A recente declaração do governador Romeu Zema, comparando pessoas em situação de rua a veículos estacionados em local proibido — e sugerindo “guinchá-los” — é mais do que uma infeliz metáfora. É a cristalização de uma lógica que vem sendo implementada há anos em Minas Gerais: da desumanização, do lucro acima da vida, desconhecimento de gestão de Estado e da eficiência financeira como dogma absoluto. Trata-se de um projeto de poder que, aos poucos, desmonta a própria noção de dignidade humana.
A fala sobre “guinchar moradores de rua” pode parecer um escorregão de linguagem. Mas, na verdade, revela um modelo de gestão que trata gente como obstáculo e o Estado como empresa particular. Um modelo que, ao invés de enfrentar as causas da miséria, prefere escondê-la, tratando sociedade carente como sucata. Que enxerga o sofrimento como incômodo visual. Que ignora o fato de que milhares de mineiros estão nas ruas não por escolha, mas por consequência direta da exclusão promovida exatamente pela ausência de políticas públicas.
Sob o manto do “neoliberalismo responsável”, Zema tem sistematicamente desprezado cidadãos e aqueles que os atendem: os servidores públicos. Os auditores fiscais — responsáveis por garantir os recursos que sustentam saúde, educação e assistência social — convivem com congelamento salarial, fuga de talentos e esvaziamento institucional. O mesmo vale para professores, servidores da saúde, meio ambiente, profissionais da segurança. A conta, como sempre, recai sobre os mais vulneráveis.
Quando o governador fala em “guinchar” pessoas, ele não está apenas revelando desprezo pelos mais pobres. Ele está reafirmando sua crença de que o Estado não deve acolher, educar ou proteger — deve apenas cobrar, cortar e privatizar. É a mesma lógica que leva Zema a assinar um acordo dispensando mais de 190 bilhões da Lei Kandir e se calar diante do escândalo da dívida pública mineira. Mesmo após estudos técnicos comprovarem que Minas já pagou mais de três vezes o valor originalmente refinanciado e pode ser, hoje, credora da União, Romeu Zema prefere seguir pagando — com silêncio, imóveis públicos, participação em empresas lucrativas e direitos sociais — uma dívida inflada por indexadores indevidos e ultrapassados.
O Sindifisco-MG tem alertado há anos para esse processo de desmonte. Denunciamos, com dados e responsabilidade, o erro dos índices de correção aplicados nos contratos da dívida, a omissão da Secretaria da Fazenda, a sabotagem silenciosa contra os servidores. Nosso papel é técnico, mas também ético: defender o serviço público é defender a própria sociedade.
Governar não é “remover problemas sociais” das calçadas. É enfrentar injustiças com coragem, escutar a população, e construir soluções a partir do coletivo — não do preconceito. O Estado não é um estacionamento. E sua gente não é frota descartável. Os auditores fiscais, que trabalham bravamente para obtenção dos recursos públicos, não podem se calar diante de tamanha monstruosidade.