O Mounjaro, rival do Ozempic, já está disponível legalmente nas farmácias brasileiras. Poucos remédios despertaram tanta atenção antes mesmo do lançamento oficial. Ainda em 2024, brasileiros já importavam clandestinamente as canetas de tirzepatida, tamanho o frenesi em torno da promessa de perder peso sem esforço. No Instagram, multiplicavam-se vídeos exaltando as “canetinhas milagrosas”; nos subterrâneos do comércio, surgiram ofertas ilegais manipuladas para quem quisesse resultados rápidos. Não à toa, lotes do medicamento foram apreendidos em aeroportos antes mesmo de sua aprovação formal, virando notícia de contrabando nacional. Mas foi quando o medicamento desembarcou nas farmácias brasileiras que discussões acaloradas voltaram à tona nas redes sociais.
Junto com o entusiasmo vieram os sermões. Há uma corrente barulhenta de críticos incomodados com a ideia de emagrecer sem pagar pedágio no suor. Esses críticos evocam um senso quase teológico de justiça: para eles, perder peso usando medicamentos é um tipo de heresia metabólica, um “pecado” contra a cartilha da virtude saudável. Em suma, dizem que recorrer a esse atalho farmacológico seria trapacear no jogo da vida saudável. Sob a capa de preocupações com “saúde” e “segurança”, revela-se uma cruzada moralista contra o emagrecimento.
No imaginário social alimentado por décadas de programas de TV de makeover, reality shows de perda de peso e influencers do “projeto verão”, ser gordo ganhou contornos de falha moral. É como se o excesso de peso fosse um pecado capital contemporâneo, uma culpa que não se perdoa com facilidade. E, diferente de outros pecados que se resolvem com contrição privada, esse exigiria expiação pública.
No catolicismo, perdão e expiação são conceitos relacionados mas distintos no processo de reconciliação com Deus após o pecado. O perdão representa o ato de Deus de remover a culpa do pecado e restaurar a relação entre o pecador e Ele. Quando Deus perdoa, remove a pena eterna e restaura o estado de graça na alma. O perdão é um ato de misericórdia divina que responde ao arrependimento sincero do pecador. É gratuito e completo, mas não elimina necessariamente todas as consequências do pecado. Já a expiação refere-se ao processo de reparação ou satisfação pelos pecados cometidos. Na teologia católica, mesmo após o perdão, podem permanecer “penas temporais” do pecado. A expiação aborda essas consequências temporais, sendo um processo de purificação e cura das feridas deixadas pelo pecado.
Os “pecadores do peso” precisam mostrar serviço: suar em público na academia, recusar bravamente a sobremesa na frente dos colegas, exibir sofrimento visível como prova de que estão pagando por sua indulgência calórica. Em outras palavras, a sociedade parece esperar que quem carrega quilos extras se submeta a um purgatório da esteira e do alface antes de alcançar a redenção da boa forma.
Há um tempo, os medicamentos para emagrecer eram as anfetaminas comparáveis aos rebites de caminhoneiros ou aqueles que inibiam a absorção de gordura (que, não absorvida, passava direto – daquele jeito). Citando Alan Parsons em seu álbum Pyramid: “What goes up, must come down”. Eram medicamentos menos efetivos, mas, principalmente, humilhantes. Para muitos, portanto, os emagrecedores modernos soam como indulgências modernas: uma forma de “perdão” farmacêutico que poupa o pecador da penitência tradicional. Onde já se viu obter a graça da silhueta esguia sem primeiro trilhar a via-crúcis das dietas milagrosas, do suor diário e talvez até das humilhações públicas? Os guardiões da moral fit não admitem. Nas redes sociais, proliferam comentários de que a única maneira legítima de “consertar um gordo” é obrigá-lo a deixar de ser guloso, sedentário e preguiçoso. Em outras palavras, defendem que só há mérito em emagrecer “de verdade” se for com dor, privações e uma boa dose de abnegação na esteira.
Essa patrulha do sacrifício chega a situações caricatas. Há quem veja quem emagrece com auxílio médico como um pecador que pulou a fila da penitência. Os usuários de Ozempic, Wegovy ou Mounjaro por vezes ouvem insinuações de que fizeram “trapaça”, quase como se tivessem copiado nas provas da vida saudável. Os vigilantes do peso alheio, em tom sarcástico, alertam sobre o “preço a pagar” pelo atalho: cutucam fotos de rostos mais magros apontando uma ruga aqui ou ali, inventaram um crescimento na cabeça (que nada mais é que a diminuição do resto) e bradam que “ah, mas vai ganhar tudo de novo quando parar de tomar”. Se pudessem, talvez mandassem esses hereges da dieta dar dez ave-marias e vinte tiros no supino como penitência retroativa. Ironias à parte, é evidente o desconforto de certos discursos diante da ideia de retirar o elemento do sofrimento do processo de emagrecimento. Afinal, “no pain, no gain” foi por anos o mantra venerado, e a possibilidade de gain (ou melhor, loss) sem pain soa como blasfêmia aos ouvidos dos devotos da velha guarda.
Enquanto isso, a ciência e o mercado seguem alheios ao fogo cruzado moralista, ou melhor, surfando na onda. A revolução das chamadas terapias GLP-1 (categoria à qual pertencem Ozempic e Mounjaro) está mudando paradigmas no tratamento da obesidade. Até autoridades governamentais entraram no coro dos entusiastas. O governador Zema, por exemplo, anunciou com orgulho planos de produzir a cobiçada semaglutida em solo brasileiro. Montes Claros, terra do meu pai, onde os passeios em busca de licor de pequi sempre me chamaram atenção pelo excesso de dinamarqueses muito brancos nos voos de ATR, agora também pode ser terra de fabricação do remédio de diabetes que nas horas vagas faz a função de emagrecer. Não por acaso: estima-se que o mercado global do Ozempic movimente cerca de R$ 80 bilhões até 2027.
Pecado capital? Que nada: capital, mesmo, e muito. O fato é que há muito dinheiro, investimento e inovação em jogo. Empresas farmacêuticas disputam fatias desse bolo (de preferência, diet) e as ações da Novo Nordisk, fabricante do Ozempic, dispararam ao ponto de torná-la brevemente a empresa mais valiosa da Europa. Um milagre econômico made in Denmark graças às dobrinhas que se vão.
Tudo isso traz à tona reflexões sobre a medicalização do corpo e nossos preconceitos diante do progresso científico. É compreensível haver quem torça o nariz para soluções fáceis, e a desconfiança faz parte de nossa cultura de exaltar a labuta. Desde cedo, aprendemos que “o sucesso só vem antes do trabalho no dicionário” e outras máximas do gênero. Quando a ciência aparece oferecendo uma saída menos penosa para um problema antigo, quase enxergamos aí uma pegadinha, um atalho pecaminoso. O mesmo país que abraçou de bom grado as facilidades da tecnologia no dia a dia (nos orgulhamos do nosso sistema bancário avançado e ninguém aqui aí quer lavar roupa no riacho) hesita em aceitar que, sim, é possível tratar a obesidade como questão médica, com uma injeção semanal, em vez de um martírio cotidiano. Há um medo difuso de que medicalizar o emagrecimento vá desvalorizar a virtude da disciplina. Para alguns, é como se a balança tivesse virado território sagrado: mexer ali só seria legítimo à moda antiga, com suor e sacrifício, não com intervenção clínica.
Mas vale lembrar: a obesidade é considerada há anos uma doença crônica, multifatorial, que vai muito além de “força de vontade”. Quem já lutou contra a balança sabe que não faltam sofrimento e culpa nesse caminho, e não foi a falta de sofrimento que nos trouxe à epidemia de obesidade atual. Pelo contrário: o sofrimento tem estado sempre presente, seja na forma de dietas restritivas, de bullying velado ou explícito, de problemas de saúde que se acumulam. A chegada de medicamentos como Ozempic e Mounjaro oferece a possibilidade de alívio real para muitos casos, reduzindo apetite, melhorando índices metabólicos, evitando cirurgias invasivas. Em vez de aplaudir o avanço, porém, parte da opinião pública prefere enquadrá-lo em termos morais, quase punitivos. É como se dissesse: “Quer emagrecer? Tudo bem, mas que seja à moda antiga, para servir de exemplo!” Subentende-se aí uma certa crueldade disfarçada de conselho: a ideia de que apenas através da dor se atinge a virtude.
No meio desse debate, estão as pessoas comuns, de carne, osso e metabolismo lento, que só querem uma vida mais leve em todos os sentidos. Gente que já tentou de tudo: dieta da lua, do abacaxi, low carb, jejum intermitente, crossfit às 6 da manhã. Muitos carregam não só os quilos extras, mas também as cicatrizes psicológicas de anos de fracasso e recriminação. Para essas pessoas, medicamentos como o Mounjaro não são “atalho covarde”, e sim uma esperança legítima de saúde e bem-estar. Uma ajudinha da ciência para um desafio que a sociedade adora simplificar como mera questão de caráter. Ao olhar torto para quem busca ajuda médica para emagrecer, acabamos reforçando um preconceito cruel: o de que pessoas acima do peso precisam “se redimir” aos olhos dos outros através do martírio visível. Só que redimir-se de quê, exatamente? De existir em um corpo que não corresponde ao ideal alheio?
No fim das contas, toda essa controvérsia fala mais sobre nossos valores do que sobre os medicamentos em si. A chegada do Mounjaro e seus primos obriga a encarar uma pergunta incômoda: por que nos incomoda tanto a ideia de resolver certos problemas humanos sem sofrimento? Será que nos habituamos a ver o emagrecimento quase como um rito de purificação, que perde a graça (ou a “moral”) se deixar de incluir flagelo? É claro que remédios não são solução mágica para todos, nem isentos de efeitos colaterais ou riscos. É preciso acompanhamento médico sério e há casos em que eles não serão indicados. Mas demonizá-los em nome de uma pureza conceitual do “esforço próprio” é desperdiçar empatia e ciência.
Ao que tudo indica, o boom das “agulhas milagrosas” veio para ficar, separando fiéis e hereges no culto do corpo. Talvez daqui a alguns anos essa briga entre atalhos e sacrifícios soe tão antiquada quanto aquelas disputas entre puritanos e libertinos nos romances do século XIX. Até lá, seguiremos com um pé na esteira e outro na farmácia, decidindo se a salvação do corpo precisa necessariamente do martírio da alma. E quem sabe descobriremos que, às vezes, o verdadeiro pecado está em negar alívio a quem sofre, só porque esse alívio veio fácil. Afinal, se existe um santo remédio, por que insistir na cruz?