indiscriminadas na favela—e, por consequência, rejeitavam a oportunidade sagrada do amadurecimento. Uma pena, mesmo. .
A empatia é, em tese, um valor absoluto, e é tão elegante quanto mais difícil de ser aplicada. Eu sei. No entanto, os contornos do roteiro fazem a celebração inevitável, e nos dão licença para o regojizo sustentado pela dor alheia — ou schadenfreude, em bom alemão. Entre a cela e o circo, afinal, um palhaço a menos é a vitória do razoável. Bandido bom é bandido condenado e preso, no fim das contas.
(Escrito em colaboração com Gabriel Brasil, analista de risco político, autor da newsletter “Fuso Horário Zero” no Substack.)