E o que funciona?

Zohran Mandami
Enquanto Nova York escolhe Mamdani, o Brasil passa por sua própria versão do mesmo fenômeno. A diferença é que aqui estamos falando de balas em vez de aluguéis. Foto: Zohran Mandami/Facebook

Zohran Mamdani acaba de ser eleito prefeito de Nova York. Um socialista de 34 anos será o primeiro prefeito muçulmano da cidade. Sua promessa central de campanha? Congelar os aluguéis por quatro anos.

Noventa por cento dos economistas concordam que isso não funciona. O economista sueco Assar Lindbeck disse que controle de aluguel é a segunda técnica mais eficiente para destruir uma cidade. Só perde para bombardeio.

Os argumentos técnicos são sólidos: novos empreendimentos não são construídos, a manutenção é reduzida, e estudos mostram que imóveis com aluguel controlado têm o dobro de problemas com ratos, vazamentos e aquecedores quebrados. Os casos históricos são devastadores: Nova York nos anos 70 viu duzentas mil unidades habitacionais abandonadas. A solução correta, segundo os economistas, é reforma de zoneamento e construir mais habitação. Tradução: espere sei lá quanto tempo até o mercado resolver. Só que o eleitor precisa de um lugar pra dormir hoje.

Quando você se vê entre a lua e Nova York, entre o ideal impossível e a realidade brutal, o melhor que você pode fazer é se apaixonar. Parece loucura, mas é verdade. I know it’s crazy, but it’s true. If you get caught between the moon and New York City, the best that you can do is fall in love.

Zohran venceu por nove pontos percentuais mesmo com o consenso técnico de que sua principal proposta não funciona. O eleitor não precisa apenas de uma solução técnica que funcione. Ele precisa de algo para se apaixonar. Algo que o faça sentir que vale a pena ir votar, ainda mais num lugar em que o voto é facultativo e a eleição é num dia útil. Os especialistas estão oferecendo planilhas e projeções de longo prazo. Os populistas estão oferecendo uma causa, uma missão, um sonho.

Enquanto Nova York escolhe Mamdani, o Brasil passa por sua própria versão do mesmo fenômeno. A diferença é que aqui estamos falando de balas em vez de aluguéis.

Jacqueline Muniz é, por qualquer métrica objetiva, uma das maiores especialistas em segurança pública do país. Durante cobertura televisiva da Operação Contenção, ela fez declarações que viralizaram pelos motivos errados. Afirmou que um criminoso com um fuzil é facilmente rendido por uma pistola, até por uma pedra na cabeça. Seu cabelo laranja tingido se tornou foco de zombaria, e ela enfrentou piadas tentando desqualificar sua autoridade intelectual.

A operação que ela criticou matou centenas e o líder do Comando Vermelho que ela pretendia capturar permanece solto. Foi a operação policial mais letal da história do Brasil, e teve mais de 60% de aprovação popular. Entre moradores de favelas, a aprovação é ainda maior. A especialista de cabelo laranja provavelmente está certa, porém quando quase 80% dos moradores de favela apoiam uma operação que especialistas chamam de ineficaz, algo mais está acontecendo além de mera ignorância popular.

Para ser justo, especialistas em segurança pública têm propostas sérias, respaldadas por evidências, tecnicamente sólidas. O problema não é que as propostas não existam. É que elas exigem anos para funcionar enquanto o trabalhador quer voltar pra casa sem levar um tiro por causa de um celular. Hoje. Agora.

Aliás, quando se lê que, pelo menos até o meio deste ano, o presidente Lula não tem celular, é mais fácil entender por que ele simplesmente não compreende por que alguém reage quando tentam levar seu aparelho. Essa maldita máquina que vive nos nossos bolsos é, além do depósito de futilidade que todos conhecemos, também documento de identidade, agência bancária, relógio de ponto, intermediário de trabalho e chave do portão. Qualquer pessoa normal que perde o celular leva pelo menos uma semana pra colocar as coisas em ordem.

O presidente não fez aquela declaração infeliz sobre roubo de celular que repercute nos grupos do WhatsApp há anos, todo santo dia, por maldade. Ele simplesmente não entende. E quem não entende a legitimidade do seu interlocutor simplesmente não se comunica.

Eu concordo que a solução fácil não funciona. Beleza. Agora nos diga: e o que funciona para o pobre coitado que hoje vê seu aluguel dobrar ou sua rua ganhar uma barricada do crime organizado? Enquanto não tiverem resposta para essa pergunta que não envolva esperar anos ou décadas, tecnocratas continuarão perdendo para populistas de esquerda ou de direita que prometerem qualquer coisa imediata. E continuarão achando que o problema é ignorância dos eleitores. Não que especialistas estejam errados, mas que estar certo não importa quando não se oferece alternativa melhor.

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