Governos são avaliados pelo que entregam, não pelo que viraliza

Foto: PBH

Até que ponto vale tudo para ganhar uma eleição? A pergunta é incômoda porque obriga candidatos, marqueteiros e eleitores a encarar um fato: a política transformada em espetáculo de engajamento imediato pode até render votos, mas costuma produzir governos frágeis, inconsistentes, paralisados e reféns do próprio enredo que criaram.  Quando a campanha/ou o candidato se organiza em torno do “nós contra eles”, da frase de efeito e do vídeo que estoura no algoritmo, o debate público se empobrece. Trocam-se planos por bordões; metas por memes. E, ao fim, quem perde é o cidadão, que não mora nas redes sociais, mora na fila do posto de saúde, no ônibus lotado, na escola que precisa funcionar e na rua que precisa ser mais segura.

O discurso polarizado pra bolha é um atalho tentador. Ela reduz custos de aquisição de audiência, simplifica narrativas complexas e gera o tipo de emoção que o ambiente digital premia. Mas esse atalho cobra pedágio na governabilidade. Campanhas que prometem a destruição do adversário como solução para todos os problemas entregam, depois de eleitas, mandatos cercados por desconfiança, com pouca margem para pactos, e um Congresso (ou Câmara Municipal/Assembleia) menos disposto a cooperar. O que parecia energia política vira ruído. O que parecia força vira isolamento. Como alertam Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, (cientistas políticos e professores da Universidade Harvard) democracias se sustentam em instituições, mas também em normas informais de tolerância mútua e autocontenção, ativos corroídos quando “vale tudo” vira método. 

O problema prático é que a vida real não cabe nos slogans. Governar é conciliar restrição orçamentária com prioridades; é hierarquizar problemas; é dizer “não” a demandas legítimas quando não há dinheiro, pessoal ou tempo; A gestão pública eficiente pede por diagnóstico, metas claras, cronograma, fonte de financiamento, indicadores, contratos bem desenhados, equipe capacitada, monitoramento e transparência. Pede governança: quem decide, com base em qual evidência, e como presta contas. Nada disso rende likes quanto um vídeo “indignado” e performático. Mas é isso que muda a vida das pessoas.

O discurso fácil, entretanto, prospera porque oferece um conforto moral: aponta um culpado único, promete atalhos e terceiriza as responsabilidades. O candidato teatral vende a ideia de que “com vontade tudo se resolve”, como se o gargalo do saneamento básico fosse retórica e não engenharia e marcos regulatórios; como se um sistema educacional melhorasse com palavras de ordem, e não com formação docente, currículo, avaliação e gestão por resultados; como se segurança pública fosse um clipe de 30 segundos, e não integração de dados, e inteligência. Ao evitar falar de “como”, “quanto” e “quando”, esse candidato não apenas engana, ele se sabota, porque um governo é avaliado pelo que entrega, não pelo que viraliza. Repito: um governo é avaliado pelo que entrega, não pelo que viraliza.

Há ainda um efeito colateral grave: políticas públicas exigem continuidade (geralmente de longo prazo) e cooperação. O “vale tudo” eleitoral destrói pontes que serão necessárias no dia seguinte à posse. Demonizar adversários pode render manchetes, mas retira do governante a possibilidade de costurar maiorias, absorver boas ideias alheias e reconhecer acertos de gestões anteriores, coisas simples que melhoram resultados, economizam recursos e claro, dá dignidade à vida das pessoas. Em nome de vencer a eleição, queima-se o capital de governar. E sem governar, não há legado.

A comunicação política tem papel central nessa encruzilhada. Não se trata de renunciar às ferramentas digitais ou negar a importância de narrativa. Trata-se de usá-las para aumentar a qualidade do debate, e não para atrofiá-lo. Uma campanha séria explica prioridades, custos e trade-offs. Mostra, por exemplo, que ampliar vagas de creche implica construir, equipar, contratar e financiar operação; que abrir um hospital sem equipe e custeio é promessa vazia; que reduzir homicídios exige metas, dados confiáveis e integração de forças; que mobilidade urbana custa planejamento metropolitano e estabilidade regulatória.

Também é preciso falar de ética do discurso. Mentiras, manipulações e ataques pessoais podem galvanizar bolhas, mas degradam a esfera pública e afastam talentos da política. A busca por curtidas a qualquer preço não é ousadia, é oportunismo. 

No fim, a pergunta inicial ganha outra luz: até que ponto vale tudo para ganhar uma eleição? Não vale. Porque a eleição não é um fim; é um meio para contratar um projeto de governo. Vencer sem condições de governar é perder duas vezes: trai o eleitor, desperdiça tempo que não volta e isso custa caro. A boa liderança não inflama ressentimentos; ela constrói convergência. O resto é ruído. E ruído não asfalta rua, não reduz fila, não aumenta aprendizagem, não salva vidas. Se a ambição é transformar realidade e esse deveria ser o objetivo, que vença quem mostre competência para planejar, humildade para dialogar e compromisso para entregar. É menos barulhento, é menos fácil, mas é o único caminho que faz sentido para quem governa e para quem vive as consequências do governo.

Leia também:

Moraes nega transferência de presídio pedida por condenada pelo 8/1 detida no Aeroporto de Confins

Juíza manda ação por peculato dos ‘fura-filas’ da vacina para o TJMG

Juiz manda secretários de prefeitura mineira devolverem 13º salário considerado ilegal

Veja os Stories em @OFatorOficial. Acesse