Ensaios da humanidade: do ensaio no escuro à luz da vida real

Foto: arquivo pessoal/ Pedro Arieta

Sempre achei curioso o desconforto que algumas pessoas demonstram ao chorar durante um filme. Riem de si mesmas, limpam o rosto apressadamente, tentam disfarçar como se a emoção fosse um erro de comportamento. Em um mundo que valoriza tanto o controle, sentir demais pode ser visto como fraqueza.

Até a ciência vem confirmar: chorar vendo filme diz muito sobre a capacidade de sentir com o outro. Não é fraqueza, é inteligência emocional se expressando. E, via de consequência, a empatia se deixando aflorar.

Chorar por personagens que não existem é, na verdade, um ato de transposição. É nos deixar afetar por uma dor e por uma alegria que não são nossas, mas que poderiam ser. É reconhecer a história deles na nossa história. É ver humanidade em rostos inventados e, então, treinar o olhar para os rostos reais.

Quem não chora costuma dizer que é só ficção. Mas a ficção é justamente onde aprendemos a sentir sem defesa. No cinema, ninguém perde nada de verdade e, ainda assim, perde-se. Um pai, um filho, um amor, um tempo que não volta. Mas por que será que o corpo reage antes da razão, e a lágrima escapa como quem entende algo sem conseguir explicar?

Esse comportamento reflete a atuação dos neurônios-espelho, em que ao observarmos alguém, ativamos no nosso cérebro a mesma área ativada no cérebro dessa pessoa. Por isso, bocejamos ao ver alguém bocejar. No fundo, a inteligência emocional não é sobre controlar o que sentimos, é sobre entender aquele nó na garganta, a lágrima que escapa, e deixar que elas nos contem algo.

Colocar-se no lugar do outro exige mais do que imaginar sua dor, exige reconhecê-la como legítima. E isso nem sempre é confortável. Por vezes, entender o outro significa rever nossas próprias atitudes, admitir que nunca saberemos o peso que o outro suporta.

A empatia, no fundo, é isso: a capacidade de sairmos do nosso próprio centro. De suspender, ainda que por instantes, nossas certezas, nossos julgamentos apressados. É ver alguém cansado no ônibus e pensar “ela deve ter tido um dia pesado” em vez de “por que está tão encostada?”. É dar um passo pro lado e fazer espaço pro outro caber na nossa história.

Talvez por isso chorar em filmes seja só o prenúncio da inteligência emocional. Um ensaio, um lugar seguro onde aprendemos a sentir sem precisar esconder para não parecermos frágeis. Mas a verdadeira maturidade emocional começa fora das telas: no ônibus lotado, na fila do supermercado, no trânsito, nas relações difíceis, nas competições esportivas, nos conflitos do dia a dia.

Um vídeo que viralizou no Instagram me chamou bastante a atenção. Durante a Maratona de Boston 2025, o brasileiro Pedro Arieta, de 34 anos, ajudou um competidor americano exausto a concluir a prova, a apenas 200 metros da linha de chegada. Diferentemente dos demais competidores, o atleta enxergou seu adversário agachado no chão. E, mesmo sabendo que não conquistaria uma boa colocação, ele abriu mão do título e se solidarizou com a dor de um “irmão”.

Isso é empatia real! Quando o filme termina e as luzes do cinema se acendem, seguimos para casa, sem roteiro, sem edição. Ao contrário do filme, aqui a dor não é encenada. E o outro não é personagem: é alguém que, como nós, está apenas querendo encontrar a mesma sensibilidade também fora da ficção.

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