Escândalo do INSS expõe hipocrisia de Cleitinho

Eis um defeito que, até então, não conhecíamos do rapaz. O duplo padrão. A seletividade. A hipocrisia
Cleitinho
Foto: Saulo Cruz/Agência Senado

O bom da independência profissional – e afins – é poder transitar entre o passado e o presente e ter a certeza de que o futuro não vai me desmentir. Profundo? Que nada! Só um pensamento que me ocorreu e que me motivou a escrever esse texto.

Certo dia, ainda nos tempos de portal UAI, do Estado de Minas, fui chamado à redação porque um deputado muito atuante – e popular – queria me conhecer, pois adorava minhas colunas e por lá estaria para gravar uma entrevista.

O generoso parlamentar era o agora senador Cleitinho Azevedo (Republicanos). Aproveitei o prestígio e também gravei um bate-papo bem legal com ele. A partir de então, passamos a ter mais contato – sempre de ordem profissional.

Pau que dá em Chico

Textos meus elogiando Cleitinho há aos montes. Igualmente, há outros tantos o criticando. Os elogios sempre seguiram na direção da fidelidade do político com seu eleitorado. Já as críticas se dirigiam à forma rasa de debate político.

O senador é da “bancada hashtag”. Um “político TikToker”. Produz muito pouco, ou quase nada, em termos legislativos. Sua atuação consiste em, no máximo, fiscalizar o governo federal – algo que não cabe a um senador, mas a um deputado federal.

Cleitinho usa e abusa do histrionismo e da virulência para aparecer. Pega temas populares e os abraça como um tamanduá-bandeira. O diabo é que nunca propõe soluções. Apenas grita e aponta o dedo acusador, não raro, sem critério.

Cada um no seu quadrado

Ter uma boa interlocução com o jovem de Divinópolis nunca me impediu de criticá-lo. E, acho, ele sempre compreendeu minhas críticas como construtivas. Inclusive quando apontei suas inabilidade e incapacidade para pleitear o governo de Minas.

Sim. É legítimo a qualquer político querer ser prefeito, governador ou presidente. Mas é preciso autocrítica do candidato, sob o risco de penalizar duramente aqueles que não têm nada a ver com seus desejos e sonhos pessoais: os eleitores.

Cleitinho sabe – e já reconheceu – que lhe faltam condições para o exercício de chefe de estado. Se, como senador, lhe resta a gritaria na internet, o que faria, sentado à mesa do Tiradentes, sem dinheiro, sem equipe, sem eira, nem beira?

Choque de realidade

Uma coisa é sacar o celular e reclamar das estradas esburacadas, das filas nos hospitais e da merenda precária nas escolas. Outra, muito diferente, é ser o responsável por tentar melhorar o que não está bom – lembrando: sem dinheiro, sem experiência, sem equipe

Agora, contudo, o senador faz por merecer outra dura reprimenda. Pior. Naquilo que tem – ou tinha – como maior qualidade: o compromisso com seu eleitor. Por quê? Bem, porque sempre combativo com desmandos e escândalos, ontem (13/11), se calou. Capitulou.

O mesmo parlamentar, que não perde uma única oportunidade – e tem de ser assim mesmo! – para denunciar e “viralizar” vídeos sensacionalistas, se omitiu diante da atuação da Polícia Federal, no âmbito da Operação Sem Desconto, em desfavor de um aliado seu.

PF nas ruas

Refiro-me ao mandado de busca e apreensão emitido pelo STF contra o deputado federal e presidente do Republicanos em Minas Gerais, Euclydes Pettersen, aliado de primeira hora de Cleitinho e seu pretenso maior cabo eleitoral em 2026.

Pettersen é investigado pela PF, suspeito de receber mais de 14 milhões de reais por conta de sua suposta atuação junto à entidades (Conafer) que promoviam descontos irregulares nos pagamentos de aposentados e pensionistas do INSS.

O deputado é, por ora, apenas um investigado. Terá direito ao devido processo legal, à ampla defesa e ao contraditório. Porém, as acusações são graves. O que a Polícia Federal alega parece estar muito bem fundamentado.

Onde está Wally?

Enquanto a imprensa mineira e nacional se debruçava sobre a notícia, jornalistas procuravam o senador Cleitinho para ouvi-lo a respeito. Porém, o sempre tão buliçoso parlamentar preferiu se omitir e não responder aos chamados.

Durante horas, nada se viu ou se ouviu do “tiktoker” mineiro. Acusações precipitadas, análises rasas, reducionismos toscos e o tradicional pedido “Senta o dedo e compartilha esse vídeo” foram ausentes durante praticamente todo o dia.

Apenas no final da tarde, o portal Metrópoles publicou uma nota em que Cleitinho, de forma lacônica, declarou: “Ele é preside o Republicanos em Minas (…) O princípio é o da investigação pública. Agora tem que esclarecer. Que se investigue tudo”. Que feio, hein?

Nu com a mão no bolso

Eis um defeito que, até então, não conhecíamos do rapaz. O duplo padrão. A seletividade. A hipocrisia. Aos “inimigos”, Cleitinho jamais destinou um mísero minuto de silêncio antes de expô-los ao escrutínio de sua gigantesca e feroz militância nas redes.

Mas, ao correligionário e amigo pessoal, o silêncio foi a porta de saída escolhida. Os “Velhinhos roubados do INSS” – segundo o próprio Cleitinho em seus vídeos a respeito, atacando os “ladrões do governo” – devem estar decepcionados; assim como eu.

Quem sabe, hoje, com a consciência talvez um pouco pesada e o espelho cobrando alguma coerência, Cleitinho não venha a público e faça com Pettersen o que faria – e já fez inúmeras vezes – com seus rivais políticos? Deveria. Pois, como diz a garotada: “Para, que tá feio!

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