Mulheres no Fisco: presença ainda fora do enquadramento

Auditora fiscal atua em fiscalização
Em MG, temos um quadro geral composto por 1.312 auditores fiscais, dos quais 354 são mulheres, aproximadamente 27%. Foto: SEF-MG/Divulgação

Quando a matéria saiu no jornal, na ocasião da minha posse como chefe da Administração Fazendária II, em Coronel Fabriciano, houve um detalhe que me atravessou. Ao fundo da foto, atrás de mim, aparecia um fogão exposto na sala onde serviam café. Nada tinha a ver com a cerimônia formal, mas estava lá, compondo a imagem do meu primeiro cargo de gestão como Auditora Fiscal. Talvez tenha sido apenas o enquadramento possível. Talvez descuido. Mas aquela fotografia parecia condensar uma narrativa maior.

Eu havia acabado de assumir um cargo em comissão depois de anos conciliando estudo, trabalho e maternidade. Preparei-me para o concurso de Auditora Fiscal amamentando minha filha recém-nascida. Levar minha menina, já com 3 anos, ao evento de posse, não me pareceu inadequado. Ela corria pelos corredores enquanto eu concedia entrevista na copa da unidade. Era a vida real encontrando a vida institucional.

Anos depois, ao rever aquela imagem, compreendi que o fogão, símbolo clássico da domesticidade, dialogava com algo mais profundo. Mesmo quando ocupamos espaços técnicos e de autoridade, persiste a expectativa de que o espaço privado continue sendo, antes de tudo, nossa responsabilidade. O enquadramento pode ter sido casual, mas o contexto social não é.

Os dados confirmam que essa não é apenas uma percepção individual. Informações do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos indicam que as mulheres representam cerca de 45,6% dos servidores federais ativos no país. No entanto, essa presença não se reflete de forma proporcional nos cargos de maior poder. Em diversas áreas da administração pública federal, a participação feminina na alta gestão permanece abaixo de 20%.

No universo das Auditoras Fiscais, a realidade não é distinta. Ainda são poucas as mulheres que ocupam o cargo de Auditoras Fiscais e menos numerosas ainda as que ocupam posições de gerência nas áreas de fiscalização. Em MG, no âmbito da Subsecretaria da Receita Estadual, no que se refere à alta gestão, temos 14 cargos de Superintendentes e apenas 1 é ocupado por mulher, ou seja, 7%. Entre os 27 Delegados Fiscais, 4 são mulheres (14,8%). A predominância masculina permanece evidente nas posições de maior comando. Esse fenômeno reflete o que a literatura sobre trabalho e gênero denomina segregação vertical: mulheres ingressam nas carreiras públicas, mas continuam sub-representadas nos níveis mais altos de decisão.

E a tendência parece só piorar.

Em concursos recentes, a proporção de mulheres inscritas e aprovadas foi muito inferior à masculina. Alguns exemplos obtidos em pesquisa junto à mídia e aos próprios estados relatam um pouco deste contexto.

Em recente posse de 829 novos Auditores Fiscais do Trabalho, as mulheres representaram 32% do total, elevando para 36% a participação feminina na carreira. O que parece positivo, um avanço, ainda que represente apenas cerca de um terço da carreira.

No Paraná, que acaba de nomear 100 novos auditores fiscais, apenas 9 são mulheres. O quadro total de auditores fiscais daquele estado, composto atualmente por 537 pessoas, já consideradas as nomeadas recentemente, tem 74 mulheres. Ou seja, as mulheres representam 13,78% do quadro total de auditores atual, percentual inferior a 2021, cuja participação equivalia a 15,68%.

A participação feminina no fisco paulista também representa apenas 20% da carreira, como bem lembrou Lígia Sabaraense, Presidente do Conselho de Representantes do SINAFRESP, em discurso que marcou a comemoração do Dia do Auditor Fiscal, em setembro de 2025.

Em MG, temos um quadro geral composto por 1.312 auditores fiscais, dos quais 354 são mulheres, aproximadamente 27%. Porém, em relação ao último concurso, que nomeou 431 novos Auditores Fiscais da Receita Estadual – AFRE, essa representatividade foi ainda menor. Dos 431 AFRE inicialmente nomeados, 83 são mulheres, o que corresponde a apenas 19,3% do total. Esse dado revela que a desigualdade de gênero ainda se reproduz no próprio processo de renovação da carreira.

E, pasmem, há registros de auditoras, mães recém nomeadas, que precisaram se mobilizar para assegurar condições adequadas para conciliar a amamentação com o trabalho, o que evidencia que o desafio não está apenas no acesso, mas também nas condições de permanência.

O fogão ao fundo daquela fotografia deixou de ser apenas um detalhe incômodo. Tornou-se símbolo da sobreposição permanente de expectativas que ainda recai sobre as mulheres. Não basta que as mulheres alcancem cargos estratégicos se continuarem acumulando, silenciosamente, as mesmas responsabilidades estruturais que sempre lhes foram atribuídas.

Esse incômodo, em vez de nos paralisar, precisa nos mover. No meu caso, tornou-se impulso para não renunciar nem à carreira e nem à maternidade. Ao longo dos anos, procurei exercer uma gestão mais leve e participativa, valorizando a inteligência coletiva das equipes e reconhecendo que trajetórias profissionais também precisam acomodar as dimensões reais da vida.

No Dia da Mulher, mais do que celebrar trajetórias individuais, é preciso discutir a arquitetura institucional que sustenta essas trajetórias. Igualdade não é apenas aparecer na foto oficial. É ter condições reais de exercer liderança sem exaustão invisível, sem precisar provar competência em dobro e sem carregar sozinha o peso do que ficou fora do enquadramento.

Talvez o que precise mudar não seja apenas o plano de fundo das fotografias. Talvez seja o cenário inteiro que define quem pode liderar e o quanto custa para algumas mulheres permanecer nesse espaço.

Leia também:

Por que o Cidadania estuda enviar seus candidatos em MG para o PSB

Vereador mineiro pede à Justiça que nomeação de namorada em gabinete não seja considerada nepotismo

Os afagos de irmãos de Cleitinho a Marcelo Aro

Veja os Stories em @OFatorOficial. Acesse