Antes de falar de números, pesquisas e estratégias, vale um respiro: o Brasil virou um país onde a política parece mais uma arquibancada permanente em dias de clássico. A cada dia, uma nova briga, uma nova palavra de ordem, mais narrativas, um novo “contra” para chamar de seu. Só que, na vida real, esse barulho todo não põe médico no plantão, não abre vaga na creche, não termina obra parada e não coloca comida na mesa. A polarização deu protagonismo ao grito e empurrou para os bastidores aquilo que muda de fato a vida das pessoas: planejamento, execução e entrega. Esse clima cansa. Grande parte do eleitorado já percebeu que curtidas não pagam boletos e que vídeo viralizado não faz a fila das cirurgias eletivas andarem mais rápidas. A raiva rende engajamento, mas não resolve problema. Quando todo mundo só quer vencer a discussão do dia, ninguém organiza a solução da semana, do mês, do ano. É nesse Brasil real, que 2026 vai acontecer.
O “tarifaço” dos EUA, que elevou para 50% a tarifa sobre uma fatia relevante das exportações brasileiras, não é apenas uma disputa comercial: virou narrativa eleitoral. O governo respondeu com um pacote de R$ 30 bilhões em crédito e garantias (Plano Brasil Soberano) para segurar emprego e caixa de empresas impactadas; ao mesmo tempo, negocia exceções e tenta desarmar a crise pela via diplomática. Na prática, o efeito é territorial: polos do agro, metalmecânico e químico sentem primeiro e cobram respostas.
Esse choque externo reordena a conversa de campanha. Se a dor no bolso persistir, a oposição tentará colar no governo a imagem de fraqueza, incompetência e lentidão; se as medidas de crédito e negociação renderem proteção ao emprego e a contratos, o Planalto venderá “liderança responsável” diante da turbulência. Em qualquer cenário, a disputa volta ao básico: saúde, segurança, educação, emprego, investimento e a capacidade de cada candidatura de traduzir isso em algo palpável para o cidadão.
No tabuleiro partidário, a direita chega fragmentada. Sem Jair Bolsonaro na urna (ele segue inelegível até 2030 por decisão do TSE), surgem diferentes polos de atração no campo conservador, cada um com base e estilo próprios. A chance de esse campo se tornar competitivo depende menos de carisma individual e mais de coordenação: um nome único, um plano econômico compreensível e uma narrativa que fale com o conservador moderado sem espantar o eleitor cansado de briga. Do outro lado, a esquerda está concentrada. Lula acena publicamente com a possibilidade de disputar em 2026, condicionando à saúde; enquanto isso, eventuais planos B só ganham tração se ele de fato desistir. A fotografia de hoje sugere uma eleição que tende a se organizar como plebiscito “governo x alternativa” a menos que a direita se condense cedo em torno de alguém viável.
Há, sim, espaço para o centro, mas ele é estreito e exige engenharia política. O centro só sai do discurso e vira caminho se entregar três coisas: (1) União; menos candidaturas parecidas, mais coalizão disciplinada entre siglas que hoje competem pelo mesmo eleitor; (2) Palanques fortes, principalmente no Sudeste e no Sul, sem perder o fio no Nordeste; (3) Pragmatismo econômico; um cardápio claro para reindustrialização, crédito e comércio exterior, com respostas específicas aos setores afetados pelo tarifaço. Sem isso, o “nem-nem” vira, mais uma vez, apenas uma boa intenção e não uma “solução”.
Para o marketing político, 2026 será um teste de estresse em vários fronts ao mesmo tempo: um ecossistema de plataformas com regras voláteis para conteúdo político e anúncios; audiência fragmentada e cansada, com janelas de atenção de segundos e rejeição crescente a peças “publicitárias”; desinformação turbinada por IA generativa, deepfakes de voz e vídeo, “prints” fabricados e cortes fora de contexto, circulando em grupos fechados (WhatsApp/Telegram) a uma velocidade que supera a checagem; judicialização constante, remoções de propagandas, direito de resposta, decisões regionais, criando zonas de silêncio e insegurança; tensão entre narrativas de TV (ainda muito relevantes) e o fluxo caótico do digital, que impõe ritmos e temas próprios; competição interna em campos políticos (especialmente à direita) produzindo cacofonia e mensagens cruzadas; e, por fim, uma territorialização pesada do debate econômico, com o tarifaço atingindo setores e cidades específicas, exigindo leitura fina de humor regional sob um ambiente de descrença generalizada. A descrença do eleitor é o dado mais duro da equação. Não é cansaço “da política” em abstrato: é cansaço de promessa que não vira entrega.
Em 2026, a responsabilidade é do eleitor, mais uma vez. E mais do que nunca, haverá a oportunidade concreta de escolher; e não adianta dizer que não haverá opções. Elas existirão e serão distintas e a omissão também é uma (péssima) escolha. Cabe a cada um separar barulho de propostas, comparar trajetórias e números e decidir com serenidade. Democracia não se assiste, se pratica: o voto é a entrega que só você pode fazer.