Imagine um barulho agudo vindo do seu bolso à noite. A tela do celular brilha com um alerta vermelho: “RISCO EXTREMO”. Coração aos pulos, você lê a mensagem apocalíptica sobre uma tempestade iminente, procura desesperado por instruções… e descobre que avisaram do perigo, mas não disseram o que fazer. Bem-vindo ao Brasil de 2025! A Defesa Civil agora avisa sobre perigos via cell broadcast. Essa inovação é impressionante. Não precisa de cadastro e chega a qualquer celular com 4G ou 5G na área de risco.
Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades. E também muitos sustos. A pergunta que fica zumbindo como um alarme é: quantas vezes dá para gritar “lobo!” até ninguém mais ligar?
A fábula de Pedro e o Lobo é conhecida há milênios. A história já aparece em Esopo e se espalha por várias culturas. Ela ensina que alertas falsos repetidos minam a confiança. Essa lição foi importante até para Alexandre, o Grande. Em 326 a.C., Alexandre usou alarmes falsos durante uma batalha contra Porus. Ele pediu que seus soldados fingissem estar prontos para cruzar o rio Hidaspes, agora chamado de rio Jhelum. Eles marchavam barulhentos, deixando o inimigo sempre em tensão. A repetição entorpecia a reação do oponente.
Foi preciso esperar até o século XX, porém, para que psicólogos estudassem a sério esse “efeito lobo” na população. Em 1984, Shlomo Breznitz lançou “Cry Wolf: The Psychology of False Alarms”. O livro analisa nossa reação a alarmes que não se concretizam. Breznitz advertia que sistemas de alerta mais sofisticados podem gerar muitos falsos alarmes. Isso pode causar um grande impacto psicológico, tornando-se o ponto mais fraco de todo o sistema de aviso.
Um alerta deve ser levado a sério. Os noruegueses do A-ha adotaram essa ideia. Cry Wolf, time to worry: quando alguém grita “lobo”, é hora de se preocupar. Mas se tudo é urgente, nada parece urgente.
Os especialistas em defesa civil entendem esse risco. Hoje, ele é chamado de “fadiga de alerta” e dessensibilização. Estudos recentes sobre alertas de emergência mostram que a fábula é verdadeira. Na Coreia do Sul, o governo envia alertas de desastre pelo celular desde 2005, usando o sistema KPAS. O excesso de mensagens causou incômodo e apatia entre as pessoas. Muitos sul-coreanos começaram a reclamar. Eles dizem que os avisos se tornaram “um estorvo” por tocarem demais. A imprensa local ligou o fenômeno à fábula do lobo. Eles notaram que encher a população de mensagens genéricas sobre perigo faz o público desconfiar. Assim, as pessoas acabam ignorando os alertas por causa da exaustão.
Uma pesquisa publicada em 2022 no International Journal of Disaster Risk Reduction mostrou que mais alarmes geram mais desconfiança e cansaço nas pessoas. Isso, por sua vez, faz com que muitos bloqueiem ou desliguem os alertas no celular. Exagerar na sirene faz a autoridade parecer um garoto que grita “perigo” o tempo todo. Assim, ninguém mais dá atenção.
Será que conseguiremos evitar esse tiro no pé coletivo? O novo sistema de alertas da Defesa Civil é, sem dúvida, promissor e bem-intencionado. Agora, em vez do antigo SMS que poucos usavam, qualquer pessoa na área de risco recebe uma notificação sonora e visual. Isso interrompe vídeos, chamadas e tudo mais. A estreia operacional foi positiva. No fim de janeiro, São Paulo recebeu seus primeiros “alertas severos” de temporal. Esses alertas traziam um texto explicativo e orientações claras. Informavam sobre chuva forte, vento e risco de alagamento. A mensagem dizia: “mantenha-se em local seguro”. Muitos paulistanos se assustaram ao ouvir o aviso emergencial pela primeira vez. O som é bem parecido com o de um filme-catástrofe, mas eles viram a utilidade. Afinal, quem não quer ser avisado de que vai cair o céu antes de sair de casa? Até aqui, tudo ótimo: tecnologia de ponta salvando vidas, governo fazendo chegar a informação a todos. A Defesa Civil de São Paulo enviou alertas por semanas seguidas de chuvas fortes. Esses avisos alertaram bairros inteiros sobre tempestades e enchentes que vinham se aproximando.
O problema começa quando esse tipo de alerta se banaliza ou falha no alvo. Há algumas semanas, moradores do Sudeste receberam uma notificação de terremoto. Ele teve magnitude 5,5 e ocorreu perto do litoral de São Paulo. A mensagem chegou às 2 da manhã. Terremoto?! Brasileiros bocejando de sono olharam incrédulos para o celular. Seria pegadinha? Minutos depois, veio o alívio e a irritação de todos: não houve tremor. O alerta foi um falso positivo do algoritmo do Google. A Anatel e a Defesa Civil explicaram que o alarme não era do sistema oficial. Ele era de um serviço automático dos telefones Android e funcionava de forma independente. Mas veja a situação: muitos achavam que o novo sistema nacional estava maluco. Depois, eles entenderam o que realmente acontecia. Ou pior, entraram em pânico com um tremor fantasma. Foi um pequeno caos de informações. Foi um “alarme falso” que pode desgastar a credibilidade de qualquer ferramenta. O Google desligou rápido seu alerta sísmico no Brasil depois do erro. Mas o dano já foi feito. Agora, quando um celular vibrar às 2h da manhã, muitos usuários vão hesitar antes de acreditar.
As autoridades podem causar “alarmite aguda” mesmo sem falsos terremotos. Isso acontece se não usarem o sistema corretamente. É quase uma reação humana automática: após a décima sirene, você nem liga mais. Quem vive em cidade grande já sabe: alarmes de carros e casas disparam à toa. Eles se tornaram uma trilha sonora constante. Com alertas públicos pode ocorrer o mesmo: de tanto ouvir lobo, assumimos que é alarme falso. Alguns cidadãos já devem ter encontrado como desativar os “Alertas de Emergência” no celular. Isso é como um apagão voluntário da proteção que esses alertas oferecem. É um contrassenso perigoso, mas compreensível, se os avisos não geram confiança.
Para evitar esse destino, precisamos gerenciar os alertas com cuidado. Reserve o alarme extremo para situações realmente críticas. Usemos o alerta severo com moderação e sempre com instruções claras.
A norma técnica internacional que serve de base para os alertas via cell broadcast é a 3GPP TS 23.041. Esta especificação do 3GPP (Third Generation Partnership Project) define o serviço de broadcast para redes móveis. Isso inclui GSM, UMTS, 4G e 5G.
Na 3GPP TS 23.041, o formato das mensagens de Cell Broadcast é descrito. Isso ocorre na seção “Message Format”. Nela, são definidos campos importantes: Message Identifier, Serial Number, Data Coding Scheme e Message Body, onde as autoridades inserem a mensagem de alerta e descrevem o risco.
A norma oficial para alertas públicos de emergência por celular é a Resolução nº 739 da Anatel. Esta resolução aprovou o “Regulamento sobre o Uso de Serviços de Telecomunicações em Desastres, Situações de Emergência e Estado de Calamidade Pública.” Ela define as obrigações das prestadoras de telefonia móvel para enviar alertas de emergência.
O artigo 9º desse regulamento diz que as operadoras devem enviar alertas de emergência. Esses alertas devem vir com orientações de ação para a população afetada.
Não há desculpa – a própria norma do sistema prevê que toda mensagem avise qual é o risco e o que fazer.
Disparar um alerta severo sem dizer “faça X ou evite Y” é como gritar “fogo!” num teatro escuro sem indicar a saída de emergência. Da mesma forma, é preciso resistir à tentação de usar o canal de alerta para qualquer frisson. A cultura do “jeitinho” e do improviso não deve afetar a Defesa Civil. Não podemos deixar que isso transforme um instrumento sério em spam do governo. Em outras palavras: não vale mandar alerta vago “para inglês ver” só para depois dizer “alertamos a população” caso algo dê errado. Infelizmente, nosso histórico institucional não tranquiliza. Quantas vezes planos de prevenção viraram peças de ficção? Quantas sirenes anti-enchente foram instaladas após tragédias, apenas para cair em desuso ou falhar por falta de manutenção? Essa dificuldade de lidar com crises pode ser vista no uso imprudente do cell broadcast. Muitas vezes, iniciamos ações de emergência com alarde, mas depois deixamos tudo de lado. Isso acontece sem aprendermos com a situação.
No fim, a credibilidade desse novo sistema de alertas depende mais de nós do que da tecnologia, que já funciona bem. As autoridades precisarão de disciplina e cautela ao apertar o botão vermelho. O desejo de alertar sobre tudo, o tempo todo, pode ser forte. É preciso treinar a população para entender os níveis de alerta. Assim, as pessoas não entrarão em pânico no primeiro aviso, mas também não ficarão apáticas diante de alertas reais. É um equilíbrio delicado: alarmar sem “alarmar demais”. Se funcionarmos bem, o Defesa Civil Alerta pode salvar vidas. Ele prepara as comunidades para agir só quando é realmente necessário. Caso contrário, podemos nos tornar o país do lobo onipresente. A moral lá do começo ainda vale: quem abusa do alarme falso acaba sem plateia quando importa.