O preço da intolerância

Quando a intolerância se mistura com a política, as perdas são sempre coletivas
Foto: Gage Skidmore

No último dia 10 de setembro, o ativista conservador Charlie Kirk foi assassinado a tiros durante um evento no campus da Utah Valley University, em Orem, Utah. A notícia correu o mundo e, junto dela, uma onda simultânea de comoção e tentativas de exploração política de um crime bárbaro. E o fato objetivo permanece: um homem foi morto no exercício de sua atividade, diante de uma plateia, em uma universidade. Isso não é política, nunca foi e não podemos normalizar.

Antes de militante, Kirk era um ser humano: marido e pai de dois filhos pequenos. Uma família foi golpeada no que tem de mais íntimo, o lugar da mesa, a hora de dormir, o futuro imaginado em conjunto. A dor que se impõe à esposa e às crianças não tem lado nem cor partidária; é dor. É precisamente nesse ponto que a intolerância nos rouba algo essencial: a capacidade de reconhecer o outro como alguém que ama e é amado, alguém que tem sonhos e é esperado em casa. O luto de uma família não deveria ser insumo para lacração, nem moeda para a disputa política. Diversas coberturas jornalísticas registraram, com a sobriedade devida, esse aspecto humano.

Quando aceitar a violência vira opção, o debate construtivo, aquele que vale a pena, morre e com ele morre a possibilidade de construir soluções comuns, às vezes imperfeitas, porém possíveis. O ciclo é conhecido: um ato extremo gera um coro de justificativas; em seguida, tenta-se enquadrar o crime na narrativa favorita; por fim, erguem-se muros mais altos entre as pessoas. Nada acrescentou. Analistas sérios vêm alertando que episódios assim acendem luzes vermelhas sobre uma possível escalada de violência e, por consequência, sobre a própria saúde das democracias.

É aqui que precisamos respirar fundo e nos perguntar: para onde queremos ir? Se aceitarmos a lógica de “humilhar o inimigo”, “calar o adversário”, “destruir reputações”, trocaremos a política, que é arte de construir caminhos, por um vale-tudo improdutivo. Se admitirmos que vale ofender quem pensa diferente e comemorar tragédias alheias, estaremos abrindo a porta para que a mesma indiferença recaia sobre nós e os nossos. “Desumanizar” o outro sempre parece uma vitória fácil, até o dia em que a conta chega.

A intolerância política não começa com um tiro, nem termina com um voto. Ela se infiltra no nosso jeito de conversar, de escolher palavras, de supor intenções. Vira hábito: rotular antes de ouvir, responder antes de compreender, reagir antes de pensar. Quando esse hábito amplia-se e se converte em cultura, o resultado é uma sociedade cansada, irritadiça, que passa a confundir adversário com inimigo e que, pouco a pouco, deixa de reconhecer no outro um ser humano. É assim que a polarização se instala: primeiro sequestra o debate, depois paralisa as decisões, por fim reescreve prioridades. E o preço é alto: a administração pública não anda, os serviços ficam defasados e a tão sonhada entrega de um serviço perdeu para o que menos importa.

Os ciclos de ódio e indignação que dominam as redes funcionam como pequenas tempestades diárias. Elas nos empurram para as beiradas, onde o tom sobe e a escuta desaparece. O algoritmo recompensa certezas furiosas, não dúvidas honestas; premia a frase de efeito, não o argumento consistente; valoriza o ataque, não a solução. Nesse ambiente, a política vira espetáculo, o governo vira palco, e a gestão pública que é metódica e silenciosa, vira figurante. A polarização nos paralisa porque transforma cada pauta em guerra cultural, e guerra cultural não asfalta rua, não coloca médico no posto de saúde e não melhora aprendizado.

No Brasil, os efeitos práticos dessa dinâmica estão à vista. Há anos assistimos a agendas urgentes serem empurradas para depois em nome de disputas que pouco ou nada alteram a vida concreta das pessoas. A polarização não apenas toma tempo de quem decide; ela também contamina o chão das repartições, onde servidores e equipes se tornam reticentes, com medo de escolher qualquer caminho que possa ser interpretado como “posicionamento”. Nesse ambiente, perde-se coragem para decidir, apetite para inovar, paciência e persistência para implementar.

É por isso que este texto é, sobretudo, um chamado à responsabilidade aos administradores públicos: governar para quem mais precisa. Isso significa colocar a gestão pública no lugar de prioridade, como prática diária. Gestão é escolha, é sequência, é constância. É construir uma cultura de resultados. Governar para quem mais precisa também é priorizar o básico que transforma. O que melhora a vida de milhões não são as nossas certezas mais estridentes, mas as entregas que persistem quando os holofotes se apagam.

Nada disso exclui o debate político, pelo contrário. É o contraditório que testa a qualidade das políticas públicas. Mas contraditório saudável é feito de argumentos, com equilíbrio e sensatez, e não de ataques pessoais. Quando uma prefeitura, um governo estadual ou federal cria espaços reais de participação, promove consultas e audiências que valem de fato, publica dados abertos, divulga cronogramas e metas, a divergência deixa de ser ameaça e passa a ser insumo. A maturidade democrática se mede menos pela quantidade de aplausos e mais pela capacidade de lidar com a opinião contrária sem transformar toda discordância em ofensa.

É tentador acreditar que “o outro lado” é o problema e que “o nosso lado” é a solução. A verdade é menos confortável: a democracia é um arranjo de obrigação mútua. Ela pede a todos, governantes, oposição, imprensa, cidadãos, uma cota de paciência, autocontrole e compromisso com a regra do jogo. Exige reconhecer derrotas, aceitar alternância de poder, respeitar instituições, proteger minorias e, sobretudo, preservar a dignidade de quem discorda de nós. Quando perdemos essa referência, corremos o risco de normalizar o anormal e de achar inevitável o que é, na verdade, inaceitável.

O assassinato de Charlie Kirk foi mais um lembrete brutal de que o chão pode ceder quando desistimos da convivência democrática. A resposta mais civilizada que podemos oferecer, aqui e onde mais for, é insistir no respeito, combater a desinformação e colocar a gestão pública no centro do palco. Porque quem espera por nós não é um “lado”; é a população inteira, especialmente a que mais precisa. E é por ela que vale a pena diminuir o tom, construir pontes e voltar ao trabalho. Sim, eu seguirei acreditando que um dia voltaremos à normalidade.

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