Peruaçu, Patrimônio da Humanidade: que se reconheçam também os mineiros

Alguns países preservam seus acontecimentos históricos e cultuam suas personalidades heroicas
Vista da Gruta do Janelão e a Perna da Bailarina ao fundo, no Cânion do Peruaçu - Foto: Ataliba Coelho

Edmund Burke (1729-1797) – filósofo, teórico político e orador irlandês – membro do parlamento londrino pelo Partido Whig, dentre tantas contribuições políticas, filosóficas e literárias que nos deixou, destacam-se citações que ultrapassam os séculos e, ainda hoje, nos ensinam como caminha a humanidade: “Um povo que não conhece sua história está fadado a repeti-la.”

A frase soa como um alerta; e é. As nações precisam conhecer seu passado, pois só assim não cometerão os mesmos erros no futuro. Porém, não menos verdadeiro, quando se desconsideram grandes feitos de grandes protagonistas de outrora, comete-se não apenas uma das mais graves injustiças, que é a falta de reconhecimento, mas desestimulam-se novos bons samaritanos.

Neste domingo, 13, durante a 47ª reunião do Comitê do Patrimônio Mundial da Unesco – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – ocorrida em Paris, o Cânion do Peruaçu, localizado em Januária, norte de Minas, no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, foi reconhecido pela entidade como Patrimônio Natural da Humanidade.

Entenda

O processo de candidatura foi realizado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o Ministério das Relações Exteriores (MRE). Com 38.003 hectares de extensão, o Cânion do Peruaçu reúne ecossistemas da Mata Atlântica, do Cerrado e da Caatinga. Abriga ainda um complexo de cavernas, sítios arqueológicos milenares e uma rica biodiversidade.

Alguns dos destaques são a Gruta do Janelão, com galerias que ultrapassam 100 metros de altura e 60 de largura, e a Perna da Bailarina, a maior estalactite do mundo, com aproximadamente 28 metros de comprimento. O cânion agrupa 114 sítios arqueológicos, que registram ocupações humanas com cerca de 12 mil anos, evidenciadas por pinturas rupestres excepcionalmente preservadas.

Foto: Acervo pessoal

O título de Patrimônio Mundial é concedido a locais de extrema relevância natural ou cultural, segundo avaliação da Unesco, que ultrapassam fronteiras nacionais e tem importância global. O Brasil é um dos principais detentores de sítios naturais do mundo. Além do Peruaçu, outros oito já receberam o título. O Brasil, agora, passa a ter 25 títulos de Patrimônio Mundial.

História

Em 1976, alunos da Escola de Minas e Metalurgia de Ouro Preto realizaram o X Congresso Nacional de Espeleologia, presidido por José Fernando Coura, atualmente vice-presidente licenciado da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), presidente licenciado do Conselho Deliberativo do Sindicato da Indústria Mineral do Estado de Minas Gerais (Sindiextra) e membro do Conselho de Administração da Petrobras.

Foi o estudante Coura, conforme extrai-se dos anais deste Congresso, quem batizou a localidade como Província Espeleológica de Januária. À época, a partir de informações do professor Simeão Ribeiro, os alunos analisaram aerofotos da Força Aérea dos Estados Unidos (USAF), e observaram que o Rio Peruaçu “desaparecia” por cerca de oito quilômetros, o que chamou a atenção dos jovens.

Fernando Coura, acervo pessoal

A ressurgência do leito fluvial à frente indicava claramente um subsolo formado por grutas e cavernas. Cinquenta anos depois, Peruaçu, graças aos docentes e discentes de Ouro Preto, ganha reconhecimento internacional oficial. “Hoje é um dia de muita emoção e saudosismo”, limitou-se a dizer Fernando Coura ao O Fator, natural de Dom Silvério, mas um apaixonado por Januária, onde tem fazenda.

Homenagem

Certo dia, lembra esse mineiro amante dos “causos”, voltando com colegas de uma expedição ao local, por causa do uniforme (foto acima) foram parados por militares. Perguntados sobre quem eram, acabaram confundidos com grupos “subversivos”. Levados ao famigerado Departamento de Ordem Política e Social (Dops) foram interrogados sob gritos e violência física. Eram os tempos obscuros da ditadura militar.

Alguns países – e cito de memória Estados Unidos, França, Japão, Israel e Irlanda – preservam seus acontecimentos históricos e cultuam suas personalidades heroicas. No Brasil, infelizmente, dentre tantos traços culturais falhos, temos o péssimo hábito de não nos importar com o que passou. Principalmente, com quem realizou. Por isso, essa coluna. Uma singela tentativa de reparação e reconhecimento.

Logo mais, às 17:30h, no Palácio da Liberdade, em Belo Horizonte, haverá uma solenidade oficial do governo mineiro para celebrar o título de Patrimônio Natural da Humanidade concedido ao Vale do Peruaçu. Será uma boa oportunidade para lembrar a história e homenagear os precursores desse longo caminho. Afinal, já ensinavam os gregos: “Existe apenas um bem: o conhecimento.”

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