Fazer campanha fora do Brasil é sempre um exercício de adaptação. Mas o Peru de 2026 impõe um grau de complexidade que vai além do desafio técnico. Atuando em campanhas neste ciclo, o que mais me chamou atenção foi o nível de rejeição à política no país. Não me refiro a um cansaço pontual nem de descontentamento difuso. Falo de um afastamento muito mais profundo da população em relação à classe política, em uma intensidade que eu não vi nem na Argentina do auge do discurso de ruptura de Javier Milei, nem no Brasil das manifestações de 2013.
Esse sentimento não surgiu do nada. O Peru caminha para eleger, em 2026, mais um presidente depois de uma década de trocas constantes no comando do país. A sucessão de crises e mudanças de governo corroeu a confiança nas instituições e ajudou a consolidar a percepção de que a política não entrega solução concreta para a vida das pessoas.
Ao mesmo tempo, essa crise institucional convive com um contexto social muito duro. Cerca de 70% da população ocupada no Peru trabalha na informalidade. A insegurança se consolidou como principal problema do país para grande parte da população, com alto índice de percepção. É um ciclo que vai muito além de uma simples disputa entre candidaturas. É uma eleição atravessada pela sobrevivência, pela sensação de abandono e pela cobrança por respostas imediatas.
O Brasil e o Peru não estão no mesmo estágio e passam por conjunturas distintas, mas a comparação ajuda a entender diferenças e semelhanças importantes. O Brasil tem um ambiente institucional mais estável e um eleitorado ainda muito mais engajado politicamente. Vemos um aumento da centralidade de temas concretos, especialmente segurança pública. Isso já aparece na disputa nacional de forma cada vez mais clara, inclusive com pré-candidatos tentando nacionalizar agendas que antes eram mais restritas aos estados.
No Peru, a segurança pública é o centro do debate. E isso se conecta a um processo mais amplo que atravessa a América Latina. Em vários países da região, sobretudo nos que convivem com a crise migratória e com o avanço do crime organizado, a segurança passou a ocupar o centro da disputa política.
Há outro ponto que diferencia fortemente os dois cenários: o sistema eleitoral. O Peru volta a eleger um Congresso bicameral em 2026, após décadas de unicameralismo. O país volta a ter senadores, divididos entre senadores federais (eleitos nacionalmente) e regionais. Esse desenho cria cargos novos para o eleitor. Em um país onde boa parte da população já está distante da política, isso aumenta a dificuldade de compreensão do processo.
A própria cédula exige um nível de atenção pouco intuitivo. A cartilha oficial da ONPE mostra que o voto envolve múltiplos campos e regras específicas para marcar organização política e candidatos em diferentes disputas. Em um ambiente com cerca de 40 partidos, a fragmentação se transforma também em obstáculo para o eleitor.
Esse contraste ajuda a valorizar uma característica brasileira que muitas vezes é subestimada: a simplicidade operacional do voto. A urna eletrônica oferece um processo muito mais claro, rápido e compreensível para a população. No Peru, parte relevante da estratégia de campanha precisa ser dedicada a algo que, no Brasil, costuma parecer secundário: ensinar o eleitor a votar corretamente. Sem isso, todo um trabalho de apresentação da candidatura e do projeto político passa a ser insuficiente.
As diferenças aparecem também no ambiente de campanha. A legislação peruana é mais permissiva em várias frentes, com práticas e linguagens que o Brasil restringiu ao longo do tempo. É permitido showmício, com apresentações musicais pagas pelas campanhas; Distribuição de brindes e alimentos; E sem nenhuma rigidez sobre placas e banners espalhados pelas cidades. Em contrapartida, o Brasil desenvolveu um ambiente mais regulado em diversas dimensões da disputa.
Ainda assim, a principal lição da eleição peruana está na reflexão que fazemos sobre a participação popular. Quando a política passa muitos anos sem entregar estabilidade, serviços básicos e perspectiva de futuro, a resposta das pessoas vai além da rejeição e beira à indiferença. E quando isso acontece, nem mesmo a comunicação política é capaz de reverter o cenário.
O Brasil não está no mesmo ponto. Tem instituições mais sólidas, um sistema de votação mais simples e uma rede de proteção social muito mais estruturada. Mas olhar para os peruanos ajuda a entender como a combinação entre desgaste político, insegurança cotidiana e falta do básico reorganiza prioridades do eleitor. E mostra também que, em contextos assim, a disputa deixa de ser sobre esquerda e direita, situação e oposição. Ela passa a ser, cada vez mais, uma conversação feita em um ambiente em que poucos querem ouvir.