Estamos enfrentando, enquanto sociedade, tempos de extrema descrença política. Descrença da sociedade nas instituições democráticas como capazes de solucionar os problemas que nos cercam. Há um descompasso entre a demanda cidadã e realidade das casas legislativas, que têm perdido muito tempo com discussões inócuas, egocêntricas, inconsequentes e inconstitucionais.
Há alguns dias, assistimos a um verdadeiro show de horrores das encenações teatrais na CPI das “bets” por parlamentares como Cleitinho e a influenciadora Virgínia, que zombam da gravidade dos temas discutidos, e aos ataques explícitos a figuras como Marina Silva nesta semana.
É como se o Senado tivesse se tornado palco de egos feridos, em vez de debates sérios sobre os problemas urgentes que nos cercam. Perde-se tempo, dinheiro público e capacidade de solucionar o que interessa.
Nesta semana, foi a vez do Senado Federal expor mais uma vez a face brutal da violência política de gênero no Brasil. Durante uma audiência na Comissão de Infraestrutura, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, foi interrompida, hostilizada e desrespeitada por senadores. De todas as frases de Marina, uma precisa ser demarcada, quando ela disse em tom firme: “terão que aprender qual é o nosso lugar”.
A frase de Marina ecoa como denúncia de um não-lugar que tentam nos imputar e como síntese de algo maior sobre a realidade das mulheres na política: o desafio não é apenas entrar na política, mas permanecer. A política brasileira é especialmente violenta com as mulheres — não só no campo simbólico, mas também no concreto, nas palavras e nos gestos.
O senador Marcos Rogério, do PL, que presidia a mesa disse em certo momento que Marina parecia estar “com falta de memória”, ao sugerir que ela não se recordava sobre o funcionamento da casa legislativa, em menção à época em que foi senadora. Loucas. Descompensadas. Fora de si. Sem memória. Todos adjetivos frequentemente utilizados com objetivo de colocar a competência e a sanidade das mulheres na política em xeque.
Afinal, os homens que levantam suas vozes são chamados de assertivos; as mulheres, exageradas. Me pergunto: por que o viés de gênero ainda dita tanto o comportamento covarde até em um ambiente como esse?
Vivemos em um mundo onde os papéis de gênero ainda pesam mais que o poder da lei. Mesmo na casa legislativa mais importante do país, as condutas e os comportamentos seguem sendo guiados menos pela Constituição e mais por preconceitos profundamente enraizados. Ser mulher, ali, ainda define o tom com que se é tratada, a atenção que se recebe e a credibilidade que se nega.
Prova disso é que essa mesma casa, o Senado, só passou a ter banheiro feminino no plenário em 2016. Um símbolo claro de que as estruturas de poder não foram pensadas para nos incluir. E quando, mesmo assim, mulheres ousam ocupar esses espaços, a resistência à sua presença se manifesta em ataques, silenciamentos e tentativas de deslegitimar suas vozes.
Marina Silva, mulher negra, de origem humilde, alfabetizada apenas na adolescência, é dona de um diploma raro de quem chega nesses espaços: o da realidade brasileira.
Sua trajetória, marcada pela luta socioambiental e pela coragem, incomoda justamente porque rompe com todas as expectativas do que se espera — ou se tolera — de uma mulher no poder. Ela não se molda, não adula, não agrada para caber. Existe por inteiro. E isso, para muitos, ainda é inadmissível. Mas existir por inteiro, é revolucionário.
Vivemos dilemas insolúveis. Nem bonita demais, nem de menos. Se nos vestimos bem, “queremos chamar atenção”. Se não, “somos desleixadas”. Esses microviolências, que parecem banais, são na verdade mecanismos de controle.
Vieses de gênero que operam com força nos bastidores e nos holofotes da política, funcionando como barreiras invisíveis que afastam as mulheres ou as desgastam até que desistam.
Marina seguiu de pé. A cada episódio de violência — como o do senador Plínio Valério, que afirmou, em março, ter “vontade de enforcá-la” — ela responde com firmeza, sem abdicar de sua integridade. Em vez de se calar, ela denuncia. Em vez de recuar, ela se impõe. Isso é política feita com coragem. Isso é democracia vivida no corpo. No corpo que foge de padrões e contradiz a norma ao ocupar esse espaço não pensado para ela.
A grande questão é que não é só Marina. São muitas. E a única forma de sobreviver nesse campo é apoiando umas às outras no combate à rivalidade feminina que é também parte desse enfrentamento. Mulheres são como rios: crescem quando se encontram. A solidariedade entre nós é ferramenta de resistência e também de construção. Porque ainda que nos ataquem individualmente, a resposta tem que ser coletiva.
A Lei 14.192/2021, que define e criminaliza a violência política contra a mulher, é um avanço, mas não resolve o essencial: a cultura patriarcal que naturaliza essas agressões. Segundo a ONU Mulheres, 82% das mulheres em cargos políticos já sofreram violência psicológica, e 25% sofreram violência física. Esses dados não são apenas estatísticas — são alertas.
É preciso um novo pacto democrático, que reconheça e proteja a presença feminina nos espaços de poder. Um pacto que diga claramente que as mulheres não precisam ser agradáveis, dóceis ou comportadas para merecer respeito. Que ser mulher não é convite para agressão, mas afirmação de pluralidade.
Marina Silva não está no governo para agradar. Está para transformar. E transformação, como sabemos, incomoda. Ela não pede licença para existir – e nem deveria. Ela sabe qual é o seu lugar. E é no centro. No centro das decisões, da história e das mudanças que ainda precisamos fazer.
Quando uma mulher ocupa um espaço de poder com dignidade, ela não está apenas fazendo política, está abrindo caminho para todas as outras. Que possamos aprender com ela a não recuar, a nos apoiar e a existir por inteiro, porque existir por inteiro é revolucionário.