A notícia de uma série de intoxicações por bebidas alcoólicas em São Paulo trouxe consigo um vilão conveniente. Surgiram rumores de que o PCC teria deliberadamente envenenado bebidas com metanol. A imagem é cinematográfica: uma facção criminosa envenenando consumidores inocentes. Mas a realidade, como de costume, é menos maniqueísta. Ainda assim, a hipótese ganhou força no imaginário popular. Afinal, quem mais faria algo tão cruel senão um grupo “do mal”?
Metanol em bebidas não é novidade no Brasil. Em nenhum dos episódios anteriores ficou comprovada uma conspiração diabólica para envenenar gente por envenenar. O que se viu foram fabricantes clandestinos economizando custos ou erros grotescos de produção.
A tese da contaminação proposital surgiu com força após uma nota de uma associação ligada ao setor de bebidas, que trabalha no combate à falsificação: a entidade relacionou os casos de intoxicação ao suposto redirecionamento de estoques de metanol do PCC, originalmente importados para adulterar combustíveis. O argumento é que, com tanques repletos de metanol lacrados após a polícia fechar postos de combustível ilegais ligados à facção, os criminosos tiveram que desovar esses estoques de alguma maneira. A hipótese ecoa a imagem de um esquema organizado de envenenamento, em que o mesmo metanol importado ilegalmente para ganhos no setor de combustíveis agora findaria nos copos de boêmios desavisados.
De fato, elementos desse enredo não vieram do nada. Em agosto, a Operação Carbono Oculto desbaratou um esquema bilionário de fraudes no setor de combustíveis envolvendo o PCC. Investigadores descobriram que a facção importava metanol e motoristas desviavam o produto diretamente para postos de gasolina. Diante da recente repressão a esse esquema, não seria totalmente absurdo supor que uma parte do estoque ilegal pudesse ter mudado de destino. A Polícia Federal, inclusive, considera possíveis conexões entre as intoxicações e a cadeia de combustível investigada no caso. Até aqui, portanto, a narrativa parece verossímil: há metanol sobrando de um crime e há um mercado ilícito de bebidas onde ele poderia ser usado. No entanto, verossimilhança não é o mesmo que probabilidade. Quando examinamos a lógica econômica e logística dessa teoria, ela rapidamente se revela dependente de dois exercícios de fé. O primeiro é que a operação Carbono Oculto tenha realmente eliminado 100% da rede de distribuição de combustíveis do PCC; o outro é que a mesma organização criminosa tenha, do nada, criado uma nova rede de distribuição de bebidas.
A cadeia clandestina do metanol para combustíveis tem dinâmica, incentivos e riscos muito diferentes da cadeia das bebidas falsificadas. O negócio de adulterar combustível opera em grande escala e relativa especialização. O PCC e seus comparsas importavam metanol em volumes industriais, transportados em navios e caminhões-tanque, para misturar em combustíveis e assim aumentar suas margens de lucro. Lucra-se muito enganando consumidores e fisco, porém sem efeitos imediatos tão chocantes. Os motoristas lesados dificilmente percebem de imediato que encheram o tanque com combustível batizado. Os riscos para os criminosos, embora reais, são difusos no curto prazo. Em suma, trata-se de uma cadeia ilícita consolidada, que não se converte facilmente para outro ramo criminoso que tenha lógica diversa.
Desviar essa infraestrutura do combustível adulterado para a adulteração de bebidas alcoólicas significaria, na prática, construir uma nova rede de distribuição criminosa do zero, ou quase isso. Não basta ter tanques cheios de metanol sobrando. Seria preciso escoar esse metanol em porções menores, ou seja, entregá-lo a dezenas de fabriquetas clandestinas de cachaça, whisky, vodca, espalhadas sabe-se lá onde, ou então organizar centros próprios de envase e falsificação de rótulos. Logística é custo. Fracionar, transportar e vender produtos químicos perigosos no varejo clandestino demandaria investimentos e aumentaria exponencialmente o número de comparsas envolvidos, de motoristas a intermediários. Tudo isso para ganhar quanto? Bebidas alcóolicas têm um mercado finito e muito competitivo, mesmo no ilegal, e parte do apelo delas é justamente imitar as originais sem que o consumidor perceba. Em termos econômicos, estaríamos falando de um ganho marginal em troca de um risco tremendo de exposição e repressão. Do ponto de vista de uma facção criminosa sofisticada, que administra negócios ilícitos diversificados, é um péssimo negócio.
A esta altura, nenhuma investigação apresentou prova concreta de que o PCC mandou deliberadamente envenenar bebidas. Uma operação policial em Americana, onde se falsificavam uísque, gim e vodca, não encontrou vestígios de metanol entre os insumos apreendidos. Isso sugere que a adulteração das garrafas poderia estar sendo feita simplesmente produzindo álcool de maneira rudimentar, sem necessariamente adicionar um insumo externo letal. Em outras palavras, o crime das bebidas falsas pode seguir seu curso normal (já bastante nocivo) sem precisar de uma injeção de maldade adicional.
Não é preciso uma conspiração deliberada para explicar a presença de metanol em bebidas clandestinas. O metanol é, na verdade, um subproduto natural da fermentação alcoólica. Em qualquer destilaria séria, há procedimentos para separar e descartar o metanol gerado durante o processo. O problema é que no processo clandestino raramente existe esse rigor técnico. Sem controle preciso de temperatura e tempo, um destilador ilegal pode facilmente deixar metanol passar para o produto final. Se ele estiver economizando ou acelerando etapas, então pior ainda.
Quando se tem em mente esse contexto, o recente surto paulistano se alinha muito mais a um padrão histórico conhecido de tragédias por bebidas adulteradas do que a uma nova modalidade de terrorismo químico orquestrado. No Brasil e no mundo, casos de envenenamento por metanol em bebidas geralmente emergem de falhas na produção clandestina. Enquanto nada de errado acontece, vende-se garrafas baratas com margem alta.
O drama vem depois, quando os sintomas aparecem horas mais tarde nos consumidores desavisados. Foi exatamente isso que se viu em São Paulo: pessoas de diferentes pontos da região metropolitana indo parar em emergências médicas com quadro de intoxicação violenta, após beberem gin ou vodca de procedência duvidosa dias antes. A primeira suspeita dos agentes de saúde não foi quem despejou metanol nisso deliberadamente?, mas sim de onde veio essa bebida e como foi fabricada?.
Se do ponto de vista factual e econômico a hipótese do metanol do PCC soa forçada, por que então ganhou tanta tração? Aqui entramos no campo das narrativas institucionais e interesses velados. A associação que lançou essa teoria é uma organização legítima de combate à falsificação, mas não age num vácuo. Ela naturalmente se beneficia ao amplificar a percepção de ameaça representada pelo mercado ilegal de bebidas, pois isso ressalta a importância de suas pautas. Vincular o caso de São Paulo à principal facção criminosa do país coloca o tema num patamar de urgência máxima.
De certa forma, é uma forma de pegar carona no poder de fogo midiático do nome PCC para chamar atenção ao problema da falsificação. E, de fato, a entidade aproveitou os holofotes para defender medidas caras à sua agenda, em especial, a volta do Sistema de Controle de Produção de Bebidas (Sicobe), um programa de rastreabilidade que foi desativado em 2016. A entidade afirma que desde o fim do Sicobe o volume de bebidas falsas disparou no país, causando prejuízos bilionários e evasão fiscal enorme. Essa conexão, porém, foi publicamente refutada pelo Ministério da Fazenda: a Receita Federal emitiu nota oficial dizendo ser falsa a correlação entre a adição criminosa de metanol em bebidas e o desligamento do Sicobe. Nem toda hipótese alarmante nasce apenas da apuração imparcial dos fatos: algumas nascem também de agendas institucionais e vieses de confirmação.
Há algo de infantil na ideia oposta: a crença de que criminosos (ou mesmo empresários) causem danos só por maldade, movidos por uma espécie de vilania cartunesca. Essa visão simplista ignora incentivos e custos reais. No próprio contexto das bebidas adulteradas, por que um falsificador envenenaria deliberadamente seu público-alvo? Além da ausência de qualquer escrúpulo moral, há o risco comercial: se clientes morrem ou ficam cegos, o produto batizado fica marcado, as vendas caem e a polícia aparece. É muito mais provável que a contaminação por metanol resulte de cortes de custo desastrosos ou erros técnicos do que de um desejo consciente de matar desconhecidos. O facínora pode até não se importar com as vítimas, mas dificilmente investe tempo e dinheiro apenas para fazer o mal.
Essa lógica vale também fora do submundo do crime. Muitas vezes, demonizamos agentes econômicos imputando-lhes uma intenção maligna exagerada, quando deveríamos considerar a velha máxima do interesse próprio. Tome-se o caso dos agrotóxicos na agricultura. Há quem pinte o produtor rural como um vilão envenenador, imaginando que ele encharca suas plantações de pesticidas por descaso com a saúde alheia ou puro deleite sádico.
Ora, a realidade do campo refuta essa fantasia. Agrotóxico é caro. Nenhum fazendeiro em sã consciência vai despejar veneno além do necessário só para ser do mal. Se há exageros, normalmente decorrem de desconhecimento técnico ou políticas inadequadas, nunca porque o produtor acordou decidido a contaminar o consumidor no café da manhã. Na política também ocorre muito isso: um gestor que corta um programa é malvado e cruel, como se existisse alguma vantagem em economizar dinheiro alheio, num debate maniqueísta que ignora a parte mais importante: pra onde foram os recursos do programa cortado?
Entender motivações não é desculpar ações. No entanto, atribuir tragédias a uma maldade inata quase sobrenatural nos faz combater fantasmas morais em vez de enfrentar as causas reais. Se acreditarmos que o PCC envenena bebidas apenas porque tinha metanol sobrando, corremos o risco de focar apenas na repressão penal, ignorando o mercado negro de álcool que já existia muito antes da rede de postos de combustível estar na mira da PF. Ao reduzir problemas complexos a narrativas de bem contra mal, tratamos adultos como crianças assustadas com o bicho-papão, quando deveríamos agir como gente grande resolvendo problemas concretos.
No mundo real, o mal raramente é um fim em si mesmo. Crimes e abusos geralmente têm racionalidade por trás: torpe, mas racionalidade ainda assim. A maioria dos males que nos atingem vem embrulhada em justificativas banais: era mais barato assim, era mais fácil, sempre fizemos desse jeito. Isso não torna essas ações menos condenáveis, mas nos obriga a enfrentá-las pelo que realmente são.
É reconfortante, em certo nível, culpar a maldade humana pura por nossas desgraças, mas a realidade quase sempre é mais complexa e mais banal. Entender isso nos ajuda a trocar a indignação estéril por soluções efetivas. Afinal, combatemos melhor o mal quando reconhecemos que ele raramente age apenas por maldade.