Falar sobre economia no Brasil exige coragem. Coragem para não se perder no tecnicismo das planilhas e, acima de tudo, coragem para olhar nos olhos de quem paga, todos os dias, a conta mais alta do modelo econômico vigente: a população pobre. Eu sou Juvenal Araújo, ativista, gestor público e ex-secretário nacional de igualdade racial. Sei, por experiência de vida e por estudo, que a economia brasileira ainda é moldada para manter privilégios, não para gerar justiça social. Os mais pobres são parte essencial da engrenagem que move o país — trabalham, pagam impostos, empreendem, consomem, resistem —, mas continuam com pouco retorno social, pouca redistribuição de riqueza e muita exclusão.
O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo, e isso não é um acaso estatístico. É fruto de uma construção histórica marcada pela concentração de renda, pela exploração e por uma estrutura que, até hoje, determina quem lucra e quem sofre na base da pirâmide social. A estrutura tributária atual aprofunda essa desigualdade. Somos um país onde os pobres pagam, proporcionalmente, mais impostos que os ricos. Essa desigualdade fiscal é um dos principais motores da injustiça social.
Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) mostram que os 10% mais pobres comprometem mais de 30% de sua renda com tributos indiretos, como o ICMS sobre alimentos e produtos básicos. Já os super-ricos pagam menos de 10% da sua renda total em impostos. Em outras palavras: quanto menos você ganha, mais o Estado cobra de você. Isso se soma a outro fator: o efeito da política monetária restritiva, baseada na manutenção de uma taxa Selic elevada, que afeta diretamente a capacidade de consumo e o endividamento das famílias de baixa renda.
Quando o Banco Central opta por manter a taxa básica de juros elevada como instrumento de controle da inflação, o impacto sobre os mais pobres é direto. Linhas de crédito ficam mais caras, o parcelamento de dívidas se torna insustentável e o acesso ao financiamento de bens duráveis, à moradia e até ao capital de giro para pequenos negócios populares torna-se quase impossível. Enquanto isso, os rentistas — detentores de grandes patrimônios aplicados em títulos públicos — seguem lucrando com a política de juros altos. Ou seja, há um mecanismo perverso que transfere riqueza da base para o topo.
Essa estrutura não é neutra. Foi desenhada para beneficiar uma elite econômica e manter a maioria da população em estado de sobrevivência. A ausência de políticas públicas redistributivas efetivas, combinada com a inexistência de uma reforma tributária progressiva, perpetua um ciclo de pobreza, informalidade e exclusão social. É preciso romper esse ciclo com medidas que façam justiça.
Defendo, como gestor público, que a pauta da justiça social esteja no centro do debate econômico. As grandes decisões sobre taxa de juros, política fiscal, teto de gastos, metas inflacionárias e subsídios não podem continuar sendo tomadas em gabinetes distantes da realidade das periferias, das comunidades e das zonas rurais. A política econômica precisa enxergar as pessoas — e enxergar com justiça. Precisamos de uma reforma tributária justa, progressiva e voltada ao desenvolvimento humano.
Essa reforma deve começar por taxar grandes fortunas, lucros e dividendos, que hoje são isentos no Brasil — uma distorção que só favorece os mais ricos. Também é urgente reduzir a carga tributária sobre o consumo de itens essenciais, que pesa diretamente no bolso da população de baixa renda. Precisamos ampliar políticas de transferência de renda, como o Bolsa Família, focadas em famílias em situação de vulnerabilidade. É fundamental investir no microempreendedorismo popular e facilitar o acesso ao crédito produtivo orientado, com taxas compatíveis com a realidade de quem empreende na base. Segundo o Sebrae, boa parte dos empreendedores do país são das camadas populares, mas enfrentam barreiras para obter crédito e se formalizar. Além disso, é necessário criar incentivos fiscais para empresas que investem na geração de empregos locais, na capacitação profissional e no desenvolvimento comunitário.
Outro ponto central é o endividamento das famílias pobres, que cresce à medida que o custo de vida aumenta e os serviços públicos deixam de cumprir seu papel. Quando o transporte, a saúde e a educação falham, a família de baixa renda precisa contratar serviços privados e recorrer a empréstimos — muitas vezes com juros abusivos. O resultado é um ciclo de dívida que compromete boa parte da renda e afasta a possibilidade de ascensão social.
Precisamos também democratizar o debate econômico. Quantas pessoas da periferia são ouvidas nas decisões sobre política fiscal? Quantos gestores públicos oriundos das classes populares participam das escolhas sobre onde o dinheiro público será aplicado? Quantos jovens da periferia têm acesso a uma educação que os prepare para compreender e intervir nos rumos da economia do país? Enquanto a economia continuar sendo um campo restrito às elites, não teremos um modelo verdadeiramente democrático.
Falar de economia com foco na população pobre não é apenas uma necessidade técnica — é um ato político. Quem mais contribui com sua força de trabalho e sua resiliência merece mais que promessas: merece oportunidades, dignidade e direitos. Por isso, precisamos construir um novo pacto econômico, baseado na justiça fiscal e na justiça social. Um pacto onde o Estado não seja apenas um cobrador de impostos, mas um indutor de desenvolvimento e garantidor de oportunidades. Onde quem tem mais, pague mais. E quem tem menos, tenha acesso, apoio e respeito.
A economia brasileira só será de fato democrática quando for socialmente justa. E para isso, é preciso coragem. E ação.