A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, foi vítima de uma emboscada na Comissão de Infraestrutura do Senado na manhã da última terça-feira, 27 de maio. Após o esvaziamento da legislação sobre licenciamento ambiental ter sido aprovado no Senado na semana anterior — medida à qual a ministra se opôs publicamente com vigor —, ela compareceu à comissão, a convite, para responder a questionamentos sobre a licença para exploração de petróleo na Margem Equatorial. No entanto, os senadores a receberam com uma hostilidade exacerbada, com discursos provocativos, agressivos, desrespeitosos e misóginos, que parecem ter sido calculadamente planejados para gerar cortes para redes sociais ou, para me valer da linguagem virtual da moda, “lacrar” para seus seguidores políticos.
O presidente da comissão, o senador Marcos Rogério, depois de interrompê-la algumas vezes — e de ouvir a ministra reivindicar seu direito de resposta —, mandou-a, de forma debochada, “se pôr no seu lugar”. Ora, qual seria o lugar de uma ministra de Estado, autoridade constitucionalmente prevista para auxiliar o presidente da República? Como bem rebateu a ministra, ela não aceita um papel de mulher submissa. Será que um homem, exercendo o mesmo papel, seria questionado com esses termos vulgares?
Por sua vez, o senador Omar Aziz, de modo virulento, a responsabilizou pelo não asfaltamento da BR-319 — que liga Manaus a Porto Velho — e por “atrapalhar o desenvolvimento do país”. Contudo, como a própria ministra lembrou, ela ficou quinze anos sem ocupar nenhum cargo público — entre 2008, quando deixou de ser ministra no segundo mandato do governo Lula, até 2023, quando retornou ao cargo no atual mandato —, e a rodovia não foi reconstruída mesmo assim, apesar dos mais de seis anos de governos de direita, com os presidentes Michel Temer e Jair Bolsonaro, que não demonstraram muito apreço pelo meio ambiente. Isso revela a complexidade do projeto da obra dessa rodovia, que corta a Floresta Amazônica e levanta preocupações legítimas sobre seu potencial devastador, além dos condicionantes necessários como contrapartida.
Por fim, o senador Plínio Valério — que já havia dito anteriormente, de forma indecorosa, que tinha o desejo de enforcá-la — afirmou, dessa vez, que não a respeitava como ministra, apenas como mulher. A ministra o lembrou de que estava ali como ministra e exigiu desculpas. Ele se recusou e, em virtude disso, ela se retirou da comissão.
O ato de coragem de Marina Silva, ao não se curvar e confrontar a fúria predatória dos senadores, frustrou a armadilha que havia sido preparada contra ela. O tiro saiu pela culatra, e ela recebeu uma onda de solidariedade de políticos, jornalistas e cidadãos nas ruas e nas redes. O episódio foi percebido como um vexame ridículo dos próprios senadores.
Assim como nos dois primeiros governos Lula, quando Marina Silva foi ministra do Meio Ambiente — entre 2003 e 2008 — e recebeu reconhecimento global pela queda expressiva do ritmo do desmatamento no Brasil, o que parece incomodar os senadores entusiastas de um desenvolvimentismo predatório é que, mais uma vez, a ministra está trabalhando bastante e entregando resultados em favor do meio ambiente e do clima. Após a devastação ambiental aumentar progressivamente nos anos do governo Bolsonaro, por dois anos consecutivos o ritmo do desmatamento caiu no Brasil sob a liderança de Marina. Em 2023, a queda foi de 11,6%; e, em 2024, por sua vez, foi ainda maior: 32,4%, de acordo com dados do MapBiomas. No último ano, inclusive, houve queda no ritmo do desmatamento em todos os biomas, com exceção da Mata Atlântica, que estagnou.
Existe a expectativa de que, neste ano, os danos causados pelas queimadas sazonais também comecem a diminuir. Com a redução do estoque total de área degradada, os efeitos dos incêndios florestais tendem a cair consequentemente.
Para quem se preocupa com o futuro do planeta e espera responsabilidade da nossa geração para com as próximas, com a mitigação dos efeitos das mudanças climáticas, temos que torcer para que a ministra Marina Silva vença essa queda de braço contra seus detratores — seja na extrema-direita, seja no centrão, seja no “fogo amigo” que enfrenta dentro do próprio governo —, continue sendo bem-sucedida à frente do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e consiga cumprir as metas que o Brasil pactuou no Acordo de Paris para redução do desmatamento.
Pelo desenvolvimento sustentável: força, Marina Silva!