Madrugão mexe, remexe, estremece as memórias da minha juventude

Felizes os que viveram e conheceram uma Belo Horizonte em que a noite só terminava quando o dia amanhecia
O prefeito Álvaro Damião.
O prefeito Álvaro Damião. Foto: Adão de Souza/PBH

Quem me acompanha no jornalismo há algum tempo sabe: crítica política – nem sempre muito educada, eu confesso – não me falta. E elogio, quando aparece, não é por bajulação nem protocolar. É raro porque os governantes fazem pouco por merecer, infelizmente. E quando fazem, convém e é justo reconhecer.

Tenho acompanhado algumas das principais pautas da Prefeitura de Belo Horizonte sob Álvaro Damião. Entre elas, três me chamam especial atenção: a busca por parcerias público-privadas; a revisão das amarras urbanísticas herdadas da gestão Alexandre Kalil; e o velho e crônico problema do transporte público.

Foi justamente nesse último ponto que Damião fez o que seu bordão como jornalista esportivo diz: mexeu, remexeu e, sim, estremeceu um assunto da cidade, que há décadas era tratado como invisível: a madrugada. Ou melhor, o abandono da madrugada pela Prefeitura de Belo Horizonte no que tange ao transporte coletivo.

Acertando no alvo

O anúncio da ampliação do transporte público noturno – com 127 linhas operando entre meia-noite e 3h59 e a criação da Linha 10, o Circular Noturno – enfrenta e combate uma lacuna histórica de BH. A virtude da medida não está apenas no número de linhas, mas no seu desenho, que é conectar áreas de grande circulação noturna ao sistema Move (já existente).

Entre 23h20 e 4h, a nova Linha 10 passará, a cada 25 minutos, por pontos que dispensam explicação para quem conhece bem a noite da cidade: Praças da Estação, da Liberdade e Raul Soares, Floresta, Savassi, Lourdes e área hospitalar. O trajeto foi definido a partir de uma extensa pesquisa com trabalhadores e empresários do comércio e de serviços da capital.

Estamos falando de gente que não fecha bar; fecha turno. Que entende do assunto e ajuda a explicar o acerto: uma parcela expressiva dos trabalhadores noturnos sai entre 20h e 5h, com pico próximo das 22h. A maioria trabalha na Regional Centro-Sul, mas mora em outras áreas da cidade, especialmente a região Oeste. A PBH acertou ao ouvir antes de executar e anunciar.

Aqui me tens de regresso

Para quem viveu a boemia de Belo Horizonte, quando os ônibus ainda faziam parte da noite e não eram um castigo, a notícia bate em outro lugar. Sou de uma geração que fechava os botecos, voltava de coletivo, tropeçava na calçada e, ao cruzar a porta de casa, levava umas chineladas da mãe: “Por que não avisou que ia demorar?”. Bem, vai ver porque, naquela época, não havia celular, hehe.

Pessoal, na boa. Isso não é saudosismo da terceira idade ou mera nostalgia gratuita. É um traço cultural próprio. É uma espécie de memória urbana coletiva, que ajuda a explicar e a entender a cidade como um organismo vivo, pulsante. Do ponto de vista econômico, a lógica é mais do que óbvia e clara: mais gente circulando, mais trabalho, mais renda, mais arrecadação.

Agora, é preciso lembrar de outro óbvio, inclusive ao bem-intencionado prefeito: transporte noturno só funciona se vier acompanhado de iluminação pública adequada, regularidade e conforto e, principalmente, policiamento ostensivo. Sem isso, as ruas continuarão desertas e os ônibus circularão sem passageiros, aumentando ainda mais o enorme déficit do sistema.

Valeu, prefeito

Cidades grandes também vivem de madrugada. Hospitais, delegacias, bares, restaurantes, serviços essenciais, manutenção urbana. Quem mantém essa engrenagem girando precisa ir e vir com o mínimo de dignidade. Belo Horizonte já paga caro pela ausência de um metrô digno. Um sistema de ônibus eficiente é menos uma escolha e mais – muito mais! – uma obrigação.

Eu, Ricardo, hoje aposentado da boemia, mas ainda um notívago incorrigível – desses que cruzam a cidade de carro, ouvindo música madrugada adentro, lembrando de cada história em cada esquina -, aplaudo a iniciativa da Prefeitura. E mais: prometo testar o quanto antes o Madrugão! Vou do Centro ao Anchieta, para lembrar do bom e velho quatro pau e três (4003).

Não irei chegar bêbado em casa, minha mãe lá não estará com o chinelo nas mãos e a Rua Vitório Marçola não é a mesma dos anos 1980 e 1990. Mas Damião mexeu, remexeu e estremeceu um pedaço adormecido da cidade – e de mim. Felizes os que viveram e conheceram uma Belo Horizonte em que a noite só terminava quando o dia amanhecia.

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